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Texto: Vera Brito
Fotografia: David Piedade

Julinho KSD junta-se ao cantor de Quarteira no primeiro single e hit instantâneo do disco, "Kriolu".

Dino D’Santiago: “A única forma de não fecharmos fronteiras é assumirmos a crioulização como algo positivo”

Texto: Vera Brito
Fotografia: David Piedade

KRIOLA, o novo trabalho de Dino D’Santiago — lançado, para surpresa de muitos, no início deste mês –, traz consigo várias certezas e ambições. A certeza de que é na mistura que nos tornamos pessoas melhores e a ambição de levar essa mensagem mais longe. Traz-nos também uma nova história desse mundo novo que em 2018 nos abriu horizontes, celebrando a cultura crioula em todo o seu esplendor. Povoado de ritmos quentes e electrizantes, com funanás vindos de um futuro que é cada vez mais presente, é capaz de nos sacudir de qualquer inércia que por esta quarentena se tenha involuntariamente instalado.

E se o tema à volta do qual gira este disco é a crioulização e a mistura, passados poucos minutos de conversa com Dino D’Santiago percebemos que ele é a personificação disso mesmo, na forma como olha para a história, povos e culturas com uma visão plural, e, sobretudo, na generosidade com que reparte todos os seus sucessos e ideais com a sua enorme família, mostrando-se sempre mais interessado em enaltecer os que o rodeiam, com a preocupação em não deixar nenhum nome de fora, do que em elevar-se a si próprio.

O seu mundo, como nos diz, é muito seu mas é agora nosso também, e cabe-nos a todos passarmos essa corrente ao próximo, para que no final não fique ninguém de fora.


Olá, Dino, prazer em conhecer-te!

Prazer! Fico feliz por conhecer mais um membro da família do Rimas.

Estes últimos anos têm sido frenéticos para ti. Em 2018 abrias portas para um mundo novo, precisamente com o teu disco Mundu Nôbu, depois, no ano passado, seguiu-se o SOTAVENTO a encurtar a distância entre Algarve e Cabo Verde, e agora apanhaste-nos a todos de surpresa com este KRIOLA, isto sem falar nas muitas colaborações e projectos em que tens estado envolvido, e nos muitos concertos que tens dado por cá e lá fora. Onde é que arranjas fôlego para isto tudo?

Olha, durante todas as coisas que foram acontecendo — a tournée, os prémios PLAY, o feedbackda crítica, o apoio do Rimas (que sempre esteve presente em todos os momentos) –, foi tanto amor recebido que fui nutrindo isso e fiz esse exercício de ser grato a cada momento que estava a acontecer e de o absorver até ao limite. E era isso que mantinha a minha inspiração sempre activa e não me permitia que entrasse na zona de conforto e de repente relaxar por o Mundu Nôbu ter sido bem aceite. Não, eu sentia cada vez mais motivação, ‘tás a ver? E depois todas as mensagens que recebi fizeram-me sentir que sou um canal aberto que recebe informação, que nem sei bem de onde é que vem, mas que sinto que tenho de transmitir. E o Mundu Nôbu foi simplesmente isso: abrir o espectro de que realmente a nossa cultura lusófona é riquíssima em termos de ritmos e de timbres. Tu podias levar uma vida inteira só a explorar os sons que vieram desde Trás-os-Montes até Sul, e depois ires ainda para Moçambique, Cabo Verde, Guiné, Angola, São Tomé e Príncipe, Brasil e começar a explorar cada ritmo que cada país tem que não saías dali, e depois misturar com os sons modernos e os sons etéreos da electrónica global. Então, é difícil tu não teres inspiração quando encontras uma tese dessas para defender.

Falaste da importância do Mundu Nôbu e acho que consegues encontrar sempre títulos fortes e cheios de intenção para os teus discos. Começava por te perguntar, em relação a este último, porquê Kriola e não Kriolo?

