Da Weasel: os primeiros passos de uma longa caminhada

[TEXTO] Manuel Rodrigues [ILUSTRAÇÃO] Dialogue.pt

O início dos anos 90 trouxe ao mundo a novidade e a afirmação. Foram vários os grupos que aproveitaram a primeira metade da década para deixarem uma sinalética na cronologia musical dos anos que antecederam a viragem do milénio. Nos Estados-Unidos, Seattle borbulhava com a energia magmática do grunge. Em 91, o poder de Nevermind, dos Nirvana, submergiu o mundo de tal forma que os álbuns Ten, dos Pearl Jam, e Badmotorfinger, dos Soundgarden, ambos lançados no mesmo ano, só conseguiram realmente vir à superfície algum tempo depois. O mundo estava de antenas viradas para a “cidade esmeralda” e ensaiava-se por toda a parte alcançar o músculo da guitarra do power trio de “Smells Like Teen Spirit”. No campo do metal, a colaboração entre Metallica e Bob Rock resultou na mais conceituada obra do colectivo, Metallica – vulgarmente conhecido por The Black Album -, que, apesar de ter dividido a opinião dos fãs do género, multiplicou a popularidade da banda de Hetfield e Ulrich, levando muitos bateristas a invejar a qualidade e o peso dos bombos e tarolas de “Enter Sandman” e “Sad But True”. A explosão do rock alternativo confirmou-se com Blood Sugar Sex Magic, dos Red Hot Chili Peppers, que marcou, igualmente, a estreia dos californianos com a Warner Bros. Records. Temas como “Give It Away”, “Under The Bridge” e “Suck My Kiss” deram a volta ao globo e levaram o colectivo de Kiedis e Flea até aos tops da Billboard. Em 92, Los Angeles voltaria a ser o centro das atenções, desta vez com a estreia homónima do quarteto que misturou rap, metal e funk numa só fórmula, os Rage Against The Machine. As letras altamente revolucionárias de Zack De La Rocha juntaram-se à sonoridade díspar da guitarra de Tom Morello e embeberam-se no groove possante do baixo e bateria, originando, mais que uma textura, uma identidade e atitude que se misturou no código genético da banda.

Também no hip hop se viveram novas afirmações. Temas como “Rapper’s Delight” dos Sugarhill Gang, “The Message” de Grandmaster Flash e “Walk This Way” dos Run-D.M.C. e Aerosmith entraram nos anos 90 como arquivos musicais da década anterior. Era chegada a altura de novos valores como De La Soul, The Disposable Heroes Of Hipoprisy, Gang Starr, Digable Planets, Cypress Hill e House Of Pain mostrarem novas formas de fazer hip hop, servindo de inspiração para um mundo que aos poucos, muito timidamente, ia consumindo esta “nova” cultura de beats e rimas.

Todas estas movimentações exteriores levaram a que Portugal se focasse cegamente nos acontecimentos além fronteiras. Valores como a língua mãe e a identidade da música praticada nos anos 80 começaram a ser postos de parte em função da importação transatlântica. Henrique Amaro, actualmente radialista da Antena 3 (NR: à data de escrita original deste artigo), começou os primeiros anos desta nova década a trabalhar na rádio Energia e partilhou com Zé Pedro (Xutos & Pontapés) e Xana (Rádio Macau) um programa televisivo no canal 1 da televisão pública chamado Vira o Vídeo, que aproveitaram como veículo de divulgação da música que ouviam. Henrique Amaro explica o porquê deste virar de costas à identidade da música portuguesa. “A primeira metade da década de noventa veio mostrar muita coisa, entre elas, pessoas a cantar em inglês. Uma geração que era emergente e que não sabia o que tinha acontecido na década anterior, ou se sabia não estava interessada em tê-los como fonte de referência. Falo de marcos como os Xutos, UHF, GNR, Heróis do Mar e Rui Veloso. Não lhes diziam nada, todos eles cresceram com outras referências: Red Hot Chili Peppers, Dead Kennedys, toda a onda do grunge dos Nirvana, Pearl Jam e Soundgarden. E isso levou a que o inglês fosse adoptado como língua de exercício musical. Há depois, também, uma tentativa de se refinar a música que é feita. Se durante a década de oitenta houve uma série de músicos a tentar perceber como é que se gravava, misturava e masterizava, há, a meu ver, um aceleramento desses processos no início dos anos 90. As guitarras começaram a soar cada vez mais próximas dos discos que vinham de fora”.

