Crónicas de um HipHopcondríaco #34: Vivendo e aprendendo

[TEXTO] Manuel Rodrigues [ILUSTRAÇÃO] Riça

2001, um dos mais importantes álbuns da história do hip hop, completou no passado sábado a sua vigésima volta ao astro-rei. É incrível como o tempo passa depressa, sem que nos inteiremos disso. Parece que foi ontem que vi pela primeira vez o videoclipe de “Still D.R.E.”, reproduzido a partir de um VHS emprestado por um colega de turma que tinha na altura o privilégio de receber em casa os canais da cobiçada TV Cabo – essa velhinha cassete-arquivo, da qual desconheço o paradeiro, continha também, curiosamente, o vídeo de “Freestyler”, dos Bomfunk MC’s, colectivo que já marcou presença num dos episódios desta crónica (isto acaba tudo, de uma forma ou de outra, por se interligar).

Aquando da sua edição, nas vésperas da viragem do novo milénio (o lançamento aconteceu no dia 16 de Novembro de 1999), 2001 foi uma verdadeira explosão atómica, de tal forma intensa que parece ter recolocado a zero os relógios da existência, qual big-bang contemporâneo. Habituado que estava aos grandes clássicos dos anos 90 da costa oeste, como Doggystyle, de Snoop Dogg, All Eyez On Me, de 2Pac, o próprio The Chronic, de Dr. Dre, ou mesmo às grandes obras da costa oposta, como Illmatic, de Nas, Enter the Wu-Tang (36 Chambers), dos Wu-Tang Clan, ou Reasonable Doubt, de Jay-Z, a chegada de 2001 aos meus ouvidos foi um abrir de portas para um admirável mundo novo, recheado de produções possantes e coesas, capazes de sacudir o pó dos sistemas de som que atravessavam – bem me lembro das festas escolares e dos “estragos” causados pelo espancamento dos bombos e tarolas de “The Next Episode” e “Still D.R.E.”, o single dos carros saltitantes, das muito bem frequentadas praias californianas e das jantes em forte movimento de centrifugação.



Longe dos sintetizadores e das linhas de baixo g-funk que marcaram os anos 90 da costa oeste norte-americana, 2001 trouxe um imaginário orquestral em que os instrumentais se faziam acompanhar de naipes de violinos e metais, equilibrados ao milímetro para não se perder um segundo de inteligibilidade ou uma unidade de peso na equação final. Compare-se, por exemplo, “Nuthin’ but a ‘G’ Thang”, retirado de The Chronic (1992), e “What’s the Difference”, resgatado a 2001 (1999). Apesar dos sete anos que dividem os dois temas, “What’s The Difference” parece ter sido construído numa era completamente diferente, com novas técnicas, abordagens e, sobretudo, uma nova mentalidade. 2001 não procura apenas explorar um ideal gangster sobre um conjunto de instrumentais desenhados à medida, como o sugere The Chronic, mas sim deixar uma marca estética muito específica, que veio, obviamente, revolucionar o novo milénio – os álbuns produzidos por Dr. Dre nos anos que se seguiram, como Get Rich or Die Tryin’, de 50 Cent, The Marshall Mathers LP, de Eminem, e Scorpion, de Eve, são uma espécie de aprimorar desta poderosa fórmula. Veja-se, por exemplo, as diferenças a nível de mistura e masterização: se existe um incremento nestes campos, deve-se também a uma melhoria em todas as etapas produtivas.

Uma das músicas que mais ouvi e que maior impacto me causou em 2001 foi sem dúvida “Forgot About Dre”. Havia naquela secção de cordas uma energia ímpar, avassaladora, totalmente inebriante. E havia na aceleração dos elementos rítmicos um magnetismo também ele digno de destaque, cama perfeita para as rimas dementes de Eminem, convidado de luxo que despeja palavras sobre o instrumental como uma metralhadora enfurecida – é impossível não ficar colado ao enredo pirómano criado pelo ainda jovem e faminto Slim Shady no segundo verso da música. Num vídeo recentemente publicado em jeito de celebração dos 20 anos de 2001, Dre e o gigante da Interscope Jimmy Iovine meditam em torno de alguns dos aspectos que marcaram o álbum. Num desses momentos, Dre aborda a construção de “Forgot About Dre”, canção que numa primeira instância tinha outros nomes no destinatário. “A ideia da música partiu do Eminem”, revela o multimilionário responsável pela criação da marca de auscultadores Beats. “Foi escrita a pensar em mim e no Snoop Dogg, com algumas vozes de referência pelo meio, mas acabou por ficar assim”. Contudo, a maior revelação dessa entrevista acontece quando Dre afirma que não tinha como intenção contribuir vocalmente em 2001. “Eu não queria aparecer no álbum de forma alguma, para ser franco. Eu só queria construir canções, encontrar artistas e produzi-los. O D.O.C. [antigo companheiro dos N.W.A.] é que me convenceu a pegar no microfone e a fazer isto”, confirma. Ainda na mesma conversa com Dre, Jimmy Iovine admite que se opôs veemente à ideia de “The Next Episode” ser escolhido como primeiro single do disco, obrigando o rapper e produtor a voltar para o estúdio para construir “Still D.R.E.” – dá para ver aqui o grau de exigência do homem que esteve presente em momentos-chaves das carreiras de artistas como Bruce Springsteen, Patty Smith, e Tom Petty, citando apenas alguns exemplos. O mini-vídeo que celebra 2001 revela ainda um dado sobre “Still D.R.E.” que eu desconhecia: o facto de ter sido escrito por Jay-Z. E aparentemente em menos de 24 horas. Vinte anos depois, ainda há coisas que vou descobrindo acerca deste clássico.


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