Ah… imagina, eu, conforme fui caminhando e encontrei o meu propósito na música, descobri que o que me move é, mais do que qualquer outra coisa, a vontade de unir mundos e de elevar aquelas que são os maiores exemplos da minha vida, que, neste caso, são as mulheres que me rodeiam. Começa na minha avó, vai até à minha irmã, e depois todas as mulheres que trabalham à minha volta, na editora, na agência, as várias amigas que tenho que são as minhas maiores conselheiras, a minha Balila batucadeira em Cabo Verde, várias pessoas, que são sempre mulheres. Então fui descobrindo que esse elemento feminino sempre esteve presente na minha vida e sempre acreditei também que o instinto maternal que a mulher tem era a chave da mudança para a humanidade se regenerar. Não tem a ver a com domínio pelas mulheres, mas que fosse sim mais emancipado esse lado maternal que a mulher traz e que só ela tem e que é inato (nós temos o instinto paternal, mas é algo diferente). A minha revolução é o feminismo e o KRIOLA no feminino foi simplesmente para simbolizar esse elemento feminino que me rege de Norte a Sul e para celebrar a cultura crioula, a manifestação crioula, a expressão crioula e a verdadeira definição de crioula que é a mistura que nós somos. A ideia foi celebrar que somos todos crioulos e fazê-lo da maneira mais bonita que é, para mim, no feminino.

Outra pergunta que tinha aqui para ti tinha exactamente a ver com a palavra crioulo, que sabemos que tem uma carga histórica pesada, mas que com o passar do tempo conseguiu dar a volta a esse passado e hoje em dia é um símbolo de uma identidade cultural. A press-release deste teu disco faz referência à ideia da “crioulização do mundo”, podias explicar-nos isto melhor?

Sabes que é muito bonito porque houve uma musicóloga indiana [Ananya Kabir], que é professora de literatura inglesa no King’s College, em Londres, que começou a estudar, há uns anos, o fenómeno da kizomba que andava a fazer a Europa sair para dançar, como aconteceu nos anos 90 com a salsa. Então, os festivais de kizomba começaram a acontecer na Turquia, Hungria, Polónia, Rússia, Miami, Brasil e várias zonas do globo. E a kizomba é dos últimos géneros em que há o contacto físico, do homem com a mulher, ou quem quiser, é uma dança que liberta e a energia transforma-se, regenera-se. Agora imagina: o mundo reclama um som que nós temos cá e que é um produto muito nascido da cidade de Lisboa, que tem esse ritmo na sua génese, mas que aqui ficou como música de segunda. E foi isso que fez com que ela chegasse à minha música. Ao estudar a história da kizomba e todas as ramificações, de repente depara-se com o meu trabalho, na altura o Mundu Nôbu, que começou a estudar — essa “Nova Lisboa” –, e desenvolveu uma tese que apresentou no King’s College e também aqui na Universidade Moderna, que é a crioulização do mundo [Mundu Nôbu in creolization: Remembering as world making]. Um trabalho digno e incrível, que é daquelas coisas que tu achas que só depois de morreres é que vai acontecer: alguém perceber a tua intenção.

Ela estudou os vários fenómenos e percebeu que desde Madagáscar até Lisboa tens claves que se fundem, e o quão próximos nós somos uns dos outros em termos de ritmo. E a única forma de nós não fecharmos fronteiras, e de cortarmos a tendência de extrema-direita que está a alastrar pelo mundo, é assumirmos essa crioulização como algo positivo, que nasceu de muita dor — essa mistura foi muito imposta numa fase inicial, mas agora é algo natural, e há muitos anos que é algo normal para nós ainda termos essas barreiras. E eu sinto que Lisboa é o epicentro dessa crioulização aculturada, em que realmente está tudo misturado, desde a gastronomia tão diversificada em que notas a influência dos vários pólos, de Goa, do Brasil, de todos os cantos de África lusófona. E já que quando nós saboreamos a comida não pensamos de onde é que ela veio, só sentimos o seu sabor, a crioulização a nível cultural é algo que também precisamos de fazer da mesma forma. Quando estamos a dançar, e se nos faz dançar, não pensamos de onde é que vem. E é isso é que eu tento que chegue às pessoas.

Falaste em barreiras e do alastrar da extrema-direita e 2020, infelizmente, começou com muitas polémicas em torno da questão do racismo em Portugal, “existe? não existe?” e este teu disco é de facto a antítese e um antídoto a isso, um manifesto, como ouvimos o Rui Miguel Abreu dizer na Antena 3, de uma “Lisboa plural e inclusiva”. Como é que tens vivido todos estes temas?

