Crónicas de um HipHopcondríaco #30: Com calma, muita calma

[TEXTO] Manuel Rodrigues [ILUSTRAÇÃO] Riça

2020 vai ser um ano histórico para os fãs dos Da Weasel, sobretudo para aqueles que nunca chegaram a despedir-se em condições do colectivo quando este decidiu, em 2010, colocar um ponto final a 17 anos de uma magnífica carreira. Não se sabe ao certo se a reunião no festival NOS Alive’20 se trata de um acto isolado, um epicentro de algo maior (o ponto de partida para uma digressão pelo país, por exemplo) ou até uma catapulta para a Doninha criar novo material, que se poderá traduzir na edição de um novo álbum (figas feitas para esta última possibilidade). Uma coisa é certa: no dia 11 de Julho, a banda dos irmãos Nobre vai passar pelo muito conhecido e prestigiado palco do Passeio Marítimo de Algés. A febre em torno deste reencontro já se faz sentir nas redes sociais em geral e na página de Facebook do colectivo em particular. Ainda que, na pior das hipóteses, este seja um “olá” seguido de um “adeus”, não vai haver fã que perca a oportunidade de o fazer.

A corrida pelos ingressos inicia-se oficialmente a 28 de Setembro, dia em que Fnac colocará à venda 5000 unidades de um pack exclusivo, que, além do bilhete para o concerto, ainda disponibiliza uma t-shirt desenhada pela banda. Não é preciso ser-se grande génio para prever uma febre nas bilheteiras. Aliás, no preciso momento em que a organização colocar à venda os bilhetes ditos normais, estes desaparecerão em tempo recorde, provavelmente numa questão de horas. Mantenham-se atentos, esta é daquelas oportunidades imperdíveis.

Os Da Weasel foram uma das grandes bandas – talvez a grande banda – da minha adolescência. Conheço a discografia de trás para a frente, as canções de cor e salteado e perdi a conta dos concertos deles que presenciei: do lado de cá, enquanto espectador e fã incondicional; do lado de lá, enquanto técnico de som e funcionário da empresa que durante muitos anos garantiu os audiovisuais para as suas digressões. Concertos em nome próprio, semanas académicas, festivais de Verão e até feiras de agropecuária: testemunhei o colectivo nos mais variados ambientes e ecossistemas, sendo uma coisa sempre certa: nunca mas nunca desiludiram ao vivo, nem pouco mais ou menos – e essa infalibilidade estendeu-se, a meu ver, também aos discos.

No meu trabalho de final de ano do curso de Jornalismo e Crítica Musical, concluído na ETIC_, assinei um documento sobre os primeiros passos da Doninha, da génese e formação até à gravação do EP More Than 30 Motherf***s, não esquecendo, claro, a mítica estreia na Gartejo e os concertos no emblemático Johnny Guitar. É até hoje a peça jornalística da qual mais me orgulho, não só pelo processo e resultado final (o artigo abriu-me as portas da revista BLITZ e foi republicado anos depois aqui no Rimas e Batidas) mas também por ter como objecto central uma banda que sempre esteve no centro das minhas atenções. Para o efeito, conduzi entrevistas a João Nobre, Armando Teixeira, Yen Sung, Amândio Bastos, Nuno Galopim, Mário Dimas, Henrique Amaro e, obviamente, Carlão. Há dois pontos que faço sempre questão de destacar da minha entrevista com o mais novo dos irmãos Nobre: 1) foi uma conversa rica que, obviamente, me facultou imenso material para o trabalho 2) quis o destino que esta acabasse por ficar marcada – até à data –como a entrevista mais cara da minha carreira jornalística.

Passo a explicar. A conversa decorreu numa esplanada em Cacilhas e eu, por azar ou distracção (escolha-se a opção correcta), estacionei o carro numa zona dedicada a funcionários da Transtejo. Foi um misto entre eu não ter tomado a devida atenção à sinalização e esta ser, logo à partida, paupérrima: se bem me lembro, tratavam-se de umas letras no chão que ficavam obviamente escondidas pela carroçaria da viatura no momento em que o espaço era ocupado. Assumo, contudo, a minha culpa no cartório. Não obstante, o que importa sublinhar é que, finalizada a entrevista, cheguei ao local onde tinha deixado o carro e ele não estava. Havia sido rebocado pela empresa local de gestão de estacionamento e circulação, a ECALMA, cujo nome só por si tem um tanto ou quanto de irónico.

Quando chego ao parque de reboque para reaver o veículo, sou presenteado com uma volumosa conta que me obrigou a um valente jogo de cintura na hora de pagar (falo de um valor muito acima da centena de Euros). Barafustei, preenchi uma reclamação pela má sinalização do estacionamento e pelo valor absurdo que me fora cobrado de multa, muito acima da realidade de rendimentos a nível nacional, e arranquei irado em direcção a Lisboa. Pelo caminho, lembrei-me que guardava no bolso uma peça fundamental para a missão que, horas antes, me levara a atravessar a ponte em direcção a Almada. Não me estava a correr assim tão mal o dia, verdade seja dita.


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