Crónicas de um HipHopcondríaco #31: Estilo livre

[TEXTO] Manuel Rodrigues [ILUSTRAÇÃO] Riça

A acção acontece na estação de metro de Hakaniemi, em Helsínquia. Sentado nos tradicionais bancos de alumínio, à espera que a próxima formação de carruagens chegue, um rapaz de fato de treino, dreadlocks loiras e de auscultadores enterrados na cabeça escuta música a partir do seu mini-disk, o clássico Sony MZ-R55. Está no seu mundo, sossegado, sem importunar ninguém, somente a queimar tempo. Ao mesmo tempo, um indivíduo visivelmente exaltado vai evidenciando comportamentos estranhos no mesmo espaço, saltitando e contornando o banco em jeito de provocação até se aproximar do sossegado jovem. No momento em que estabelece contacto visual, o persistente transtornador esbraceja e articula umas palavras inaudíveis, perante a expressão impávida daquela que, neste momento, percebemos ser a personagem principal. Chega entretanto o metro.

O rapaz apressa-se a entrar e, já no interior da carruagem, vagueia em busca de lugar para se sentar. Quando tal acontece, dá de caras com Raymond Anthony Ebanks aka B.O. Dubb que, num gesto quase divino, concede ao nosso “herói” o poder de isoladamente avançar, recuar e pausar a acção das pessoas com quem se cruza no seu caminho, algo que o fascina de imediato e que é prontamente colocado à prova. Os restantes minutos da trama jogam em função disso.



Acertaram em cheio aqueles cujo palpite os levou até ao vídeo do tema “Freestyler”, dos Bomfunk MC’s, colectivo finlandês que, na viragem do século, fez com que a sua mistura de breakbeat, hip hop, drum & bass e variadas electrónicas fosse tocar às campainhas até dos mais distraídos espectadores de televisão. A verdade é que o videoclipe de “Freestyler” não deixava ninguém indiferente. Não só o look e a indumentária das personagens, algures entre o streetwear e aquilo que muitos na altura rotulariam como freak, mas também as danças, maioritariamente nos campos do breakdance, orquestradas pelo comando remoto de Marlo Snellman, modelo e músico finlandês que encarna a personagem de dreadlocks. À medida que o vídeo avança, as danças vão-se adensando até ao momento em que, alcançado o final da derradeira escada rolante e deparando-se com novo cenário de b-boys, o seu comando deixa de funcionar, sendo levado por B.O. Dubb – que não é nada mais nada menos que um dos integrantes do colectivo finlandês, mais precisamente o MC – de volta para o início da história, em jeito de rewind.

O vídeo tornou-se um clássico e, em Fevereiro do presente ano, por altura da celebração do vigésimo aniversário de “Freestyler” (o tema é retirado de In Stereo, álbum editado a 16 de Novembro de 1999), o colectivo decidiu regravá-lo. As personagens são as mesmas à excepção do jovem interpretado por Marlo Snellman que nesta nova versão é substituído por uma rapariga, representada por Milica Bajčetić, sendo a trama desta feita rodada na estação de metro de Vukov Spomenik, em Belgrado. Tanto as danças como os próprios poderes de controlar o tempo são pensados em contexto moderno, com o mini-disc a ser substituído por um smartphone que lhe dá acesso a novas possibilidades, como rodar o cenário a 90º.



In Stereo, o único álbum de relevo do colectivo de B.O. Dubb e DJ Gismo não foi nenhuma obra deslumbrante mas guardava um conjunto de músicas descontraídas e dançáveis que acabaram por se tornar marcos de uma década, como “B-Boys & Flygirls” e “Uprocking Beats”. Valiam mais os vídeos, na verdade, que até acabavam por estabelecer curiosas ligações entre si – a personagem de óculos escuros amarelados que surge de comando de Playstation na mão no final de “Freestyler” é a mesma que assume o papel principal de “Uprocking Beats”; o próprio Marlo Snellman aparece em “B-Boys & Flygirls”.

E por que razão me terei eu recordado dos Bomfunk MC’s para a minha crónica? Simples. Em 2019, o colectivo decidiu reunir-se na sua formação original para tocar numa série de festivais – e não só. Há duas semanas – mais coisa menos coisa – estava eu a trabalhar num congresso relacionado com videojogos no Algarve (na minha outra faceta, enquanto técnico de som) quando um colega e amigo, responsável pela festa que se seguiria às jornadas de reuniões, marcada para o espaço da antiga discoteca Locomia, resolveu mostrar-me o rider técnico da banda convidada para actuar, que seriam os Bomfunk MC’s. A minha reacção foi um misto entre espanto, por nem sequer imaginar que eles ainda estivessem sequer interessados em revisitar uma carreira que ficou presa no final dos anos 90, e uma certa curiosidade de os ver ao vivo, já que nunca se proporcionou anteriormente. Infelizmente, os meus horários de trabalho não me permitiram matar o bichinho curioso – obviamente, nada de muito preocupante. Contudo, quando menos esperava, aterraram-me uns vídeos da actuação no WhatsApp e ainda recebi em mãos um alinhamento do concerto. Valeu pela preocupação.


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