Sabes que eu choro com tudo isso. Quando vi a notícia da morte do Giovani (até estou arrepiado)… são coisas que me tocam muito porque eu sei da dificuldade que é… Cabo Verde é dos países mais letrados, mesmo a nível mundial, onde há um investimento muito forte do governo e das famílias nesse sentido, de enviar os seus filhos para fora [estudar], para Portugal, Brasil, Cuba. E sei da comunidade maravilhosa que há em Bragança, em que foi construído algo muito bonito com a comunidade cabo-verdiana. Daí que quando surgiu a expressão “Portugal é racista” [é o tipo de] coisas que me dói, porque sei que não é verdade, já viajei demais para perceber o que é um país que é verdadeiramente racista e separatista.

E eu não gosto muito de falar de racismo, acredito mais na iniquidade, porque as desigualdades sociais é que depois fazem com que todas essas coisas se manifestem e a ignorância associada é que nos leva ao racismo. E essa iniquidade atravessa-nos a todos e vai para além das raças, das culturas e do género, quando acontecem estes episódios infelizes, e o início do nosso 2020 foi bárbaro nesse sentido, com o Giovani, com a senhora Cláudia [Simões], a situação do Marega em que ele manifesta-se e sai de campo, porque é uma situação que sempre aconteceu no futebol mas nunca houve uma pessoa que dissesse “basta! basta disso!”. Não basta só nós dizermos “não nos chamem macacos ou não nos chamem o que quiserem”. Há tanta coisa ainda subentendida que isto que aconteceu em Portugal só teve este relevo porque é algo que não é normal em Portugal, ‘tás a ver? E como os Estados Unidos espirram e o resto do mundo fica constipado nós quase que começámos a comprar essa cultura de “defesa” dos direitos e começámos a chorar algo que não sentimos tanto na pele.

A única coisa onde sinto que Portugal realmente falhou, e que só agora na idade adulta consigo perceber melhor, foi na romantização da colonização. Ou seja, a forma como nos sentimos heróis, eu próprio fui conquistador e dominei o mundo também como português, e não tinha a sabedoria suficiente para entender que eram irmãos meus que estavam a ser escravizados. E é isto que Portugal tem também de trazer ao de cima e dizer assim, “olha, existe esta herança”, porque isto quebra-nos culturas, crenças, até ao ponto de eu, em criança, sentir vergonha de compreender a cultura africana, e dizia, “não, eu não sou africano, eu sou europeu”, porque achava que a cultura africana era menos elevada, porque tudo o que vi só me mostrou isso, até os próprios filmes americanos, o negro aparecia sempre num ambiente selvagem ou num ambiente de droga, e a sociedade sempre colocou as coisas num prisma que eu próprio, como negro, não me identificava com aquilo. E ter ido para Cabo Verde mudou a minha vida e a minha forma de ver: “não, a nossa cultura é bonita, afinal eu não sou herança de escravos, sou herança de reis porque afinal África também teve reis”. E é triste, só na minha idade adulta, começar a perceber que existiram grandes homens em África e que houveram grandes seres libertadores.

E tento passar isso para as novas gerações crescerem com mais orgulho e foi essa a minha crença com o Mundu Nôbu, se nós temos uma cultura tão forte, que tal pegar nos nossos ritmos? Na altura ainda não tinhas o Julinho [KSD], mas tinhas o Vado Más Ki Ás e vários rappers que sempre intervieram em crioulo. Então pedi aos meus produtores: “quando fizerem o approach nos beats com os meus funanás e os meus batuques não pensem no acústico, eu quero um desses putos do hip hop que queira o beat”, alguém que diga “eu destruía este beat”, foi sempre com essa intenção. E com o SOTAVENTO e o Mundu Nôbu tive uma legião de rappers desde portugueses, a brasileiros, ao pessoal de Londres, cabo-verdianos, angolanos, moçambicanos — tocou em todos eles e nesse sentido foi missão cumprida. Era só o que eu queria, abrir essa página, mas depois a quem eu quero que chegue realmente é à geração do Julinho e do Vado MKA.