A Antena 3 nasceu em 94, mas o primeiro contacto de Henrique Amaro com os elementos que viriam a fundar os Da Weasel aconteceu nos tempos dos Braindead. “Tinha criado uma relação de amizade com eles, especialmente com o João Nobre, por ser uma banda que eu gostava muito e também por ter ajudado à divulgação do seu trabalho na rádio Energia e posteriormente no Vira o Vídeo, onde passámos o teledisco do “Cry Alone”. Eu como era DJ no Johnny Guitar, às quintas, sextas e sábados, a primeira recordação que tenho dos Da Weasel é de num início de noite o João Nobre vir ter comigo e pedir-me para eu falar com o Zé Pedro – que era a par do Alex (actual dono do Musicbox – NR: à data de escrita original deste artigo) proprietário do espaço – de forma a que os Da Weasel fossem lá tocar. Notava-se aqui alguma humildade por parte da banda, visto ainda não terem o estatuto para tocar num sítio tão nobre e tão focado como o Johnny Guitar. O irmão lembro-me de o ver ao longe num concerto histórico dos Faith No More, no Campo Pequeno, em que foram os próprios Braindead a fazer a primeira parte. É este o primeiro sinal, para mim, da existência dos Da Weasel”.

 


[O NASCIMENTO DA DONINHA]

Foi durante o ano de 93, na belíssima cidade de Almada, que os irmãos Carlos e João Nobre, ambos nascidos em Angola, filhos de pais cabo-verdianos, e a viver em Portugal desde tenra idade, decidiram fundar os Da Weasel. Porém, antes do nascimento do projecto que viria a acompanhar os dois irmãos durante dezassete longos e auspiciosos anos, a experiência no campo musical já fazia parte da família Nobre. Carlos, o mais novo, chegou a tocar baixo em várias bandas da Margem Sul, como por exemplo O Incesto, que era, segundo palavras do próprio, “uma salganhada difícil de definir, oscilando entre o rock gótico e o progressivo”. João era guitarrista nos Braindead e preparava-se para lançar Room Landscapes, segundo álbum do quinteto que sucedeu a Blend e que sairia em 94, também ele com o selo da EMI. Juntos, os dois irmãos ainda tiveram os Esborr, um projecto de hardcore, que era, segundo João Nobre, “levado com um espírito leviano, muito na ‘descontra’. Era mais um exercício de boa disposição do que outra coisa qualquer”.

Foi no quarto que partilharam juntos, ainda na casa dos pais, que João Nobre desafiou o irmão para formarem um projecto. “Eu, na altura, andava fascinado com alguns álbuns que tinham acabado de sair e andava deslumbrado com bandas como os Public Enemy e Disposable Heroes Of Hiphoprisy. Tentei, inclusive, levar essas influências para os Braindead, mas não havia muito espaço para tal, pois a matriz era muito rock metal. E como me apetecia fazer uma coisa mais orientada para o mundo do hip hop, sobretudo para o álbum Hipocrisy Is The Greatest Luxury, fixei-me na ideia. Só que eu não tinha assim muito mais apoiantes nesta “nova aventura”, por isso, quando lancei o desafio ao meu irmão, perguntei-lhe se ele estaria disposto a cantar. Ele nesse momento fartou-se de rir e disse que eu era maluco, que o que tocava era baixo e que não seria capaz de o fazer. Mas como eu sou um tipo muito teimoso, lá o convenci a colocar voz no projecto”.

O nome da banda foi escolhido de uma forma muito pragmática e tem origem numa música dos 3rd Bass intitulada “Pop Goes The Weasel”. João adorou o nome “The Weasel”, fez uma ligeira mutação no artigo definido e baptizou assim o colectivo. “Foi simples, nem demorei muito tempo a pensar nisso. Nestas coisas uma pessoa tem de ser prática. Não valia a pena pensar em nomes que quisessem dizer alguma coisa. As justificações vieram depois, curiosamente. O conteúdo lírico dos Da Weasel justificou o nome e não o contrário”. O passo seguinte seria criar um conteúdo concreto para apresentar às rádios e editoras. “Peguei em quinze contos que tinha juntado durante algum tempo e fomos a estúdio para gravar a primeira maquete. Foi assim que tudo começou.”, relembra João Nobre.

