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Fotografia: Facada Records
Publicado a: 22/07/2026

O puzzle de uma editora que prefere abrir caminhos a fechar definições.

Facada Records: “Não há comunidade sem escuta”

Fotografia: Facada Records
Publicado a: 22/07/2026

Há precisamente um ano, quando o Rimas e Batidas conversou com Yaw Tembe, João Almeida e Norberto Lobo, Parkour Lunar, de CFT, era ainda uma promessa deixada para o futuro imediato da Facada Records. O disco do duo de João Lobo e Norberto Lobo acabou por cumprir um trajecto conforme ao tempo próprio – e assumidamente não linear – desta editora gerida por músicos: gravado em 2022, só agora encontrou o enquadramento certo, surgindo emparelhado com Reclining Postures, segundo trabalho de Sirius, projecto que junta Yaw Tembe a Monsieur Trinité. Se o primeiro propõe um voo lento por atmosferas de dub espacial, electrónica, canção e lovers rock, o segundo recupera a matriz electroacústica do duo para explorar o diálogo entre contemplação e improvisação livre.

O ano que separa as duas conversas foi, de resto, bastante mais preenchido do que a aparente lentidão poderia fazer supor. Depois de Orogénese, encontro de Yaw Tembe com Joana Guerra já anunciado na entrevista anterior, a Facada acolheu ÚLULU, de Raquel Lima, e Lugar X, de Catarina Vieira, dois audiolivros nascidos de processos multidisciplinares e colaborativos. Agora, Parkour Lunar e Reclining Postures acrescentam duas novas peças a um puzzle cuja imagem se torna progressivamente mais nítida, embora Yaw Tembe e João Almeida não tenham qualquer pressa em fixar-lhe os contornos. Na Facada, os discos, livros sonoros, concertos, residências e objectos físicos vão desenhando relações entre pessoas que se repetem e propostas que apontam em direcções muito diferentes.

A comunidade que na primeira entrevista servia para explicar a própria necessidade de existência da Facada adquire entretanto uma expressão ainda mais concreta no Ensemble of Other Living Beings, formação alargada que reúne boa parte dos músicos e projectos que se cruzam no catálogo da editora. É também a partir dessa experiência que a escuta surge nesta conversa não apenas como princípio musical, mas como condição indispensável de qualquer construção colectiva. Yaw Tembe e João Almeida falam ainda sobre o trabalho invisível entre lançamentos, a economia que determina se um disco pode sair em vinil, cassete, CD ou se é apenas traduzido em formato digital, a importância dos apoios sem dependência absoluta deles e a resistência possível num presente dominado pelas plataformas, pelo Spotify e pela disputa algorítmica da atenção. O puzzle continua longe de terminado. E talvez seja precisamente essa abertura que melhor define a Facada.



Antes de mais, parabéns pelos novos lançamentos. Há um ano, quando falámos, Yaw, terminavas a entrevista já a anunciar o disco de CFT. Um ano depois, cá está ele concluído. Tendemos a olhar para a vida das editoras de número de catálogo em número de catálogo, de lançamento em lançamento, esquecendo que, para cada um deles acontecer, existe muito trabalho invisível pelo meio. O que aconteceu neste ano, no que à Facada diz respeito?

[Yaw Tembe] Acho que, nessa mesma conversa, partilhei que dentro da Facada percebemos que temos um tempo bastante próprio e, às vezes, também não linear. Temos editado coisas que foram gravadas há já algum tempo, em alguns casos, enquanto noutros são trabalhos feitos propositadamente, a pensar num determinado conceito para um disco. Temos estado a juntar esses diferentes tipos de processo dentro dos lançamentos da Facada. Falámos em Julho do ano passado e já nessa altura anunciávamos uma edição de CFT ainda para esse ano. Estamos agora quase doze meses depois, com esse disco finalmente a sair. Não temos seguido propriamente um percurso linear. Na altura estávamos a falar dos lançamentos de Chão Maior, Lucifécit e Peachfuzz e, no final da conversa, já anunciávamos CFT e também Orogénese. Entretanto, Orogénese saiu e surgiram duas propostas, coincidentemente dois audiolivros, a que tivemos de dar prioridade no início deste ano: ÚLULU, de Raquel Lima, e Lugar X, de Catarina Vieira.

Comecemos por ÚLULU. De onde nasceu esse audiolivro?