Falaste da nova geração de rappers e regressando a este KRIOLA acho que a música “Kriolu”, o primeiro single onde entra o Julinho KSD, talvez seja a peça central deste teu disco. Primeiro, é mais um funaná teu que acho que vai rebentar com as pistas de dança e vai levantar aquela onda que costumamos ver sacudir o público nos teus concertos…

Epá, o “Kriolu” já tá… man, eu até estou maluco! Tu não tens a noção da quantidade de vídeos que recebo de todos os cantos do mundo que possas imaginar. Com partilhas do pessoal na sua quarentena mas a vibrarem como se estivessem numa discoteca! [Risos]

Acredito, é impossível ouvir sem ter vontade de dançar. Há várias coisas que gostava que nos falasses um pouco mais sobre esta música, desde a participação do Julinho a lançar rimas sobre aquele acordeão, parece estranho mas não é, até à própria letra e citava aqui a frase que achei mais marcante: “branco ku prétu, um gerason di oru”.

Olha, a primeira ideia desta música começou com uma conversa do Kalaf com o Branko depois do SOTAVENTO. Já tínhamos assim uns funanás mais electrónicos e o Branko disse, “Kalaf, mesmo assim ainda sinto que estamos a precisar de um funaná 2020”, tipo aquele funaná de século XXI, que do Lux até ao B.Leza o pessoal e as rádios vão querer passar e o povo vai querer sentir. Então, ele e o PEDRO constroem este beat e enviam-me, e tu não ‘tás bem a ver, quando ouvi a passagem do drop, o início do beat, o verso e depois quando veio o refrão com aquele funaná, fiquei mesmo “wow” e saiu-me logo o refrão, “uiiiaaaiiiaaa uiiiiaaaiiiaaa/ nu ta mistura nôs tudu eh kriolu”, porque foram duas pessoas portuguesas, que eu digo que são mais pretas do que eu, a fazerem aquele instrumental incrível em que eu sabia que qualquer cabo-verdiano se iria reconhecer. E o próprio funaná tem muita influência dos sons do nosso folclore português, com a introdução do acordeão, que eles chamam de gaita, com um tipo de compasso diferente mas com a mesma sequência — em termos musicais a cadência é a mesma, só muda a clave. Por isso é que as pessoas gostam tanto de funaná e nem sabem porquê, porque existe uma cédula nossa portuguesa também com que toda a gente se identifica e talvez seja o ritmo mais crioulo e símbolo de mistura que podemos encontrar.

Quando fiz o refrão, pensei logo: “agora só quero o rapper certo para finalmente termos um a ‘dropar’ em cima de um beat de funaná”, e lembrei-me imediatamente do Julinho, porque andava a consumi-lo bastante. Depois de nos encontrarmos, ele disse-me que o Mundu Nôbulhe abriu também muito a mente nesse sentido. Se tu reparares, todos os beats do Julinho são sempre aquele 4/4, aquele apelo que é nosso, tu não vais ouvir aqueles beats nos Estados Unidos. Talvez seja o único rapper que realmente abraçou isso no seu expoente máximo, todas as canções dele vêm dentro dessas claves que nós reconhecemos — lusófonas. Então quando ele disse que o género favorito da mãe dele era o funaná foi logo: “isto tá tudo certo!” [Risos] Vai ser mesmo este funaná e vamos fazer uma canção de celebração onde “nu ta mistura nôs tudu eh kriolu, branco ku prétu um gerason di oru”. A geração de ouro está na fusão, é nessa mistura de brancos e pretos. Se tu olhares para a família do Julinho, o pessoal da Instinto [26], são brancos e pretos ali misturados, e tu não distingues por brancos e pretos, vês que é uma família, assim como me vês a mim, Kalaf, Branko, PEDRO, Seiji, todos a respeitarem um ritmo.

Por acaso, a pergunta seguinte que tinha aqui preparada era sobre isso mesmo, para além do Julinho KSD, tiveste as colaborações habituais do Kalaf, Seiji, PEDRO e Branko, e, quando olho para vocês, parece-me, de facto, uma grande família..

