DJ Ride lança MERAKI: “Tenho finalmente a oportunidade e as ferramentas para explorar sonoridades que adoro”

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Aidan Kless

MERAKI é o novo EP de DJ Ride e marca a sua estreia pela Slow Roast Records, a editora chefiada pelo histórico DJ Craze. Stereossauro e os Bass Brothers são os convidados do trabalho composto por quatro faixas originais e uma scratch tool.

Longe vão os tempos de Turntable Food, o álbum que dava a conhecer Tomás Oliveira enquanto um dos nomes que surgiam na linha da frente de uma então nova geração de produtores afiliados à estética do hip hop. Mais de 10 anos já se passaram desde essa edição pela Loop:Recordings e o input de Ride tem sido requisitado por vozes incontornáveis da nossa praça como Slow J, Valas ou Capicua — esta última voltou a chamá-lo para “Madrepérola”, o tema-título que antecipa o sucessor de Sereia Louca.

À óptica dos comuns dos mortais podem até escapar alguns dos seus muitos outros feitos, mais importantes até do que todos os que acima referimos. Com a cultura do DJing a empobrecer a olhos vistos no nosso país, Ride nunca atirou a toalha ao chão e tem representado Portugal em alguns dos mais importantes campeonatos da modalidade à escala planetária. Seja a solo, como aconteceu no Red Bull 3Style deste ano, ou ao lado de Stereossauro nos Beatbombers, campeões do mundo por duas vezes no circuito IDA. Como produtor, Tomás Oliveira faz parte do núcleo duro de activistas sónicos que meteram as Caldas da Rainha em destaque para o mundo inteiro, uma das capitais improváveis para a produção de hip hop de cariz mais electrónico e digital e em constante fusão com fenómenos musicais emergentes como o trap, a bass music, o footwork, o moombahton ou o clássico drum’n’bass.

Novo dia, novo marco para DJ Ride. MERAKI assinala a estreia do produtor pela etiqueta discográfica de DJ Craze, um dos seus ídolos e figura incontornável atrás dos gira-discos, até hoje o único a vencer o campeonato da DMC por três vezes consecutivas. Depois de ter feito uma digressão ao lado de Kanye West, Craze fundou a sua própria Slow Roast Records, que começou por ser uma subsidiária da Fool’s Gold, de A-Trak, mas que agora opera de forma independente, tendo já servido de casa para emergentes artesões da batida como Kill The Noise, Codes ou CRIMES!.

A propósito do lançamento, o Rimas e Batidas falou com DJ Ride sobre o novo trabalho, bem como alguns dos outros marcos de 2019, como a presença no último Red Bull 3Style e a primeira digressão na China.



Regressaste às battles no arranque de 2019, desta vez sem o teu companheiro de armas, e representaste Portugal no Red Bull 3Style, em Taipé. Alguns meses depois voltaste ao continente asiático para uma digressão inédita na China. Como tem corrido este ano na estrada, seja para colocares os teus skills à prova ou para entreter novos públicos?

Eu nem sabia que tinha fãs na China! Ter ido à Ásia por duas ocasiões diferentes este ano foi muito especial. Por acaso estava a ver algumas fotos no Instagram esta semana e até sentia que o 3Style e o lançamento do álbum do Stereossauro, entre outros highlights, aconteceram há mais tempo, mas não, foi tudo este ano. Sinceramente foi um dos melhores anos para nós como dupla, e a nível individual foi também o ano em que viajei mais — Ásia, algumas datas na Europa, gravei também um vídeo para a Serato, em Londres, que vai sair entretanto. Mais os releases e, claro, ter estado envolvido no projecto Bairro da Ponte, tanto na produção como na tour ao vivo com a banda, que nos tem dado muito prazer tocar.

Já lá vão mais de 10 anos desde o Turntable Food e, nos últimos tempos, abraçaste a cena bass que tem emergido no SoundCloud, tendo cravado o teu nome em diversos selos internacionais, com a Saturate, a Quality Goods ou a Playaz entre os mais recentes catálogos a receber a tua música. Como olhas para o teu trajecto e de que forma avalias o teu actual momento enquanto produtor?

É engraçado falares no Turntable Food porque sinto que já nessa altura eu explorava a cena bass, mas de outra maneira. Já nesse álbum tinha lá uns temas com sintetizadores e uns wobbles, mas claro eram outros tempos e outras estéticas. Eu sempre tive a ambição de poder produzir temas que pudesse passar nos meus DJ sets e qualquer produtor quer ver os seus temas editados em labels com história, mas no fundo foi uma questão de timing e skill. Timing porque durante anos foquei-me nos campeonatos de scratch e também me deu muito trabalho lutar para ter o meu espaço no circuito e na scene nacional. Quando comecei, há 14 anos, as coisas eram completamente diferentes e eram raríssimos os clubs ou festivais que apostavam em hip hop ou música electrónica que fosse além do techno e house. Felizmente as mentalidades mudaram muito! E em relação ao skill, demorei a conseguir estar mais à vontade e a aperfeiçoar certas técnicas. Hoje em dia passo os meus temas na boa num DJ set, e a nível de produção/mistura/masterização ‘tá-se bem. Mas se for aos meus álbuns antigos… É mais complicado, não tinha sequer tantos recursos ou know-how. Daí ter conseguido nos últimos tempos editar nessas labels e ver alguns DJs que admiro a passar finalmente os meus temas, como o DJ Shadow, UZ, DJ Craze, Noisia Radio, etc. Actualmente estou mais focado e com um mindset diferente, tenho finalmente a oportunidade e as ferramentas para explorar sonoridades que adoro. Sem nunca esquecer, obviamente, parcerias com temas vocais: este ano produzi o tema do Stereossauro com a Ana Moura, o do Nerve, entre outros; o “Teu Eternamente” do Slow J ou o primeiro single da Capicua com Karol Conká.