[Yaw Tembe] ÚLULU vem na continuidade de um espectáculo com o mesmo nome, que a Raquel Lima co-criou com a mãe e que estreou no ano passado. O espectáculo reunia textos, canções e imagens em torno de rituais de vários países por onde ela tem passado – São Tomé, Brasil e Angola – e também, obviamente, da relação desses países com Portugal. Foram criadas várias canções para o espectáculo, muitas delas ligadas a um imaginário de canções de embalar e de folclore. Foi a partir desse material que a Raquel decidiu fazer o audiolivro, reunindo alguns dos textos e das canções que faziam parte do espectáculo. Foi também um livro co-editado com a Andarilho Edições, uma editora brasileira. Todo o processo de encadernação foi feito através de oficinas organizadas pela Raquel, que convidava várias pessoas a participar na encadernação dos exemplares. Foi, portanto, um processo bastante colaborativo. No Bandcamp da Facada temos apenas a componente sonora em versão digital. O livro propriamente dito não é vendido através da nossa página.

A outra edição foi Lugar X, de Catarina Vieira, que também partiu de um espectáculo, embora pareça ter sido mais do que uma simples transposição de um trabalho de palco para disco.

[Yaw Tembe] Sim, era mais do que um espectáculo. É um trabalho verdadeiramente multidisciplinar da Catarina Vieira. Ao longo de todo o projecto, que demorou mais de um ano — na verdade, o processo completo estendeu-se por cerca de dois anos —, ela foi convidada por várias pessoas e criadores a pensar esta questão do espaço que nos envolve. Era uma reflexão feita de uma forma bastante abstracta, mas também muito ligada à ideia de como podemos regenerar a Terra e esses espaços de uma maneira directa e literal, pensando a relação entre os diferentes elementos que os compõem. Lugar X acaba por ser uma ficção de viagens por diferentes espaços e territórios. A Catarina esteve em residência em vários lugares, entrou em contacto com pessoas e populações desses territórios e, a partir dessas experiências, foi recolhendo material que acabou por servir de base ao audiolivro. É um livro que reúne vários textos, musicados por mim e pelo Artur Pispalhas. É uma viagem pelo tempo e pelo espaço desses afectos que ela foi recolhendo ao longo de todo o projecto.

Pelo que percebo, há dois tipos de projectos que encontram espaço dentro do catálogo da Facada. Uns estão directamente ligados ao núcleo mais próximo da editora e às diferentes bandas em que vocês participam. Outros chegam como propostas de pessoas que vos perguntam se estão interessados em colocar o selo da Facada nesses trabalhos. É assim que acontece?

[João Almeida] Sim, tem sido assim. Regra geral, diria que temos disponibilidade para receber propostas, apesar de ainda não estarmos num ponto em que a editora possa financiar tudo aquilo que é necessário para fazer esses projectos acontecerem. Por vezes, os projectos chegam já com algum tipo de apoio por trás e estabelece-se uma entreajuda que permite pô-los cá fora. Noutras ocasiões não é necessário um grande esforço monetário e conseguimos ajudar directamente a concretizar a edição.

Mas há sempre uma atenção curatorial quando acolhem esses projectos? Não basta alguém bater à porta da Facada para o disco ser automaticamente editado, certo?

[Yaw Tembe] Sim. E, voltando à tua primeira pergunta, as edições que têm saído, mesmo recentemente, acabam por ser fruto de conexões e de relações prévias, de uma proximidade que já temos com essas pessoas. Ainda não chegámos a um ponto em que tenhamos acolhido projectos completamente estranhos à editora. Continua a existir uma relação muito próxima com quem editou ou tem vindo a editar pela Facada.

Podemos então falar de uma família estendida?

[Yaw Tembe] Sim, exactamente. É uma família estendida. A questão curatorial também passa por aí. Lembro-me de termos falado sobre isto no ano passado e continuo a sentir que cada edição abre uma nova possibilidade de caminho. Agora, por exemplo, lançámos estes dois audiolivros. Era algo que ainda não tínhamos feito até à data e, de repente, percebemos que estávamos a abrir uma porta para um novo caminho e para esse tipo de projectos. 

A imagem que me ocorre é a de um puzzle. Quando temos um puzzle em cima de uma mesa e começamos a montá-lo, ao princípio temos apenas uma, duas ou três peças e é impossível perceber qual será a imagem final. Temos apenas um conjunto de peças. À medida que vamos adicionandoo peças, a imagem começa a tornar-se mais nítida. É nesse sentido que vejo o catálogo. Serão coisas muito diferentes, mas acabam por se encaixar umas nas outras.

