Crónicas de um HipHopcondríaco #10: A lenda dos cavaleiros do Apocalipse

[TEXTO] Manuel Rodrigues [ILUSTRAÇÃO] Riça

Atmosfera poeirenta, troncos nus, rostos visivelmente suados, um olhar fixo na pessoa que se encontra no lado oposto de um círculo mal amanhado mas ainda assim tenebroso, uma tensão que invade cada qual dos corpos previamente ligados a uma corrente eléctrica de alta amperagem. “Afastem-se mais!”, ordena uma voz segura das suas intenções e imediatamente respeitada, quase como se se tratasse, no final de contas, de um maestro a conduzir uma orquestra com a lição bem estudada e ciente da importância do papel que lhe fora proposto. “Mais ainda!”, acrescenta uma segunda voz, também ela imperativa, contribuindo para um aumento do diâmetro das circunferências previamente desenhadas e para que se tracem semelhantes figuras geométricas escassos metros ao lado.

Este podia perfeitamente ser o cenário de um concerto dos Slayer, Machine Head ou até Lamb of God no Ressurection Fest ou no Hellfest, festivais referência no circuito heavy metal mundial, seja qual for o subgénero articulado. Mas não é. Trata-se, na verdade, de um dos momentos da actuação dos Wet Bed Gang no festival O Sol da Caparica, dia 17, no Palco BLITZ. O mosh pit começa a ser cada vez mais uma certeza nos concertos de hip hop, sejam eles requisitados por artistas de alto gabarito, como os N.E.R.D. ou Travis Scott, ou por colectivos de menor projecção mediática mas ainda assim eficientes na sua missão em palco. E sublinhe-se que, apesar de andarem nisto há relativamente pouco tempo, sem a experiência de, por exemplo, Pharrell Williams, os Wet Bed Gang sabem conduzir os seus fãs com a perícia de um veterano na matéria.

É tudo uma questão de nervo. Muita coisa poderá ser dita em torno do colectivo de Vialonga no campo da postura ou até do conteúdo lírico, mas nunca no que diz respeito à atitude. A energia que lhes testemunhamos nas versões de estúdio (consultar o verso de Gson em “Aleluia” como exemplo) é a mesma que, há algumas décadas atrás, regulou um Kill ‘Em All ou até a demo Metal Up Your Ass dos Metallica, onde se podem ouvir versões cruas de “Hit the Lights” e “Seek & Destroy”, entre outras. Filhos do Rossi, dos Wet Bed Gang, carrega uma igual vibração pura e dura, inspirada nas ruas e na vivência de cada um, sem filtros ou condicionamentos, com uma alma jovem que não teve sequer tempo de ir à refinaria. Estes rapazes acabaram de sair das suas “garagens” com uma fome ciclónica capaz de devastar tudo por onde passam, qual voraz e esganada matilha a lutar pela sobrevivência.

É normal que este tipo de sentimento viaje do palco para o coração da plateia. Para esta que é uma geração que trocou os pedais duplos das baterias por loops criados em computador e a distorção das guitarras por vozes por diversas vezes processadas, os Wet Bed Gang são uma verdadeira celebração heavy metal ou até mesmo punk. Basta-nos consultar os vídeos de algumas das primeiras actuações dos Ramones, como é o caso do concerto de 1977 na lendária CBGB, em Nova Iorque, para perceber que o cenário é exactamente o mesmo: quatro rapazes de sangue na guelra e electricidade no corpo – com uma insaciável fome de tocar ao vivo – a darem o tudo por tudo em palco, colocando as cordas em máxima vibração (vocais incluídas), e uma plateia a corresponder ao milímetro, ao ponto de reproduzir fidedignamente o que está a ser tocado e cantado em palco.

A passagem dos Wet Bed Gang pelo festival O Sol da Caparica foi verdadeiramente apocalíptica, como tive oportunidade de relatar para a BLITZ. Tenho vindo a escrever sobre o evento desde a sua primeira edição e garanto: nunca vi nada assim. E não se trata apenas da prestação incendiária do colectivo, que tratou de despejar banger atrás de banger no epicentro da acção, mas sim da resposta de uma audiência que já havia perdido completamente as estribeiras ainda a procissão se encontrava a largos minutos de começar, num assombroso atropelo para chegar à linha dianteira e com o nome da banda a ser entoado em alto e bom som, trazendo à memória aqueles cenas dos filmes que retratam a época romana, com multidões a gritarem os nomes dos seus gladiadores de forma ensurdecedora.

Já presenciei concertos de hardcore com muita agitação, já estive em concertos de punk com uma elevada descarga de energia, mas nunca tinha visto uma plateia assim, a saltar em bloco, quase como se tivesse assente num gigantesco trampolim, com miúdos a pregarem pulos de metro sobre os ombros dos companheiros e rodas de mosh que não ficaram a dever nada aos pits despoletados pelas cavalgadas das guitarras e baixos do metal pesado. Gritos, rigorosos acompanhamentos à letra, houve de tudo.

No single do álbum lançado em conjunto no decorrer deste ano, Beyoncé e Jay Z abordam por diversas vezes esta questão das multidões enlouquecerem e perderem completamente o freio a meio dos concertos, o que detona igualmente comportamentos semelhantes por parte dos músicos, como o episódio que levou a rainha Bey a mergulhar em direcção ao público, em 2009, no O2 arena, em Londres. A dada altura desse mesmo single, os Carters questionam “have you ever seen a crowd goin’ apeshit?”. Depois do que vi na Caparica, posso dizer que sim.

 


O Sol da Caparica’18 – Dia 2: Wet Bed Gang Season

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