Crónicas de um HipHopcondríaco #36: Hoje é o primeiro dia…

[TEXTO] Manuel Rodrigues [ILUSTRAÇÃO] Riça

Que estranha forma de acabar o ano. Sem nada que o fizesse prever, pelo menos do ponto de vista palpável e imediato, Allen Halloween colocou um ponto final na sua brilhante carreira, aparentemente por motivos religiosos, com uma mensagem partilhada nas redes sociais num tom sério e seguro, sem qualquer reticência ou vírgula que faça prever um arrependimento ou sequer uma remota hipótese de reconsideração. As palavras do rapper português foram bastante intensas, ao ponto de muitos as terem confundido (consulte-se as caixas de comentários à notícia) com as que tingem uma carta de suicídio. E, na verdade, foi (quase) o que aconteceu. Allen matou Halloween com um tiro seco e certeiro, e prepara-se agora para entregar a sua alma a Deus, a tempo inteiro, não deixando uma brecha para que o lado artístico respire.

Ao contrário da esmagadora maioria dos meus amigos, não conheci Allen Halloween através de “Dia de Um Dread de 16 Anos” mas sim de “S.O.S Mundo”, uma canção que carrega o peso da nossa responsabilidade enquanto supostos protectores desta cada vez mais esburacada e maltratada esfera. É o grito desesperado de um planeta enterrado no racismo, discriminação, segregação social, interesses políticos, conflitos religiosos, exploração económica, capitalismo, imperialismo, globalismo, fome, droga e doença. A lista é longa, muito mais extensa que a supracitada, e nada mais faz do que concluir que nós somos o incurável cancro que destrói o mundo e coloca “nação contra nação, irmão contra irmão”, sem qualquer pudor ou pingo de consciência que o evite. A intemporalidade de “SOS Mundo” faz com que as estrofes servidas ainda façam sentido nos dias de hoje e se encaixem perfeitamente no paradigma actual, auto-destrutivo e  de esperança quase nula, liderado por um imensurável egoísmo e um irremediável desrespeito pelo próximo. É das canções mais fortes de Halloween, paralela às realidades de bairro e às vivências de famílias desfavorecidas que nos relata noutros registos, mas com a particularidade de ser uma fidedigna fotografia panorâmica da sociedade de hoje. E de ontem. E de amanhã.

Allen Halloween foi (que estranho que isto soa) um dos mais rigorosos repórteres de rua que este país alguma vez conheceu, capaz de relatar as suas vivências e as dos que o rodeiam com uma sinceridade díspar, sem qualquer tipo de artifício ou trama idealizada e apimentada, como se sente em muitas outras circunstâncias. É o que é, puro e duro, com um discurso que congelou inúmeras vezes a nossa circulação sanguínea e nos obrigou a reconstruir mentalmente os cenários partilhados ao microfone, repletos de ruas, becos e escadas escuras, algumas vezes até transpostos para o domínio da fantasia como em “Zé Maluco”. A obra de Halloween é transparente como uma fina cortina de água que nos deixa olhar para o outro lado com a maior das clarezas, sem que esforcemos muito a vista, descobrindo, com isso, um imaginário pesado e turbulento, carregado de alusões ao mundo da droga e criminalidade, um passado com o qual Allen Halloween lida bem, não se auto-flagelando por isso, deixando paralelamente conselhos a quem vê nessa vida uma saída (“aquilo que tu queres fazer é o que eu estou a tentar esquecer” ou “não há melhor petisco do que a liberdade“). Dado o processo de simplificação, neste caso da subtracção da componente maquinada, o mais recente álbum, Unplugueto, dá mais ênfase às suas frases e metáforas, tornando-as mais nítidas e directas, isolando o instrumento vocal, que se evidencia melhor do que nunca, arrastado como sempre: a solitária deambulação de um espírito que, aparentemente, teve como única missão entregar uma derradeira mensagem antes de desaparecer para sempre num denso nevoeiro.

Que estranha forma de começar o ano. Sem a possibilidade de ver Unplugueto ao vivo numa Galeria Zé dos Bois ou num Musicbox. Já imaginaram como seria? Halloween sentado num banco alto colocado no centro do palco, rodeado por um cenário de decoração mínima, sóbrio na componente audiovisual, sem projecção vídeo e com um simples foco de luz por cima da cabeça. No chão, junto às suas velhinhas All Stars, uma boa quantidade de fumo para pintar um quadro sinistro que lhe assenta que nem uma luva. À sua direita, uma viola pronta a despir temas como “Bandido Velho”, “Debaixo da Ponte”, “Crazy”, “O Rei da Ala” ou “Na Porta do Bar”,  tirando uma radiografia à sua obra para que lhe possamos ver a estrutura óssea, o miolo, o contorno de cada palavra e o sombreado das figuras de estilo utilizadas, completamente desnudas, sem a carapaça instrumental que normalmente as fortalecem e resguardam. 2019 vai ser para sempre lembrado como o ano da morte do Bruxa. Poderemos sequer sonhar remotamente com a sua ressurreição? Ou com a encarnação de uma outra personagem? Um ser com uma dimensão mais espiritual e ligada à palavra do Senhor? Hoje é o primeiro dia da primeira década sem Halloween. E já está a custar.


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