É mesmo uma grande família. A partir do momento em que construímos o Mundu Nôbu (por isso é que eu acho que as pessoas estranharam tanto [o lançamento de KRIOLA]), foram dois anos a perceber como é que íamos conseguir manter a génese dos ritmos de Cabo Verde: o batuque, funaná, coladeira, e dar-lhes uma roupagem mais global, electrónica e moderna — esse processo foi moroso, foram dois anos até encontrar. Depois de encontrarmos, pensámos: “vamos parar agora? Agora é que começou!”. Depois, o Mundu Nôbu foi aquele sucesso e comecei com muitos concertos e só pensava, “como é que eu agora vou conseguir gravar tudo aquilo que tenho aqui na cabeça?”, porque para mim tinha-se aberto uma porta nova. Então todos eles concordaram e eu comprometi-me a ir todos os meses a Londres, durante 13 meses, sempre que parava entre concertos. Durante os últimos meses fiquei lá e foi mesmo intenso, todos os dias em estúdio. E percebemos que aquela coisa do “vou esperar que a inspiração chegue” não é verdade, tens de criar oportunidades e criar o momento para que a inspiração chegue e seja recebida como merece. Então, todos os dias criávamos o nosso momento, a ouvir o que o mundo tinha para nos dizer, activos, e foi o que aconteceu. Mantivemos a equipa, a estrutura, mantivemos tudo e está a dar gosto, espero que seja assim por muito tempo.

Li também que definiste este KRIOLA como uma cachupa instrumental, eu pessoalmente também gosto muito da cachupa no prato e de toda aquela mistura de sabores…

Então tens de vir comigo à Cova da Moura ao restaurante da Dona Patriarca, O Coqueiro, tem uma cachupa incrível.

Não conheço, fica combinado! Voltando à cachupa instrumental, achas que uma das coisas que melhor te define como músico é de facto esta capacidade de misturares todos estes géneros que resultam num prato único e com um sabor muito original, que é a tua música?

Sabes que o que me dá mesmo prazer é sentir que essa mistura é feita de tal forma que tu já não sabes qual é que foi o ponto de partida. Eu só consegui deixar os discos sair quando senti: “ok, já não te sei dizer se nasceu em Lisboa, se em Cabo Verde, se em Londres, já está mesmo misturado, agora sim está a mistura perfeita”. Sempre que eu sentia que estava a soar mais a um sítio que outro, remexia outra vez, até ficar a mistura perfeita que tu vais ouvir e sentir: “isto é o mundo do Dino D’Santiago, mas é o meu mundo também”. Imagina, temas como “Nôs Funaná”, “Tudo Certo” e “Como Seria” são sons que eu já não consigo sentir que são meus, ouvi tantas pessoas a entoar e a cantar esses sons que senti mesmo: “isto já não me pertence”. E agora este tema do Julinho está a ser igual, vejo vídeos de tanta gente que não consigo sentir que a canção é nossa [risos] e isso é a melhor sensação que uma pessoa pode ter. É como os filhos, tu emprestas o teu corpo e o teu tempo para criá-los, mas depois eles vão embora criar as suas famílias e nós somos somente esse canal para dar vida. E é o que eu tento fazer, tento afastar-me o suficiente das minhas músicas para ter sempre espaço para criar novas.



E a tua música está mesmo a chegar a muita gente. Se olharmos para música latina percebemos que está a viver tempos de fulgor, com artistas como a Rosalía, Bad Bunny, J Balvin a fazer headlines nos maiores festivais e a liderar os tops mundiais. Está claramente a dar-se uma globalização musical. E por cá parece-me que temos também gente de muito valor para reclamar esses pódios, como tu. O que é falta ao funaná e a toda essa mistura de géneros com que fazes a tua música para alcançar também esse lugar? 

Primeiro, é necessário Portugal reconhecer os ritmos que nascem desta diáspora africana como seus e não dizer tipo: “ah, é música africana”. Não, não é música africana, é música lusófona, é nossa. Porque os latinos, que são derivados de Espanha, que dominaram logo esse mercado todo, só sentem que realmente vingaram quando conseguem vir tocar a Espanha. Então chega de exorcizarmos, por exemplo, o fenómeno da kizomba ou o fenómeno do funaná — embora o funaná tenha tido uma aceitação mais leve, porque Portugal identifica-se muito com a morna de Cabo Verde e com tudo o que veio de lá. O género lusófono que mais exporta, sem contar com o Brasil, é a kizomba, que toca em milhões de pessoas em vários outros sítios. Tens nomes como C4 Pedro, Anselmo Ralph, Calema, Nelson Freitas, Matias Damásio, Djodje, Loony Johnson… um dia estive a fazer o exercício de juntar os milhões de views que eles têm, e todos juntos davam cerca de quase 500 milhões. Pensa, quantas vezes cabe nisso Portugal?