 


[UMA APOSTA GANHA]

A primeira maquete dos Da Weasel foi para o ar ainda em 93, na recentemente inaugurada XFM. Nuno Galopim, um dos fundadores da rádio e actualmente jornalista da secção de cultura do Diário de Notícias (NR: à data de escrita original deste artigo), conta como tudo aconteceu. “Apesar de ter começado a escrever no Expresso, na área da ciência, iniciei a minha relação com a música na Antena 2. Da Antena 2 , onde fiz um programa sobre os minimalistas e a expressão do minimalismo nas outras áreas da música, passei para a Antena 1, onde permaneci durante algum tempo. Depois, fui convidado para o projecto da XFM, que tinha tudo a ver com aquilo que me interessava. Estive na formação da identidade da rádio, nas primeiras reuniões com o António Sérgio, Ricardo Saló, Sílvia Alves e Aníbal Cabrita. Pouco depois chegaria a Isilda e o Nuno Reis. A primeira música a ser emitida fui eu que a pus no ar, lembro-me bem de ter sido o tema “Jean The Birdman” de David Sylvian e Robert Fripp. Fiz vários painéis durante a semana e foi num horário de sábado que estreei a maquete dos Da Weasel”.

No entanto, o primeiro contacto do radialista com os dois irmãos acontece, como aconteceu com Henrique Amaro, nos projectos pré-doninha. “Eu conheço o João Nobre através dos N. Meets Michael, quando ele concorre com a banda no primeiro, e único, concurso de música moderna da Câmara Municipal de Lisboa, em 1991, que dá a vitória aos Plopoplot Pot do Nuno Rebelo, e que revela projectos como os Tina And The Top Ten, Valdez e As Piranhas Douradas e os Entre Aspas. Foi um concurso que teve a participação de nomes que acabariam por marcar parte do panorama da música nacional dos anos 90. A banda do João Nobre participa logo na primeira ou na segunda eliminatória. Gostei da ideia e do som deles – eu era um miúdo que estava a trabalhar na Antena 1 e achava que havia espaço na rádio para desenvolver a música portuguesa. Então pegava num gravador, saía com ele para cada uma das eliminatórias, fazia entrevistas aos músicos, pedia-lhes as cassetes e as maquetes e levava tudo para o programa que fazia diariamente. Como eu já conhecia o João Nobre, os Braindead acabaram por não me ser totalmente estranhos, até porque acompanhei a edição do primeiro álbum deles, o Blend. Conheço o Carlos por essa altura, nem o conhecia por Carlão, simplesmente como Carlos o “irmão do João”. Era um miúdo calado mas com boa conversa.”

Nuno Galopim perpetua o episódio que levou Carlos Nobre a dirigir-se às instalações da XFM para lhe entregar em mãos a maquete dos embrionários Da Weasel. “Lembro-me perfeitamente. A XFM ficava num edifício no meio do nada na Avenida de Ceuta – na altura ainda tinha o Casal Ventoso todo pela frente – era de facto um ermo. Eu fazia um horário mais tardio, e por vezes tinha de me deslocar a pé para as instalações da rádio, algo que ao cair da noite não me atraía nada. Lembro-me nesse dia de sair do táxi, de entrar no átrio e de ver o Carlos sentado à minha espera. Naturalmente que o reconheci logo na altura. Ele explicou-me, então, que tinha uma banda nova, que tinha gravado uma maquete e se havia a possibilidade de eu a ouvir. Convidei-o a subir, sentei-me a fazer a emissão e, à confiança, meti o DAT. Fiz play e saiu o ‘Monkey King’. Ou seja, ouvi a canção no momento em que foi para o ar.”

