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Dino D’Santiago sobre “Nôs Funaná”: “A maior homenagem neste lançamento é à mulher cabo-verdiana”

[TEXTO] Alexandra Oliveira Matos [FOTO] Pluma

Das ruas de Cabo Verde para o mundo inteiro: já podemos ouvir o primeiro single do novo álbum de Dino D’Santiago. “Nôs Funaná” tem produção do londrino Paul Seiji e co-produção do nova iorquino Rusty Santos. Numa viagem pelas raízes do cantor que nos tem trazido os ritmos quentes das suas origens familiares, os dois produtores foram beber o funaná lentu, uma sonoridade do interior da ilha de Santiago — a preferida de Dino.

No vídeo assinado por Pluma, é possível ver e ouvir o testemunho de Bino Branco dos Ferro Gaita, homenagear Bitori Nha Bibinha e, principalmente, fazer uma vénia às mulheres nas palavras de Nha Balila. “Se a mulher nada é, o homem também nada pode ser”, sublinha Dino d’Santiago ao repetir as palavras da “senhora mais antiga que representa o género batuku em Cabo Verde”.

O músico acredita que este single é o “início de deixar um legado para as novas tendências”, pois, para ele, o funaná é isso mesmo, uma herança. A BPMs mais baixos do que possamos estar habituados, Dino juntou o funaná à kizomba e à música electrónica para abrir as portas de um álbum que se prevê aquecer o outono de 2018. A produção executiva do projecto está a cargo de Kalaf Epalanga e Paul Seiji vai fazer grande parte da cama instrumental para a mensagem de Dino d’Santiago. Tudo o resto, incluindo o nome do LP, continua no segredo dos deuses.

 



O que significa para ti este single?

Este single para mim significa o início de deixar um legado para as novas tendências, para o que esta fusão entre a música tradicional e a música urbana simboliza para mim. E para a nossa lusofonia, que durante tantos anos foi muito conservadora, mas a partir do momento que entra uma era, ali a partir dos anos 2000, em que a urbanização começa a tomar conta das sonoridades mais modernas, então esse casamento para mim é onde reside o segredo. Podemos dizer: sim, realmente temos um som diferente de qualquer outro, anglo-saxónico ou francófono, que sempre ditaram muito as tendências. Sinto que estamos numa era em que nós ditaremos as tendências e daí Lisboa ser o epicentro para essa viagem, comigo felizmente a trazer um pouco de Santiago para ela também.

Queres deixar um legado agarrando nas tuas raízes, como o funaná, não é?

Isso mesmo. Deixar um legado porque o que sempre senti é que, imagina, um jovem que vive em Cabo Verde, ou mesmo que está na diáspora, mais facilmente, mesmo quem está ligado ao hip hop, vai buscar as sonoridades que os Estados Unidos ou que Inglaterra têm e transportam para o seu universo, só mudando a língua. Cantas em português, em crioulo de Cabo Verde ou outro crioulo, mas a génese mantém-se a americana. E o que eu senti é que temos uma riqueza rítmica tão vasta, Cabo Verde, por exemplo, são 10 ilhas e ritmos infindáveis que vão desde o funaná, à morna, ao batuque, ao cóla san jon, à coladera. E eu peguei naquele ritmo que o meu pai me trouxe que foi o funaná, que é da ilha de Santiago, e da forma que mais gosto que é o funaná lentu que é muito desconhecido para as massas. Quando se fala em funaná lembram-se sempre daqueles BPMs 150, 170 e aqui vamos a BPMs de 90, descemos muito o BPM, que é uma herança trazida pelos Bulimundo numa primeira instância para mim. Então, trazer isto para esta sonoridade mais urbana, que é fruta das minhas viagens e das minhas tendências, das minhas inspirações, foi, sem dúvida, o meu maior desafio. Está aí uma viagem de dois anos em que o Paul Seiji, o produtor inglês, foi para Cabo Verde, assim como o co-produtor deste tema, Rusty Santos, que é um nova iorquino que já trabalhou com muita gente e chega ali a Cabo Verde e percebeu claramente que o funaná era algo. Ele frisou mesmo, “We gotta put this song on the floor“, temos que levar este som para uma pista de dança. Aí fez-se um clique que foi realmente então reestruturar toda a estratégia que tinha preparado com o Kalaf e trazer este funaná desta forma tão híbrida e única. Estou muito feliz com a fusão.

A música tem um toque de kizomba e de electrónica, tal como a descrevem no comunicado sobre o single. Foste também beber aí?

