Ângela Polícia // Pruridades

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[TEXTO] Rui Correia [FOTO] Direitos Reservados

No submundo de Braga, nasceu música urgente, de alma inquieta e com confiança suficiente para firmar uma identidade própria. Sustentado pela camaradagem citadina (com destaque para o colectivo Projétil) e o lema DIY, Ângela Polícia compatibiliza-se com outros meios percorridos por artistas underground, igualmente peculiares e exploradores, seja em Nova Iorque pelos Ratking ou em Detroit por Danny Brown ou em Londres por Kate Tempest: todos eles representam conscientemente a sua própria realidade local com uma voz operária globalizada.

Ângela Polícia, nome pelo qual não é tão habitual chamarem Fernando Fernandes, é um multifacetado artista, conhecido como vocalista da banda rock Bed Legs e ainda como DJ Pink Da Soundsystem. Na sua estreia a solo com o álbum Pruridades (uma palavra inventada, que combina “prurido” + “prioridades”), lançado pela Crate Records (editora lisboeta que trouxe à luz do dia um dos registos mais interessantes de 2016 com o EP Baço de L-Ali & Pesca),  Ângela Polícia, que escreveu e produziu inteiramente sozinho este trabalho, surpreende pela quantidade de referências sonoras que trouxe até si: desde o noise-hop de Death Grips, pela crueza com que ataca as suas rimas no beat intermitente da faixa introdutória “Dor de Língua”; à pop alternativa e bipolar, acompanhada da guitarra viajante tocada pelo Moca, em que se apresenta no single “Quarto, Parte 1” e que sob efeitos secundários recreativos, paira no ar o refrão “quero fugir, mas não posso/perdido num mundo sem norte/acendi o charro e voei/para tão longe que não sei onde estou”; à electrónica que mistura dancehall (ao bom estilo inglês, surge-me em pensamento The Bug), como no longo tema de 8 minutos “Na Espera”, em que faz observações das contrariedades humanas, sem se colocar de parte, diz-nos, repetindo “haverá sempre uma cidade em todos nós(…) haverá sempre solidão em todos nós”; ao spoken word niilista envolto em ritmo trap no encerramento do álbum, “Graças!”, onde declama cegamente “Graças a quem matou o meu Deus, assim não há esperança e ‘tá-se muito bem” .

São estas algumas das referências que sustentam um artista com alergia a classificações de género, tamanha é a forma híbrida com que construiu este disco. O experimentalismo sonoro e a pureza do seu discurso, resultam de uma atitude punk com tendência para quebrar barreiras musicais, unificar diferentes ritmos e texturas ao sabor da mensagem que apresenta em cada uma das sete faixas.

Resta abrirem-se ao mundo alienado de Ângela Polícia. Não sairão dele indiferentes.

 


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