A reacção do radialista ao que estava a ouvir não tardou. “Foi uma sensação de frescura tremenda. Convém dizer que isto aconteceu por volta de 93, 94. É claro que já havia hip hop em Portugal desde os anos 80, mas era uma coisa praticamente invisível. Alguns dos projectos que mais tarde viriam a dar que falar já tinham pré-histórias feitas principalmente na cintura urbana da cidade de Lisboa. É claro que, internacionalmente, o hip hop já estava numa fase mais do que avançada do seu processo, já tínhamos passado pelo momento do sucesso pontual dos Run-D.M.C. e o tema “Walk This Way”, com os Aerosmith, paralelamente com algumas canções dos Sugarhill Gang. Houve coisas muito pontuais a acontecerem, como por exemplo, o 3 Feet High & Rising dos De La Soul, um disco que congrega as atenções e estabelece uma certa unanimidade. O hip hop deixa de ser uma cultura underground e passa a ter alguma visibilidade mainstream. Quando os Da Weasel gravaram o primeiro EP, eu estava ainda no Blitz e era o mais entusiasta na matéria: andava muito a par daquilo que acontecia nos chamados domínios do jazz hip hop. Acolhi com muito interesse o nascimento da Talkin’ Loud e da Acid Jazz Records. Nunca tive muita ligação ao gangsta rap e a outras expressões de Los Angeles ou dos bairros de Nova Iorque, mas as que eram musicalmente mais desafiantes, mais ricas em acontecimentos e mais trabalhadas a nível de samples, sempre me entusiasmaram muito. Era um fenómeno musical que me era muito caro e sobre o qual escrevia no Blitz. Lembro-me de ter escrito sobre De La Soul, Stereo MCs, Beastie Boys, Young Disciples e Disposable Heroes Of Hipoprisy – com o fabuloso Hipocrisy Is The Greatest Luxury que nos ensina como se pode fazer, através da música, um retrato jornalístico da sociedade. O hip hop viveu um dos seus melhores momentos entre 89 e 93, até ao álbum dos Digable Planets. Nessa altura, eu estava muito em cima do acontecimento. Talvez essa minha relação escrita com o hip hop tenha incentivado o Carlos a dirigir-se às instalações da XFM para me mostrar o seu novo projecto. A própria personalidade da rádio seria a indicada para divulgar aquele tipo de som, visto ser a que na altura tinha as orelhas mais abertas a esse tipo de novidade. E assim foi, é um daqueles momentos que não esqueço. É sempre bonito ver qualquer coisa a nascer”.

A maquete acabou por entrar para a playlist da rádio, causando algum sucesso e criando visibilidade ao duo. Era chegada a altura de dar o próximo passo.

 


[O RECRUTAMENTO DE NOVOS ELEMENTOS E A ESCOLHA DOS PSEUDÓNIMOS]

A obsessão dos dois irmãos pela música feita lá fora e principalmente pela faceta industrial e noise do álbum Hipocrisy is The Greatest Luxury – um «industrial quanto baste” como explica João Nobre – levou-os à procura de alguém que conseguisse imprimir tal vertente samplada e maquinada. Armando Teixeira foi a pessoa escolhida para tal missão. Antes de ingressar nos Da Weasel, o artista já se tinha aventurado no mundo da música com vários projectos que percorreram as mais diversas áreas estilísticas. “Eu antes tinha tido os Ik Mux, uma banda inclinada para a onda do pop electrónico, depois tive os Boris Ex-Machina, um projecto que misturava tangos, valsas, um pouco de Tom Waits e Kurt Vile. E tinha também criado os Bizarra Locomotiva, um grupo de metal industrial, para participar num concurso de música”.

João Nobre relembra como a sua persistência o levou até ao “homem da maquinaria”. “Eu não conhecia o Armando pessoalmente, mas estava familiarizado com o trabalho dele – já tinha visto uns concursos em que ele tinha participado com os Bizarra. E lá está, como sou um gajo muito teimoso, movi mundos e fundos, tentei arranjar o número telefone dele e lá o consegui contactar”. Armando Teixeira aceitou o convite para integrar a banda, participou na construção dos seis temas que compõem More Than 30 Motherf***s e conta como foi explorar um mundo que até então se revelava uma novidade para ele. “Nós no início tínhamos uma ideia daquilo que queríamos, no entanto, nenhum de nós tinha alguma vez feito aquele tipo de música. A mim sempre me deu muito gozo criar num estilo ao qual não estou habituado. Esse início, quando se começa a perceber como funciona um determinado género musical, é muito estimulante e normalmente é quando se criam as melhores coisas”.