Sim, naturalmente. A kizomba é uma dança de casal, tem esse flavour. O funaná tem outro tempero, é algo mais tradicional. Enquanto que a kizomba transmite mensagens mais de sedução, aquilo a que nós chamamos “saboro engate”, o funaná está mais perto do hip hop em termos de mensagem. É um género que saiu do interior de Santiago como que um grito do Ipiranga, mas um grito muito crioulo. Baixando o BPM para o funaná lentu já consegues fazer com que as pessoas dancem e recebam a mensagem também. A kizomba teve um papel importante na sonoridade e depois juntar o lado electrónico que o Seiji traz, o Kalaf também traz fruto dos seus Buraka Som Sistema, o Rusty também traz fruto daquela Nova Iorque tão ecléctica: temos aí uma combinação que é única.

Isto para o single, depois para o álbum podemos esperar outras coisas, não é?

O que aconteceu com este single foi o mesmo que aconteceu com todos os outros, levaram todos esta roupagem mais electrónica. Então é um álbum muito mais electrónico só que com uma génese que são os ritmos de Cabo Verde e a minha experiência entre Lisboa, Berlim, Londres, Nova Iorque e Luanda, culminando em Santiago. É mesmo essa a viagem.

Dizes que os levaste a Cabo Verde, ao Paul e ao Rusty. Qual foi a reacção deles quando chegaram lá e o que sentiste ao estar a mostrar as tuas raízes?

Uma coisa que foi boa foi estar a gravar em casa. Conforme passávamos na rua toda a gente começava a cantar e a dizer “Dino, ‘Nôs Tradison’, obrigado”. Então eles (Seiji e Rusty) perguntavam porque é que tanta gente gosta do “Nôs Tradison”. Viam pessoal dos guetos, pessoas mais conservadoras, jornalistas a falarem da música. Num feliz dia fomos a um bar onde estavam a tocar o “Nôs Tradison”, depois chamaram-me a palco para eu cantar e eles perguntaram-me qual era o ritmo da música. Felizmente é um funaná lentu. Foi aí o clique e querem regressar, por eles gravamos todos os discos em Cabo Verde.

O que queres transmitir com os testemunhos que tens pelo meio do vídeo que acompanha este single?

Quero transmitir respeito pelo funaná, daí ter trazido as grandes lendas do funaná em Cabo Verde. Como o Bitori Nha Bibinha que viaja para São Tomé para conseguir trabalhar e comprar aquilo que chamam de gaita, para nós é o acordeão. Hoje é um homem de oitenta e tal anos que finalmente é reconhecido e corre pelo mundo fora, desde a Malásia à Alemanha, Holanda, Estados Unidos, levando o nosso funaná. Então quis homenageá-lo neste meu agarrar do funaná. Depois tenho o Bino Branco dos Ferro Gaita, que é a nossa grande lenda a tocar o ferrinho. E sem dúvidas a maior homenagem que eu tenho para este lançamento é à mulher cabo-verdiana, essa mulher crioula, que começa na Nha Balila, a senhora mais antiga que representa o género batuku em Cabo Verde. No vídeo está o testemunho dela a explicar mesmo isso, se a mulher nada é, o homem também nada pode ser. Essa é a mensagem mais forte que este “Nôs Funaná” pode transmitir, é esse respeito pela mulher. Hoje, felizmente, e a entrevista está a ser contigo, vocês estão em todos os cantos e são verdadeiras líderes e eu sinto que com a mulher no comando da humanidade tudo será mais fácil. Vocês têm um instinto protector natural e um instinto guerreiro natural que nós homens não temos. Nós homens temos esse instinto para vos conquistar, no sentido de que são o grande mote para as nossas boas aventuranças. Acho que essa homenagem não poderia ter sido melhor. Já tinha sido com o “Nôs Tradison” homenageando a minha avó e as minhas raízes, agora com este “Nôs Funaná”, com esta nova viagem, o foco continua a ser a mulher.

Qual é que esperas que seja a reacção das pessoas ao single?

Quando estive a filmar o vídeo em Cabo Verde com o Pluma sentimos que as pessoas conforme iam ouvindo o tema queriam repetir e perguntavam quando saía. O feedback que já tenho tido só com as imagens que o pessoal tem visto tem sido muito positivo. Acho mesmo que vai chegar a muita gente e que finalmente vai romper aquela barreira. Em Lisboa, por exemplo, onde agora vivo, tu sentes que o crioulo é como se fosse uma segunda língua, que ouves por onde passas. Sentes que o crioulo é uma língua que circula pelas ruas, quer nas ruas quer na língua falada. Então acho que chegou o momento de as nossas rádios, a nossa media, saber acolher isso que é tão nosso. Como os ingleses e franceses também fizeram, que abraçaram as línguas dos países que colonizaram e sentes nas rádios que flui de uma forma natural. Acho que chegou o momento do crioulo também fluir. Temos o movimento do rap crioulo, da kizomba, esses movimentos mais urbanos que estiveram mais afastados. Hoje em dia consegues sentir que já há uma abertura mais natural. A nossa Lisboa tem sido essa embaixatriz desse movimento e daí tanta gente vir a Portugal para sentir essa Lisboa crioula.

 


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