Pelo menos durante quatro dias, sim. Domingo (28 de Junho) devolveu o MED à cidade e a cidade a quem lá vive. A maioria dos visitantes já partiu e as ruas respiram pausadamente. Nos becos da zona histórica voltam a ver-se os azulejos, a calçada, as portas abertas e os rostos da comunidade que constrói o festival. O ritmo abranda, as filas desaparecem e a programação acompanha essa mudança. É um dia desenhado para os locais e para os visitantes mais demorados, como se o MED precisasse de um momento de silêncio para a despedida.
Ao fim da tarde, a Igreja Matriz acolheu um dos mais simbólicos concertos desta edição. A Orquestra e o Coro do Conservatório de Loulé, dirigidos por Francisco Rosado, juntaram alunos portugueses e estudantes Erasmus num encontro onde a música se apresentou como linguagem comum. Foi o começo sereno para um dia em que os palcos eram menos e a cidade estava mais disponível para escutar.
Aproveitando essa tranquilidade, regressámos a uma das figuras discretas desta edição. Todas as noites, no fundo do palco Matriz, uma janela fazia parte do cenário. Nela aparecia uma mulher debruçada que acompanhava os concertos. Halyna recebeu-nos com um sorriso sereno, apoiada sobre o parapeito onde assistiu aos concertos das últimas três edições do MED. É ucraniana, vive no Algarve há duas décadas e há três anos mudou-se para aquela casa, uma varanda inesperada sobre o festival com vista para o mundo.
Confessa que o MED lhe rouba algumas horas de sono, mas nunca a paciência. “É uma pena não dormir, mas não estou triste nem zangada. Pelo contrário, é uma maravilha”, diz, enquanto olha para a praça onde os técnicos começam a desmontar o palco. Amanhã a vista fica livre, mas o mundo não passará ao mesmo ritmo. Gosta sobretudo de música instrumental, embora admita ter apreciado todos os concertos, mesmo aqueles que nem sempre compreendia. Foi o espetáculo dos Groundation que a emocionou. Gravou um vídeo e enviou-o à madrinha, na Ucrânia.
É quando fala da guerra que a voz abranda. O conflito perturba-a muito mais do que qualquer festival. A respiração treme-lhe ao assinalar a beleza de ver milhares de jovens reunidos a celebrar a música e a vida, sem drones, sem sirenes, sem armas no horizonte. “Mesmo em guerra, a vida continua na Ucrânia. Os jovens ucranianos também gostam de festejar e de ouvir música. Mas aqui não há drones nem armas e é muito mais bonito assim.” Quem conhece a guerra sabe o valor da paz. “É lindo ver as pessoas desanuviar do estado do mundo!”. E mesmo quando pareciam reunir-se todos os motivos, diz-nos: “Eu não choro, nem lamento. Eu vivo.”
Ainda a digerir as palavras, fomos até ao palco Castelo para escutar os Claustrophonia. Liderado por Ruben Monteiro, o projeto percorre as memórias do Mediterrâneo através de instrumentos antigos e de composições inspiradas em episódios da sua história. Alaúdes, percussões, cordas e flautas antigas desenharam um mapa onde as margens diferentes do mesmo mar pareciam reencontrar-se com a origem. Era como se o mar falasse para nos contar as histórias que dormem nele. Tudo era escuta entre o público e o som do ney turco abria uma passagem para a Ásia. Mais do que recriar música antiga, o grupo procurou mostrar como muitas das sonoridades que hoje identificamos como pertença de diferentes culturas nasceram, afinal, do mesmo espaço de encontro.
Na Cerca, a Filarmonia Campaniça apresentou outro exercício de memória. O projeto reuniu o RAIA, do multi-instrumentista alentejano António Bexiga, a Filarmónica Artistas de Minerva e as Moçoilas numa celebração das tradições musicais do sul. A guitarra campaniça encontrou naturalmente o sopro da filarmónica e as vozes do cancioneiro popular, revelando um património que continua vivo porque se reinventa. Perto do final, as palavras de Maria Teresa Horta surgiram numa canção de amigo escrita por uma mulher, aproximando séculos diferentes através da mesma ideia de pertença.
A última noite do MED terminava, curiosamente, a anunciar um começo. O concerto do quinteto Sara Badalo serviu de apresentação ao 30.º Loulé Jazz, marcado para julho, estabelecendo uma ponte entre dois dos festivais mais importantes da cidade. A cantora da Fuseta ocupou o palco com uma presença segura e uma voz capaz de mudar constantemente de forma. No dueto com a guitarra elétrica de Diogo Costa, ora parecia um instrumento de sopro, ora adquiria uma delicadeza quase etérea, desenhando frases que se confundiam com o próprio som da guitarra. Quando ficou sozinha em palco, improvisou sobre o tema tradicional algarvio “Tia Anica de Loulé”, unindo o jazz à memória popular da região e fechando o festival exatamente como ele sempre procurou existir: entre tradição e descoberta.
Quando as últimas notas desapareceram sobre a cidade, os técnicos começaram discretamente a desmontar cabos, luzes e estruturas. Na manhã seguinte regressaria o silêncio, o comércio e a rotina milenar de Loulé. Provavelmente Halyna voltará a abrir a janela para uma praça pacata. Na sua memória — e também na nossa — permanecem estes quatro dias em que aquela janela foi também uma varanda sobre o mundo. O MED não traz apenas o mundo a Loulé. Lembra-nos que, por alguns dias, Loulé consegue ser o mundo inteiro.