“Dor De Língua” é o novo videoclipe de Ângela Polícia

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Moca

Mais uma entrada nas contas da Crate Records nesta recta final de 2017 com Ângela Polícia a revelar um novo videoclipe saído de Pruridades, o álbum de estreia que foi editado no início deste ano.

Este é o terceiro single do rapper e produtor bracarense que se juntou à equipa da Crate Records no primeiro trimestre de 2017. Com o apoio de Razat para limar algumas arestas presentes no disco, Pruridades veio colocar na montra nacional o lado mais punk e distorcido que o hip hop tem para nos oferecer. “Quarto pt. 1” foi a balada embebida numa dose humanamente intolerável de ácidos, com a qual se deu a conhecer, a banda sonora perfeita para um passeio alucinado pelas profundezas do underground lusófono. Seguiu-se um segundo vídeo para nos empurrar definitivamente para “O Outro Lado”, um tema de consciencialização onde Ângela Polícia e os Colectivo Projéctil alertam: “Não queremos mais areia para os olhos, não!”

 



“Na composição dos temas toquei, samplei, programei, estraguei, melhorei, misturei, acabei. Convidei amigos músicos, e não só, para fazer experiências em cima das minha batidas, que correram lindamente. Até o meu sobrinho participou no disco,” revelou o artista da Crate quando, no Rimas e Batidas, foi dada a oportunidade aos nossos leitores de um acesso antecipado ao seu álbum de estreia.

Rui Correia foi o redactor da nossa equipa a quem coube analisar Pruridades. E não lhe faltaram os elogios na hora de colocar a primeira obra de Ângela Polícia na balança, face à mescla sónica que foi servida numa suja bandeja. “Desde o noise-hop de Death Grips, pela crueza com que ataca as suas rimas no beat intermitente da faixa introdutória “Dor de Língua”; à pop alternativa e bipolar, acompanhada da guitarra viajante tocada pelo Moca, em que se apresenta no single “Quarto, Parte 1” e que sob efeitos secundários recreativos, paira no ar o refrão “quero fugir, mas não posso/perdido num mundo sem norte/acendi o charro e voei/para tão longe que não sei onde estou”; à electrónica que mistura dancehall (ao bom estilo inglês, surge-me em pensamento The Bug), como no longo tema de 8 minutos “Na Espera”, em que faz observações das contrariedades humanas, sem se colocar de parte, diz-nos, repetindo “haverá sempre uma cidade em todos nós(…) haverá sempre solidão em todos nós”; ao spoken word niilista envolto em ritmo trap no encerramento do álbum, “Graças!”, onde declama cegamente “Graças a quem matou o meu Deus, assim não há esperança e ‘tá-se muito bem”.

Hora de preparar as listas de final de 2017 e todos os argumentos são válidos para para ponderar sobre a estonteante estreia a solo de Fernando Fernandes, ele que é também vocalista nos Bed Legs. O recém estreado vídeo para “Dor De Língua” traz Pruridades novamente para cima da mesa de discussão. Moca, o colaborador na guitarra presente em “Quarto pt. 1”, ficou agora encarregue da realização do videoclipe editado pela Crate Records, gravado no Estúdio Projectil, outra das iniciativas em que Ângela Polícia se encaixa.

Podem – e devem – recordar o disco que acompanhámos de perto por aqui, no Rimas e Batidas.

 


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira

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