Yen Sung foi o quarto e último elemento a juntar-se a esta fase inicial dos Da Weasel. Yen começou a sua carreira a passar som no Frágil por mero acaso. “Foi uma coisa de momento. Uma oportunidade”, explica a DJ, sublinhando as influências musicais que teve. “Na altura ouvia os DJs do Frágil, passava-se Public Enemy, De La Soul, Jungle Brothers e Beastie Boys“. O convite para fazer parte dos Da Weasel surgiu no contexto das matinés do Trópico, espaço inteiramente dedicado ao hip hop, localizado à beira rio, num armazém grande em Santos que servia de ponto de encontro para o pessoal do movimento e onde Yen Sung era DJ. “As matinés do Trópico vêm no seguimento de umas noites que eu comecei a fazer no Viking. Inicialmente eram para ser umas noites de Acid Jazz, mas entretanto achei que esse estilo já estava a ser muito explorado em alguns bares do Bairro Alto e que faltavam noites somente direccionadas para o hip hop – um estilo que começava a emergir em Portugal. E então comecei a fazer noites dedicadas ao género, com open mic, uma coisa que era muito vulgar fazer-se lá fora. Consegui juntar uma equipa pequenina e os meios necessários para o fazer. Resultou muito bem, foi uma forma de vários MCs conseguirem mostrar os seus talentos e o trabalho que tinham feito em casa”.

Carlos Nobre tinha por hábito frequentar essas mesmas matinés e recorda-as da melhor forma. “Basicamente ouvia-se hip hop. Eram matinés com muita gente da altura do Rapública a tocar, ouvia-se Family, Boss AC, Cupid, Black Company, Zona Dread e General D. Essa rapaziada tocava lá toda, a Yen passava discos e vendia-se cachupa, era uma cena fixe”. Porém, Yen já conhecia Carlos antes das festas no Trópico. “Conhecia-o a ele e ao irmão das noites do Bairro Alto, do Frágil e do Gingão. Nós, na altura, ouvíamos as mesmas bandas de rock. E devido ao facto de frequentarmos os mesmos sítios, criou-se uma empatia musical. Quando eu comecei a fazer as noites do Viking, o interesse deles em mim tornou-se mais sério. Eles já tinham o projecto em mente, já estavam a trabalhar nele e acharam que eu seria uma mais valia para a banda”. O rapper acrescenta. “A Yen aparece também um pouco pela necessidade de fazer algo diferente. Houve ali algumas coisas que aconteceram quase como se metêssemos a intenção artística antes da competência, assim como os Velvet Underground foram buscar uma Nico por outras razões que não propriamente a música. A Yen representava isso tudo. Ela era, numa altura em que não havia DJs, a única mulher DJ em Lisboa com bom gosto. Passava e conhecia muito hip hop, mas também vinha de uma tradição meio punk e pesada. Então não era uma ‘gaja’ do hip hop, era muito mais que isso”.

Constituída a equipa, e depois do sucesso da maquete ter feito os dois irmãos acreditar que seria possível alcançar algo mais, era chegada a hora de avançar para a gravação do primeiro EP. Porém, o vínculo contratual que João Nobre possuía com a EMI, enquanto membro dos Braindead, impossibilitava o artista de assinar outros trabalhos com o mesmo nome. O pseudónimo pelo qual passou a ser conhecido durante os anos de existência dos Da Weasel surge dessa necessidade de discrição. Assim se rebaptiza como Jay Jay Neige. Para Carlos Nobre a história foi mais simples e desprovida de qualquer camuflagem, o rapper adoptou o nome de um dos seus jogos de arcada predilectos, Pacman, por ser um personagem com o qual se identificava.

 


[O PRIMEIRO EP: MAIS DO QUE 30 PALAVRÕES, A NECESSIDADE DE TRANSMITIR UMA MENSAGEM] 

 Em 94 é lançado o primeiro trabalho discográfico dos Da Weasel, o EP More Than 30 Motherf***s. Esse mesmo ano foi pautado por outras duas obras que marcaram a história do hip hop em Portugal, o EP PortuKKKal é Um Erro, de General D e a compilação Rapública. More Than 30 Motherf***s viria a ser o responsável pela nomeação do quarteto da Margem Sul para os prémios Blitz na categoria de “Banda Revelação”, prémio que acabariam por perder para Pedro Abrunhosa com o aclamado Viagens. Jay Jay relembra este episódio. “Embora o nosso EP tivesse granjeado muito boas críticas da generalidade da opinião especializada, o álbum Viagens foi um autêntico tsunami. Jogava a nosso favor o facto do nosso EP ser um disco muito alternativo, o que encanta sempre a crítica em desprimor dos grandes sucessos de vendas. Mas sabíamos que não teríamos hipótese… Foi bom porque nos colocou no mapa e despoletou interesse do público, de editoras e agentes”.