Então, a única forma de tu conseguires ter um mercado como o Brasil é se Portugal reclamar a sonoridade dos PALOPs, mas reclamar no bom sentido, no de aceitar, para teres mais exemplos como o Slow J, que tem mistura de Angola com Portugal e de repente dá-te aqueles sons que tu sentes que são dele, porque ele abraçou as raízes, não as deixou morrer. Ou o Richie Campbellque utiliza muitas das nossas claves e é um amante da música de Cabo Verde, da Jamaica, da west África, da Nigéria, e funde tudo e dá-nos essa sonoridade. E agora o Julinho que leva isso ao extremo e depois ainda associa ao crioulo. Vê o número de milhões de pessoas que eles tocam? Então está tudo certo, podes dizer que é nosso, porque quando vais às tabelas é a tabela da música portuguesa que vês. Portugal precisa de reconhecer isso e aí vais conseguir ter voz. E tens de ficar feliz com o sucesso da Nenny, dos Wet Bed Gang, do Sam The Kid, do Valete, dos Força Suprema, do Papillon, pá, há tanta coisa… do Dillaz, do Regula, do Bispo, de todos, porque os nossos clássicos estão em conjunto com os mais novos e sempre houve esse respeito no hip hop tuga pela hierarquia, mas todos têm o seu tempo. Man… sou mesmo fã do hip hop tuga, não oiço muito hip hop americano, conheço os que amo, Mos Def, Common, Tupac, The Roots, Kendrick [Lamar], Tyler, The Creator, e há muita coisa boa a ser feita nos Estados Unidos, mas como o trap dominou o mundo, de repente toda a gente já só estava a fazer trap, mas nós somos tão ricos. Vamos, então, pegar nas nossas cenas!

É preciso realmente começar primeiro a dar volta cá dentro…

E o Carlão! Não esquecer o Carlão, que sinto que foi o primeiro rapper a dar a volta, a usar os beats do Branko, assumindo essas claves assim mais dançantes, sem receio. “Os Tais” foi, para mim, o ponto de partida.

Regressando novamente a este KRIOLA, vou-te confessar: a minha maior frustração quando oiço as tuas músicas e de outros artistas cabo-verdianos de quem gosto bastante (a Sara Tavares, a Mayra Andrade, por exemplo), é eu não saber falar crioulo. A própria proximidade que tem com o português às vezes é enganadora, porque tanto apanhas uma expressão que parece que consegues entender, como a seguir já te perdeste completamente. Por exemplo, a primeira faixa deste disco, “Morabeza”, pelo que pesquisei é uma palavra de difícil tradução, porque representa um sentimento muito cabo-verdiano, um pouco como a saudade para o português, como é que a traduzirias?

A morabeza é a arte do bem receber, ou seja, há sempre mais um lugar à mesa para comer aquela cachupa, há sempre uma porta aberta, é a melhor definição que podemos encontrar para a morabeza: receber com calor no coração.

E tocaste em dois nomes que para mim são duas grandes referências e o KRIOLA podia materializar-se em três nomes para mim: Cesária Évora, Sara Tavares e Mayra Andrade. São três espectros completamente diferentes da crioulidade. No centro, entre a Cesária Évora e a Mayra Andrade, tens uma Sara Tavares, que liga toda a lusofonia e todos os artistas, desde os rappers aos mais tradicionais, ao jazz, todos vibram na sua energia. Quando ela fez o “Lisboa Kuya”, trouxe a crioulidade de uma forma elegante e bonita, que foi transversal a toda a gente. Eu lembro-me de uma fase em que todos os rappers queriam um “filho” com a Sara Tavares, ela é que foi sempre muito reservada. Felizmente há pessoas que conseguiram, como o Slow J, o Carlão e os Buraka [Som Sistema]. Mas foi sempre muito raro, porque o mundo dela é um mundo muito bonito. E depois tens uma Mayra Andrade, que quem reclamava o seu potencial era Paris, porque ela viveu muitos anos lá, e quando veio para Lisboa, veio no tempo certo, porque naturalmente é mais feliz aqui e é adorada em Lisboa, e ela própria já o disse: “Lisboa trouxe-me o que eu precisava para me assumir cada vez mais como Mayra Andrade, como esta mulher que sou”, e isso é bué bonito. Acho que a Cesária Évora deve estar a bater palmas às duas.