Agora chegas à Slow Roast, uma label criada pelo DJ Craze, que, dado o seu trajecto, facilmente imagino ser um dos teus heróis. Como se deu esta parceria?

Eu basicamente tenho três/quatro DJs preferidos: o D-Styles como scratcher puro, DJ Kentaro como beat juggler, DJ Shadow como beatmaker e loop digger e o Craze como battle DJ e alguém que vem da golden era dos anos 90 mas que continua relevante e a fazer coisas arriscadas. Ele é mesmo uma das minhas maiores influências e às vezes dou por mim, quando estou a trocar mensagens com ele, tipo “damn, estou mesmo a falar com o meu ídolo” [risos]. Aliás quando o conheci nem tivemos grande click, em 2015 no 3Style de Tóquio. Provavelmente ele estava mega busy e eu meio tímido. Mas voltámos a estar juntos no início do ano em Taiwan, ele gostou das minhas rotinas/set e isso ajudou imenso a quebrar o gelo. É algo que adoro na comunidade hip hop e nas battles, esta ideia de meritocracia. Se tens skill, o pessoal, mesmo que sejam lendas vivas, vem ter contigo e dá-te respeito, mesmo que sejas um miúdo que vem da outra parte do mundo. Eu estive durante o Verão a preparar umas demos novas, mostrei-lhe e foi até ele que escolheu os quatro temas, de uns 10 que enviei.

Fala-me do título que escolheste para o EP, MERAKI. É um mantra que tens mantido para ti mesmo durante a tua caminhada?

Sim, sem dúvida, é algo que aplico nos meus trabalhos. Mas este nome tem uma história bem menos profunda. Eu sou péssimo com nomes e títulos para álbuns/EPs ou músicas… Então às vezes dou por mim a procurar palavras estranhas com significados com que me identifique. Já o EP que fiz para a SATURATE tinha como título NOESIS que também é uma palavra grega. Encontrei a palavra MERAKI no Tumblr, gostei da sonoridade e do que significa e guardei-a.

Escolheste quatro temas para integrar o trabalho, que vão do trap ao drum and bass, servidos com afinações milimétricas ao nível do sound design, como tu tão bem sabes fazer. De que forma foram criados estes instrumentais? Formaste logo algum conceito na tua cabeça mal o Craze te abriu as portas da Slow Roast?

Geralmente o processo é diferente, raramente as labels vêm ter contigo. Passa quase sempre por mandares umas submissões ou às vezes há um ”convite” informal, mas acabas sempre por mandar varias demos. E foi o que fiz com o Craze. Sabia que ele estava a planear os próximos lançamentos e enviei-lhe umas 10 ideias. Um dos temas até pensei que ele não ia escolher, mas ele curtiu e ficou. Não há grande conceito, são temas feitos com o objectivo de baterem num bom soundsystem. É um bocado o espírito da editora, temas para DJs passarem. Sendo uma label ligada ao turntablism incluí também uma DJ tool com samples de scratch e alguns loops retirados de músicas do EP.

Colaboras com o Stereossauro e com os Bass Brothers, dois nomes a quem te associas recorrentemente durante o teu trajecto. Já fazem isto “às cegas” ou existiu sempre uma troca de ideias acerca do rumo que as faixas tinham de tomar? Trabalharam juntos no mesmo espaço?

Foi tudo feito à distância. Com os Bass Brothers foi na altura em que convidámos o André (um dos elementos) para tocar nas nossas noites Beat Palace. Eu já tinha produzido cenas meio drum and bass mas nada que me orgulhasse muito ao ponto de incluir nos meus sets. Voltei a experimentar novamente e enviei umas ideias, uma delas ficou para o meu EP, a outra saiu na mítica label Playaz, no EP de Bass Brothers. Digamos que foi uma boa ”permuta”! Com o Stereossauro tinha mesmo de o incluir, porque como scratch nerds que somos qualquer coisa que envolva o Craze tem um valor muito simbólico para nós, e então enviei-lhe o tema e curiosamente foi ele o responsável pelo último drop da faixa ”Wild”. É uma caixinha de surpresas.

Noutras paragens, estreaste-te ainda nos sample packs com o Shaman Trap. Já tinhas criado ferramentas para ajudar os DJs — inclusive o Meraki tem a sua própria scratch tool — mas dás agora também uma mão aos produtores com esta nova biblioteca de sons originais. De onde partiu esta ideia?

Criar um sample pack é sempre desafiante e neste caso foi a plataforma Noiiz.com que entrou em contacto comigo. E foi uma boa experiência! Tanto que, para o ano que vem, tenho previsto outro sample pack, desta vez na plataforma mais popular que é o SPLICE. Eu uso bastantes samples de diversas fontes, inclusive destas plataformas, por isso é sempre bom dar algo de volta também à comunidade. E tirar o pó a algumas das máquinas mais antigas do meu estúdio.


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira