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Fotografia: Yusuke Nagata
Publicado a: 18/04/2026
Tags: Tortoise

Uma banda em constante transformação.

Dan Bitney de Tortoise antes dos concertos em Portugal: “O nosso apelo é multigeracional e isso é maravilhoso”

Fotografia: Yusuke Nagata
Publicado a: 18/04/2026
Tags: Tortoise

Os Tortoise voltaram em 2025 com Touch, o primeiro disco em quase uma década, e essa ideia de regresso traz consigo mais perguntas do que respostas. Não tanto sobre o que a banda foi, mas sobre o que ainda pode ser. É nesse ponto que encontramos o multi-instrumentista Dan Bitney, em plena digressão europeia, entre cidades e palcos, a falar de um presente feito de movimento, de reencontros e de um processo criativo que continua a depender, acima de tudo, da presença dos outros, da ideia de comunidade e de partilha.

Formados em Chicago no início dos anos 90, os Tortoise ajudaram a abrir um espaço novo dentro da música instrumental. Misturaram jazz, electrónica, dub, krautrock e minimalismo de uma forma que não parecia programática, mas antes natural, quase inevitável. Discos como Millions Now Living Will Never Die ou TNT estabeleceram uma linguagem própria, assente na textura, na repetição e numa ideia de composição que se constrói em grupo, peça a peça. Hoje, essa identidade continua a ser trabalhada por John Herndon, Doug McCombs, John McEntire, Dan Bitney e Jeff Parker, músicos que mantêm vivo esse equilíbrio entre escrita e escuta, entre construção e improvisação. Ao longo dos anos, a banda foi-se mantendo nesse território, sempre em transformação, sem grande pressa e sem necessidade de se fixar.

Touch nasce desse mesmo modo de estar, mas num tempo diferente. Foi sendo feito entre Chicago, Los Angeles e Portland, com agendas difíceis de conciliar e sessões que nem sempre levavam a resultados imediatos. É um disco que carrega esse processo dentro dele, na forma como as peças se vão resolvendo e encontram o seu lugar. Mais do que um regresso, soa como uma continuação, talvez mais fragmentada, mas ainda muito assente na escuta colectiva e na ideia de que o estúdio é parte da própria composição.

Na conversa com Dan Bitney, que antecipa os concertos dos Tortoise no Theatro Circo (Braga, 19 de Abril) e Culturgest (Lisboa, 20 de Abril), esse lado humano do processo está sempre presente. Fala das dificuldades em trabalhar à distância, da importância de estarem juntos para que a música aconteça, dos desafios de levar estas novas composições para palco e da forma como o público também mudou. Há hoje mais gerações na plateia, mais contextos a cruzarem-se, e isso reflecte-se na forma como a banda se pensa a si própria. Pelo meio, surge também Chicago, a política, as digressões, e essa sensação de que, apesar de tudo, ainda faz sentido continuar a tocar e a procurar novas formas de o fazer.



Estão em Itália neste momento, certo? E estão prestes a tocar em Portugal. Como tem corrido esta digressão até agora e que energia estão a levar para os concertos?

Sim, acabámos de chegar a Milão, ontem estávamos na Suíça, andamos a cruzar o continente de um lado ao outro. Tem sido muito bom. Às vezes há noites menos conseguidas, em que alguém não está tão bem e as coisas não correm tão bem, mas estes concertos têm sido mesmo de alto nível no que toca a divertirmo-nos e a fazer as pessoas felizes com a música. Isso tem sido muito bom.

E sentem que fazer esta digressão na Europa, neste momento, vos permite encontrar um ambiente diferente dos Estados Unidos, também por causa do clima social e político?

Sim, acho que as pessoas têm sido muito gentis connosco. E penso que percebem que não concordamos com muitas das acções do nosso governo. Há uma noção de que estamos do lado certo da história, no sentido de querer paz e sermos humanos e não alinharmos com toda aquela loucura. Talvez até fosse saudável recebermos alguma crítica, sabes? Mas, ao mesmo tempo, estamos a trazer a alegria da música às pessoas, e isso também é importante numa altura tão absurda como esta.

Depois de quase uma década entre discos, o que foi preciso para finalizar “Touch”? Quando é que deixou de ser um conjunto de ideias soltas e passou a soar a um disco dos Tortoise?

Foi muito desafiante, todo o processo. Parte disso tem a ver com o facto de estarmos todos espalhados: dois em Chicago, dois na zona de Los Angeles e um na zona de Portland, Oregon. Só para marcar uma reunião eram 15 emails, e depois estava tudo pronto e alguém dizia que afinal não podia e tínhamos de remarcar tudo outra vez. Fez-me lembrar quando vivíamos todos no mesmo bairro, no início dos anos 90 em Chicago. Mesmo assim, nas primeiras sessões eu tinha acabado de regressar de uma digressão de jazz improvisado e estava convencido de que se fosse mesmo necessário até podíamos fazer dois discos num dia, o que na realidade não funciona com a maior parte de nós. Foi lento a arrancar, mas aconteeu. Mesmo assim, algumas coisas dessas primeiras sessões acabaram por entrar no disco, o que foi bom. Trabalhámos em quatro estúdios diferentes, dois em Portland que eram óptimos, um em Los Angeles e depois no estúdio do Steve Albini, em Chicago. Acho que foi aí que tudo começou mesmo a ganhar forma, porque vais trabalhando numa peça e não a acabas, fica ali, e pensas “isto ainda precisa de qualquer coisa”. Quando finalmente estávamos todos em Chicago, naquele estúdio, que é mesmo muito bom, começámos a terminar as peças. Foi aí que senti: “Ok, isto está mesmo a acontecer”. E também tenho de dizer que o John Herndon fez muito trabalho em casa. Quando as coisas estavam quase acabadas, ele pegava nelas, mexia, inventava novas secções, e isso era incrível de ouvir. Ele é fantástico a trabalhar a edição das coisas no computador. Às vezes tens só uma ideia inicial e esperas que os outros acrescentem qualquer coisa, e ele conseguia mesmo levar as coisas mais longe. Mas foi um processo muito, muito desafiante.

O que é que ainda torna essencial esse processo colectivo e presencial para vocês, numa altura em que tanta gente trabalha remotamente?

Para nós foi complicado trabalhar à distância, especialmente durante a pandemia. Fazíamos demos para dar ideias, mas não conseguimos funcionar naquele sistema de enviar algo e outra pessoa acrescentar e devolver. Precisamos mesmo de estar no mesmo espaço. Usamos o estúdio como parte do processo de composição, não é só para gravar. Estar juntos, reagir às ideias uns dos outros, estar abertos ao que os outros trazem, isso é fundamental para nós.

A vossa música continua muito textural e detalhada. Como é que isso se traduz ao vivo, especialmente com material novo?

Há um lado que é desafiante, sobretudo para mim como baterista. Algumas partes são muito lineares, não têm fills, não são partes vistosas, são muito motorik, quase krautrock. E às vezes, nos concertos, eu digo “precisamos de uma música com fogo-de-artifício na bateria ali a meio”, porque como baterista queres mostrar o que sabes fazer. Mas aqui o desafio é precisamente não fazer isso, tocar o mais simples possível. Esse torna-se o desafio, não tornar tudo demasiado exibicionista. E sim, há sempre essa dimensão textural que tivemos desde o início, mas no material novo isso vem mais à frente. Há músicas como “Axial Seamount”, que são muito krautrock e depois mudam de tempo, desacelera mesmo. Para mim, em termos de composição, eu nunca sugeriria abrandar numa música, mas ali funciona. E isso é interessante.

Foi surpreendente ver-vos editar pela International Anthem, mesmo tendo em conta todo o trabalho do Jeff Parker para a editora. Como aconteceu essa mudança?

Recebemos essa proposta do Scotty McNiece. Eu tinha falado com o Jeff Parker sobre como era trabalhar com eles, e também já tinha feito trabalho de sessão em Chicago com gente ligada à editora. Sempre achei que essas sessões eram bem pagas, o que já me dava uma boa impressão. Também falava com o Jeff sobre a experiência dele com a Nonesuch, sobre distribuição, essas coisas. No fim, todos achámos que era uma boa altura para mudar. O mais difícil foi tratar de toda a parte de negócio enquanto ainda estávamos a tentar concentrar-nos na música, o que fez tudo demorar mais. Temos uma relação muito forte com a Thrill Jockey. E continuamos a ter essa relação estreita, elas têm todo o nosso catálogo, não estamos a tirar isso delas. Mas sentimos que era o momento certo para uma mudança. Porque, claro, há também a diferença entre uma editora independente, dirigida por mulheres, como a Thrill Jockey, e uma estrutura mais corporativa, como a International Anthem que tem uma igaçao à Nonesuch, que é subsidiária da Warner. Isso levanta outras questões, claro.

Vens de uma cena muito DIY em Chicago. Achas que uma banda como os Tortoise poderia surgir hoje da mesma forma já que a cidade se transformou tão profundamente nas últimas duas décadas?

Acho que sim, o contexto mudou muio, de facto. Na altura, a economia era diferente nas grandes cidades industriais. Podias trabalhar três dias por semana e isso chegava para viver, o que te dava muito tempo para conhecer pessoas e fazer música. Hoje Chicago é mais cara. Mas ao mesmo tempo, estou muito ligado à cena de free jazz e jazz experimental lá, e tenho de dizer que é uma das comunidades mais fortes que conheço no mundo. Há muitos espaços, como o Constellation ou o Hungry Brain, e também muitos espaços underground com concertos incríveis. Continua a haver muitos músicos jovens a mudar-se para lá e a criar música muito bonita.

Têm notado um público mais jovem nos concertos? Isso surpreende-vos?

Depende dos sítios. Em algumas zonas da Alemanha, por exemplo, é muito gente da nossa idade, 50, 60 anos. Até brincamos com isso. Mas quando passámos por Paris, vimos alguém de 30 anos no público, uma mulher ainda por cima, e foi quase uma surpresa. Agora, na Áustria e na Suíça, já temos visto mais gente jovem, o que é muito bom. E também percebemos que há fãs que agora têm filhos de 21 anos que vêm ver-nos pela primeira vez. O nosso apelo tornou-se algo multigeracional, o que é maravilhoso.

Depois desta digressão, o que se segue para a banda?

Nós dizemos sempre que vamos começar logo a trabalhar em música nova, mas isso nunca acontece. Este ano é muito intenso, com muitas digressões: Ásia, Austrália, Japão, e depois voltamos à Europa em Novembro. É um ano louco. Fizemos um concerto em Chicago que foi uma espécie de apresentação do disco, com a Filarmónica de Chicago, e há planos para fazer mais concertos assim no próximo ano, talvez em Londres e noutras cidades. É uma experiência muito diferente tocar com uma filarmónica. Também temos vindo a descobrir gravações antigas, cassetes com experiências de sintetizadores e coisas desse género, e gostava que conseguíssemos trabalhar a partir disso. Espero que consigamos continuar a trabalhar de uma boa forma. É essa a esperança.


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