Têm estado a decorrer muitas iniciativas solidárias por parte da comunidade artística, com toda esta situação que estamos a viver. Fizeste parte desta edição relâmpago do Iminente e também do festival NaSofa, de angariação de fundos para os hospitais de Cabo Verde. Com têm sido essas experiências.

O festival NaSofa… Fiz parte da produção e foi uma iniciativa bem bonita. O mentor do projecto, o Alberto Koenig, filho do ex-primeiro ministro da Cultura, Mário Lúcio, que também é um grande músico, veio falar comigo: “Dino, vi o que aconteceu com Portugal com o festival Eu Fico Em Casa e os que estão a acontecer também em Angola, Música no Kubico, e nós, Cabo Verde, somos 10 ilhas separadas e a informação não chega a toda a gente. As pessoas não estão a levar muito a sério e já matou pessoas, se pudesses juntar o mínimo que fosse possível de pessoal da diáspora para se juntar à causa”. E, no mesmo dia (e isto é mesmo verídico), liguei a cerca de 70 ou 80 músicos de Cabo Verde e todos disseram que sim. Depois falei com os Calema, de São Tomé, e com o C4 Pedro, de Angola, que também disseram que sim.

Já são mais de 11 mil seguidores na plataforma e aquilo vai desde instrumentistas até à música mais tradicional, passando pelo lado mais electrónico da kizomba e pelo hip hop. E é bué bonito veres esse movimento, puramente de artistas sem nenhum outro selo de instituições. E quero agradecer também muito à filha do Orlando Pantera, que é dos músicos que mais mudou a música de Cabo Verde, a Darlene Barreto, que está a fazer a produção-executiva, e ao Nuno Trigueiro que ilustrou todos os 78 artistas de forma gratuita. Foi a Instinto [26] que o trouxe até mim — estás ver a cena da mistura a acontecer? A cena crioula a acontecer? [Risos] E foi bonito, porque no fundo foi uma forma de dar voz e das pessoas perceberem isto que está a acontecer em Cabo Verde, que precisa dessa ajuda. E thanks everybody!

Ultimamente temos de facto assistido à solidariedade de muita gente, porque a verdade é que estamos todos juntos nisto. Tu que não tens parado nestes últimos tempos, como é que estás a lidar com este isolamento?

Olha, por estranho que pareça, como saiu o álbum, tenho estado a receber tanta energia que vem de fora e de tantos sítios que parece que estou na rua. Estou mesmo a absorver todo esse amor e aí vê-se mesmo que cada um de nós é um mundo gigante dentro de si. Muitas vezes projectamos tanto o nosso bem estar no que está fora que quando o mundo está um caos tu transformas-te num caos. Então, se tu souberes estar bem, se te sentires bem na tua pele, se te perdoares a ti primeiro, souberes evoluir, sentir as coisas e olhar para a tua família e perceber que afinal és mais abençoado que tu próprio sabias, porque tens toda a gente viva, que tens toda a gente ainda a respirar… Tenho pensado tanto nisso que sinto-me grato, tipo eu estou vivo, a viver do que mais amo, tenho a minha família toda viva, os meus sobrinhos que adoro, os meus pais, os meus irmãos, uma namorada que adoro, amigos inabaláveis, então vou reclamar do quê? Ok, está a ser difícil esta quarentena mas o mundo está a respirar melhor, nunca esteve tão limpo porque a verdadeira epidemia somos nós. Então vamos-nos curar a todos em nossas casas, perceber que o mundo também é uma casa e que se cada um de nós der o seu melhor vamos ter um mundo melhor.

Têm existido muitos artistas a adiar lançamentos, devido a tudo isto que estamos a viver, e consigo perceber essa incerteza de quem prefere esperar para perceber como as coisas vão correr, mas por outro lado parece-me que esta quarentena pode ser também um momento propício para conseguir fazer chegar um disco às pessoas de uma maneira diferente, mais incisiva. Estamos todos ligados e a maior parte de nós com maior disponibilidade, eu por mim falo, acho que há muito tempo que não ouvia um disco com esta atenção, sem estar a fazer qualquer outra coisa ao mesmo tempo. Achas que foi oportuno lançar agora este KRIOLA?

