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Fotografia: Manuel Abelho

Uma pequena luz ao fundo do túnel.

Dino D’Santiago no Campo Pequeno: a catarse depois da marcha

Fotografia: Manuel Abelho

Um edifício “ocupado” por optimismo e cultura e uma cidade a ferver por justiça e equidade. Sucintamente, isto poderia ser um resumo daquilo que se passou em Lisboa no dia 6 de Junho de 2020, mas não faria jus à força das acções — que se estenderam pelo resto do país, bem como por outras cidades pelo mundo fora, especialmente nos Estados Unidos da América, onde a luta já leva muitos dias nas pernas –, e ao simbolismo de um concerto que ganhou contornos de ritual pós-luta.

Tudo foi diferente neste regresso a uma sala de espectáculos: o controlo à entrada foi muito maior (fomos encaminhados por quatro pessoas diferentes até nos sentarmos no nosso lugar), existia um distribuidor de desinfectante ainda antes de entrarmos no espaço e a gestão de cada movimento lá dentro foi apertada. Se este ambiente controlado (com muitos lugares vazios para garantir o distanciamento) parecia prever uma festa bem mais morna do que se poderia imaginar numa situação pré-COVID-19, o que aconteceu foi exactamente o contrário, desde o primeiro segundo: mal Dino D’Santiago pisou o palco, uma chuva de palmas foi disparada com a intensidade de quem esperava por aquele momento há muito tempo, e a ideia de se ficar sentado durante o concerto começou a parecer utópica, mesmo que o cantor fizesse questão de sublinhar que ia dar o seu melhor para que nos sentíssemos como se estivéssemos de pé.

Alinhado com o movimento que levou milhares de pessoas a caminhar entre a Alameda D. Afonso Henriques e o Terreiro do Paço, o autor de Mundu Nôbu (que também fez questão de marcar presença na manifestação) pediu um minuto de silêncio que antecipou uma intensa celebração que se pedia o mais barulhenta possível, no bom sentido, pois claro. As vidas negras importam, sempre, e o artista de Quarteira assumiu uma posição de destaque nessa luta pela equidade desde que juntou as pontas de uma Lisboa multicultural no sucessor de Eva. Ele é a cara e, arriscamos nós, o guia espiritual de “uma geração bonita demais para ficar perdida nas tendências que os outros criaram“.

Juntem os acontecimentos recentes ao desconfinamento e, muito provavelmente, encontrarão uma urgência renovada na voz de Dino (cada “nu bai” soou a grito de guerra) que aproveitou o isolamento para editar o seu mais recente projecto, KRIOLA. Pode dizer-se que o alinhamento ganhou algumas entradas irresistíveis, principalmente “Roda”, “Sofia” e, claro, “Kriolu”, mais um hino que celebra o lado bonito dessa comunhão que vai acontecendo, talvez de forma mais óbvia, através da música.

Num intenso carrossel de canções da sua autoria e de outras que não o são (houve espaço para temas de Kaytranada, DJ Nigga Fox e Buraka Som Sistema, por exemplo), o cantor, que esteve sempre acompanhado em palco pelo trio de Sol Lopes, Sofia Grácio e Nayela Simões, falhou redondamente na sua missão de manter todos sentados: só com cordas e mordaças se impediria aquelas pessoas de dançar e cantar em pé ao som de temas como “Nova Lisboa”, “Tudo Certo”, “Raboita Sta. Catarina”, “Nôs Funaná”, “Como Seria” ou os sons mencionados no parágrafo anterior, bombeadas por fraseados de sub-graves e graves estrategicamente colocados, riffs de guitarra elegantes e saborosos, pedaços de metal explorados com faca de funaná ou uma voz que sabe ser tão doce como assertiva. E, tal como a mensagem que é transmitida, o funaná, o batuku, a morna, electrónica à moda de Lisboa, o tarraxo, a kizomba e o r&b convivem pacificamente. A catarse no final daquele que se espera ser apenas mais um dia de reivindicação: a guerra ainda será bastante longa, não nos enganemos.>

Metam um optimista consciente, vocal e activo numa sala receptiva e diversa e podem ter aí o exemplo de um primeiro passo para o início de uma discussão mais aprofundada que deve acontecer na rua, em casa, nas escolas, nos parlamentos, nas salas ministeriais e em todo o lado. Mais uma vez, Dino usou a sua plataforma para reclamar uma Lisboa crioula que, anteontem, vestiu com orgulho a camisola do anti-racismo. Daqui para a frente, não a dispam. Vai bem com tudo.

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