[Yaw Tembe] Era precisamente isso que eu ia dizer. Do meu lado, acho que não temos pressa em definir qual é a imagem da Facada ou, usando a tua metáfora, qual será a imagem final do puzzle. Temos pensado a questão curatorial sobretudo através do cuidado com os lançamentos e da maneira como podemos juntar diferentes edições. Foi algo que também perguntaste quando editámos simultaneamente os discos de Lucifécit, Chão Maior e Peachfuzz: por que razão fazer aqueles lançamentos ao mesmo tempo? Também é bastante clara a razão para termos apresentado os audiolivros de Raquel Lima e Catarina Vieira no mesmo conjunto. Mais do que fechar uma definição e determinar exactamente o que cabe ou não cabe na Facada, interessa-nos pensar em momentos em que possamos estabelecer conexões. Essas conexões podem ser mais ou menos óbvias, mas é isso que nos interessa.

É uma espécie de “leva” editorial, portanto.

[João Almeida] Exactamente. Houve uma altura em que os dois audiolivros tomaram a nossa atenção e tivemos de perceber como encaixar aquilo que vinha depois. Acabámos por perceber que também fazia sentido juntar os lançamentos de CFT e Sirius neste momento.

É um gesto curatorial semelhante ao que acontece muitas vezes nas artes plásticas: colocar em diálogo obras que podem ser esteticamente diferentes, ou até pertencer a eras distintas, porque faz sentido apresentá-las em conjunto. Falem-me então da decisão de lançar CFT e Sirius e da música que apresentam nesta nova fornada.

[João Almeida] CFT é o duo de João Lobo e Norberto Lobo. Eles já trabalham juntos há muitos anos e têm alguns discos em duo. CFT é uma espécie de novo contexto, no qual têm mais liberdade para explorar outras coisas. Este álbum estava já gravado há algum tempo. Foi gravado em 2022 e era um projecto que tinham em arquivo, à espera do momento certo para ser editado. Quando formámos a Facada, decidiram mostrar-nos o trabalho porque sentiram que tinham encontrado um lugar onde existia espaço para pôr realmente esta música cá fora. Em termos musicais, é uma junção de muitas das influências e dos interesses dos dois. Há dub, reggae, electrónica e música de dança. A coordenada do lovers rock é também muito importante. Eles usam ainda a voz, que tem vindo a tornar-se cada vez mais comum nos trabalhos de ambos. É uma mistura de vários interesses, mas feita de uma maneira bastante natural. Há uma liberdade que provavelmente vem desse novo contexto que criaram para trabalhar em conjunto.

A apresentação do disco fala numa viagem por atmosferas espaciais de dub, texturas electrónicas e vozes sob a influência do lovers rock. É uma combinação curiosa, até porque não é necessariamente a primeira coordenada que associaríamos aos percursos de João e Norberto Lobo.

[Yaw Tembe] Sim, e acho que é exactamente isso que este contexto lhes permite. Não é apenas uma continuação directa daquilo que já fizeram juntos ou dos trabalhos individuais de cada um. É um espaço onde podem reunir essas diferentes influências e explorar música electrónica, dança, dub, reggae e voz sem terem de corresponder necessariamente às expectativas associadas aos outros projectos.

No outro disco, Reclining Postures, existe um envolvimento directo teu. O que é Sirius?

[Yaw Tembe] Sirius sou eu e Monsieur Trinité. Este é o nosso segundo disco e nele retomamos algumas das experiências que fizemos nos primeiros anos do duo: a relação do dub com a música electroacústica, o processamento electrónico e a modulação. É uma espécie de regresso a uma abordagem que estava muito presente no início da banda, embora naturalmente informada por tudo aquilo que fomos fazendo entretanto.

Que pontos de contacto encontraram entre CFT e Sirius para justificar esta edição conjunta?

[Yaw Tembe] Um dos pontos de contacto é esse lado mais etéreo. São dois duos e existe electrónica em ambos. É uma electrónica muito virada para a relação com o espaço. Sempre que se usam delays e reverberações, o espaço acaba inevitavelmente por se tornar parte do assunto. No caso de Sirius, era também um projecto que estava de certa forma em arquivo. Foi gravado em 2024 e estávamos à procura do contexto certo para fazer o lançamento. Tínhamos ainda algumas coisas para fechar, mas acabámos por decidir apresentar os discos em conjunto porque sentimos que existiam muitos pontos de contacto entre eles. Também nos lembrámos do lançamento simultâneo de Cromelech, de DERIVA – o duo do João Almeida com Ricardo Martins –, e de Abrigos, o meu duo com Norberto Lobo. Acabámos por repetir esta fórmula de um lançamento duplo de duos.