Sabes, o disco era para sair no dia 17 de Abril e íamos fazer o lançamento em Cabo Verde, porque eu não consegui ir com o Mundu Nôbu lá, pediram-me muito, mas nunca consegui o espaço para levá-lo lá com a dignidade que eu achava que merecia, com as luzes, o meu trio daquelas três rainhas, os técnicos e todas as pessoas envolvidas — e Cabo Verde merecia isso. E agora conseguimos reunir todas as condições e ia apresentar o KRIOLA lá, em Santiago, já que o Mundu Nôbu  apresentei em Lisboa.

Entretanto aconteceu tudo isto, esta pandemia global e eu não sou pessoa de escrever singles, preciso da história completa, e adorava que as pessoas sentissem as minhas histórias com princípio, meio e fim, e depois escolhessem o seu episódio preferido, porque eu não vou ficar chateado com isso, mas queria que ouvissem o global. A editora estava receosa, naturalmente, porque no fundo é investir em toda uma máquina, mas felizmente conseguimos convencê-los de que estávamos mesmo a sentir que este disco ia fazer bem às pessoas, porque também nos sentíamos bem quando o ouvíamos. Parece que chegava a ser ingrato tu saberes que tens algo que pode ajudar neste momento, em que as pessoas estão em casa, e que podem realmente ouvir os discos como faziam antigamente em família, quando o pai comprava um disco e toda a gente, em casa ou no carro, lá se metia o disco num domingo e ouvias até ao fim, até riscar. E eu senti isso com o KRIOLA, acho que todos ouviram mesmo do início ao fim. Tanto que uns dias depois todas as canções estavam no Top 10 da música de Cabo Verde do iTunes e em Portugal também ficou em primeiro lugar, e isso é sinal de que as pessoas ouviram.

Só é pena ser tão curto, passa rápido. [Risos] 

Por isso chamei “a minha curta-metragem”, só que ela está construída de tal forma que se tu fizeres loop e voltares outra vez ao início não te vais sentir mal, e ouves outra vez, na boa.

Só para terminar, e porque acho que já te roubei demasiado tempo, nós vemos-te muitas vezes com t-shirts com statements fortes, aliás estou a ver-te agora com uma que diz “Funaná é o novo funk”. Há uma que me lembrei em particular, que usaste num dos teus últimos concertos que pude ver, que diz “Não é sonho nenhum”, e quando te vejo em palco com toda a tua alegria e até aquela incredulidade de quem parece que ainda não acredita naquilo que está a acontecer, vejo uma pessoa que está realmente a viver o sonho, e isso é muito raro e bonito de se ver. Que sonhos tens ainda por cumprir?

Olha, ainda bem que tocaste no “Não é sonho nenhum”, porque a pessoa que criou esta expressão e da qual me tornei embaixador foi a Alexandra Moura. É ela que me veste sempre e que vestiu a capa do disco, com a colecção dela “Nu Mistura”, inspirada na imigração pós-independência. Depois todas as pessoas começaram a repetir: “não é sonho nenhum, não é sonho nenhum” e é mesmo isso, não é sonho nenhum quando tu acreditas. Olha o que eu estou a viver agora? É quase como um símbolo de esperança para toda a gente: se tu sonhas mesmo, vai! Eu tive as minhas dificuldades, e foram muitos anos aqui, e muitas vezes vais estar sozinho a acreditar e vais parecer um louco, mas se for mesmo uma coisa que tu sentes, então vai até ao fim, e depois honra isso a celebrar. A melhor maneira forma de eu agradecer é estar feliz a fazer o que amo.

Mas perguntava-te, então, que sonhos tens ainda?

Ah isso, sonhos… eu ainda tenho os meus sonhos. [Risos] Um dos meus maiores sonhos, em termos de espectáculo e porque sinto aqui dentro que adorava fazer, era o Coachella. Adorava não, vou fazer! Porque adoro a forma como o conceito é criado, os espectáculos, a forma como eles promovem, é quase uma benção tu conseguires estar lá para assistir, então imagina tocar. Então quero muito viver isso e trazer também isso para cá. E já tivemos um português a tocar lá, o Holly, no ano passado, então está perto, ‘tás a ver? [Risos]

E depois, o maior sonho de todos, que eu chamo de sonho global é o dia em que eu sentir que estamos todos a respirar do mesmo som e felizes por estarmos a conquistar o público com a nossa sonoridade. Esse é o primeiro sonho, depois pode vir o Coachella. [Risos]


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