Estes discos terão algum eco em palco?

[João Almeida] Para já, não há nada planeado para CFT. Também não sei se faz parte dos planos deles tocar esta música. Na verdade, acho que eles já estão a avançar para outras coisas. 

[Yaw Tembe] Quanto a Sirius, temos uma data marcada, mas ainda não é pública. Será num ciclo da Culturgest em torno do trabalho visual de Sei Miguel, em Novembro, se não estou em erro. Na altura certa será divulgado.

Estão neste momento no gnration, numa residência, o que me conduz à questão dos apoios. Há em Portugal um ecossistema relativamente fértil de apoios à criação e vários espaços onde é possível realizar residências, mas não existem tantos apoios especificamente destinados à edição. Nestes dois lançamentos recorreram novamente a mecanismos como o apoio da Fundação GDA?

[João Almeida] Nestes dois, não. Nem CFT nem Sirius recorreram a esse tipo de apoio.

[Yaw Tembe] Mas temos no catálogo vários projectos que receberam apoio da Fundação GDA e projectos maiores que tiveram apoio da DGArtes.

O acesso a esses apoios continua a ser crucial para conseguirem desenvolver o vosso trabalho?

[João Almeida] De qualquer maneira, continuamos a fazer as coisas e arranjamos sempre alternativas. Pelo menos da minha parte – não sei como é contigo –, nunca conto com ganhar um apoio. Porque, se ficarmos à espera de um apoio, as coisas não acontecem.

[Yaw Tembe] Obviamente, toda a história da arte, da música, da humanidade e de tudo o resto está ligada à questão económica de um determinado lugar. As condições económicas influenciam aquilo que é possível fazer. Os formatos das edições, por exemplo, são um reflexo directo dos apoios que temos ou não temos e das condições existentes para lançar aquela música. O facto de termos edições em cassete, em vinil ou noutros formatos é um reflexo directo dessas condições. Não é apenas uma escolha estética. Não é por mania que um lançamento sai em cassete e outro em vinil. Há uma dimensão estética, naturalmente, mas há também uma realidade material e económica que determina essas escolhas.

Ao mesmo tempo, há outro tipo de apoio, talvez mais orgânico para uma estrutura como a Facada: a comunidade que se vai apoiando e desenvolvendo redes de afinidade e cumplicidade. Sentem que essa comunidade tem crescido?

[Yaw Tembe] Sem dúvida. A Facada surge precisamente da percepção de que existe uma comunidade. E essa comunidade tem crescido. O projecto em que estamos agora a trabalhar no gnration tem tudo a ver com essa questão. Chama-se Ensemble of Other Living Beings e é a concretização dessa ideia de que existe realmente uma comunidade da qual a Facada faz parte. A Facada é apenas um elemento dessa comunidade, mas tem todo o interesse e toda a vontade de fazer alguma coisa em conjunto e de afirmar essas ligações.

Conseguem mapear um pouco essa comunidade? De que pessoas e projectos estamos a falar?

[Yaw Tembe] Falando deste projecto, acabamos também por nomear as pessoas e os grupos que compõem essa comunidade. O ensemble reúne várias bandas de que fazemos parte e amigos que participam noutras bandas. Através deste projecto, tentamos juntar essas pessoas no mesmo espaço. É difícil decidir se faz mais sentido listar as pessoas ou os grupos de que elas fazem parte, porque existem muitas ramificações. Mas talvez seja mais honesto começar pelas pessoas. Estamos nós os dois, Yaw Tembe e João Almeida, e depois o Álvaro Rosso, o Bernardo Álvares, o João Pereira, o Carlos Godinho…

[João Almeida] E ainda a Joana Guerra, a Helena Espvall, a Raquel Lima, a Leonor Arnaut, a Leonor Cabrita — a Orca —, o Bernardo Tinoco, a Teresa Costa e o Norberto Lobo.

A Teresa Costa é a flautista.

[Yaw Tembe] Exactamente. Se tentarmos depois organizar tudo isto por grupos, encontramos projectos como Zarabatana, Chão Maior e Peachfuzz, além do trabalho do Yaw com a Joana Guerra, com a Raquel Lima ou com o Norberto Lobo. Existem muitas bandas e muitos duos e trios diferentes. Acho que acabam por existir mais bandas do que pessoas. Cada pessoa tem as suas próprias ramificações e traz para o ensemble todas essas experiências.

Qual é o propósito do Ensemble of Other Living Beings? Estamos a falar de apresentações ao vivo, oficinas, gravações e de uma futura edição?

[João Almeida] Temos estado a trabalhar desde o início do ano, desde Janeiro. Com a excepção de Fevereiro, temos feito uma residência de uma semana por mês. Passámos por Lisboa, Caldas da Rainha, Coimbra, com o Jazz ao Centro Clube, e agora estamos em Braga, no gnration. Desde então temos vindo a desenvolver um trabalho que passa muito pela música dos diferentes projectos de que falámos e também por composições pessoais de cada membro do ensemble. Existe uma grande atenção à escuta e acho que, na verdade, esse é o foco do projecto: a escuta colectiva. Não há comunidade sem escuta. Já temos datas anunciadas e o plano é irmos para estúdio no final do ano. Há também uma terceira vertente, que são as oficinas que estamos a preparar e que serão realizadas nestes espaços de residência e acolhimento.

[Yaw Tembe] Há uma outra componente, que é a realizaç\ao de oficinas. A primeira oficina acontece aqui no gnration. O trabalho passa pela improvisação colectiva, por técnicas de escuta e por formas horizontais, fluidas e orgânicas de interacção. A presença sonora não é pensada apenas enquanto acto auditivo, mas como uma forma mais ampla de atenção e de relação com o espaço e com as outras pessoas.

A ida ao estúdio no final do ano já projecta uma futura edição da Facada?

[Yaw Tembe] Sim, será um projecto da Facada. Na verdade, já é um projecto produzido pela Facada e dará origem a uma nova edição no nosso catálogo.

Falámos do passado muito recente, com a dupla edição dos audiolivros, e do presente, com CFT e Sirius. O que está já planeado para o futuro da Facada?

[João Almeida] Estão planeados dois outros lançamentos. Um deles será a terceira edição de Orca pela Facada. Ela vai lançar um novo disco connosco. Vamos também ter uma estreia, um trabalho a solo do baterista Pedro Almiro. Será uma edição com várias particularidades. Uma delas é a utilização de tecido no objecto físico, embora os pormenores ainda estejam por decidir. Acho que é aquilo que podemos revelar por agora. Contando com a edição do Ensemble of Other Living Beings, são estes os três projectos que estão já no horizonte.

Cada vez existem mais debates sobre como se sobrevive neste tempo de luta desesperada pela economia da atenção. Também se tem discutido o futuro do Bandcamp depois das sucessivas mudanças de propriedade. Qual é a vossa experiência concreta da plataforma? Continua a servir os propósitos da editora?

[João Almeida] Diria que, neste momento, sim.

[Yaw Tembe] Sem dúvida. É uma das poucas plataformas que ainda podemos usar com algum alívio ético, sem a sensação de estarmos a financiar guerras, e onde existe um retorno relativamente justo e directo. A troca é bastante fácil, directa e honesta. Não é fácil encontrar isso hoje em dia. Também decidimos não usar o Spotify, a não ser que os artistas façam questão. Enquanto editora, evitamos tanto quanto possível colocar lá os lançamentos por essa mesma questão. Mas já sabemos como isto funciona. Estas empresas acabam por ser comidas pelos tubarões e certamente surgirão outras alternativas quando o Bandcamp deixar de cumprir esta função. É quase uma questão de tempo. 

Há ainda a questão de manterem os discos disponíveis para escuta integral no Bandcamp, sem limites ou prazos. Como conciliam essa acessibilidade com a necessidade de valorizar economicamente o trabalho?

[Yaw Tembe] Essa é uma questão que me surgiu há poucas semanas. Existe esta ilusão de que a música é gratuita, que também pode e deve ser problematizada. Há toda a questão da pirataria e da forma como isso surgiu nos anos 2000. Mas o facto de termos a música acessível é muito importante. Enquanto músicos e editores, é fundamental conseguirmos contribuir para que as pessoas possam escutar estes trabalhos. Há uma tensão entre a acessibilidade e a valorização económica da música, mas não queremos que a impossibilidade de comprar um disco impeça alguém de o ouvir. O Bandcamp, pelo menos neste momento, ainda permite manter essa relação relativamente directa e honesta entre quem faz, quem edita e quem escuta.

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