Mas, comecemos pelo início. Amândio Bastos, director dos estúdios da Valentim de Carvalho ((NR: à data de escrita original deste artigo), foi uma das pessoas mais importantes a intervir na construção deste primeiro EP. Carlos Nobre explica como nasceu esta ligação entre os Da Weasel e a pessoa que dirigia os quatro estúdios do emblemático grupo empresarial. «Depois da maquete ter passado na XFM, há uma proposta do Amândio, que conhecia o meu irmão dos Braindead, para nos gravar o disco nos horários livres do estúdio. Nós nunca teríamos dinheiro para pagar tais sessões. Quando não houvesse lá ninguém ele conseguia meter-nos mais ou menos de surra a pagar um valor simbólico”. Amândio Bastos reforça esta ideia e ainda repesca à mente alguns pormenores sobre a primeira vez que ouviu a maquete e como foi lançado o convite ao grupo para gravar. «Certo dia, recebi um telefonema do João Nobre a pedir para se encontrar comigo. Como tinha sido eu a trabalhar numas gravações que eles gostaram dos Pop Dell’ Arte, contactaram-me para saber se eu estaria disponível para trabalhar com eles. Marquei uma reunião com o João no final de uma semana e nesse mesmo dia ele trouxe-me uma cassete para eu ouvir. Ele estava um pouco nervoso, lembro-me perfeitamente. Recordo-me de ter parado a audição ao fim da terceira música da maquete e de lhe ter perguntado: “estás pronto para entrar em estúdio na segunda-feira?”. Por coincidência, o estúdio estava livre na semana a seguir e eu mesmo sem saber como é que aquilo se ia processar, mesmo em termos de negócio, decidi aproveitar essa mesma semana e pô-los a gravar. A maquete já era tão boa que não houve necessidade de mexer muito naquilo que já estava feito. Pensei que estariam prontos para fazer o EP sem estar a acrescentar mais nada, sem grandes produções. Exactamente aquilo que eles tinham feito, mas gravado em boas condições».

More Than 30 Motherf***s foi o nome escolhido para o EP e representa uma vontade que os Da Weasel tinham de passar a ideia que havia muito mais para dizer do que 30 palavrões. Jay Jay reflecte em torno desta escolha. “A esta distância pode parecer (e parece) de uma grande ingenuidade, mas na altura o hip hop estava impregnado com discursos ultra machistas, caralhadas gratuitas e mensagens inócuas. É preciso entender isto à luz da época… Revia-me em toda a linha do discurso de artistas como os Disposable Heroes of Hiphoprisy ou Public Enemy que promoviam a discussão sobre o estado social, político e humano”. Num artigo publicado a 3 de Agosto de 94 no já extinto semanário Se7e, intitulado Rap Por Cá – A Nova África, onde podemos encontrar também testemunhos de General D e Yen Sung, Pacman explicava a origem e a essência dos temas que compunham o EP. “Eles vêm um bocado da nossa experiência pessoal e da cena urbana: desde o problema da droga à cidade onde vivemos. Procuramos fazer intervenção social e criticar o que está mal neste país e não só. Depois há também experiências pessoais: ‘And Life Goes On’ é uma canção sobre uma amiga nossa que morreu de sida”.

De facto, podemos encontrar neste primeiro disco uma preocupação com a mensagem transmitida e um tom politizado que vai desde a capa até às rimas de Pacman. Por outro lado, as paisagens com que nos deparamos quando ouvimos este EP remetem-nos inevitavelmente para as bandas que estavam a causar furor no mundo do hip hop. Tão depressa há bases instrumentais à imagem do disco Hipocrisy is The Greatest Luxury, como alguns pormenores que nos levam até Beastie Boys, Cypress Hill e House of Pain. Armando Teixeira, o responsável máximo pela manipulação e programação da maquinaria, ajuda a confirmar tais influências. “Os House of Pain usavam um grito do Prince numa música deles. Nós repescámos esse mesmo sample e aplicámo-lo de três ou quatro maneiras diferentes”.

A nível do idioma aplicado na escrita e no canto, era impensável para Pacman rappar noutra língua que não o inglês. “Basicamente o que eu queria era ser igual aos gajos que ouvia, e para o ser tinha de o fazer em inglês, nem o imaginava de outra forma. Mas depois, quando fui pressionado por pessoal de fora a escrever e a cantar em português, algo que só aconteceu no LP Dou-lhe Com a Alma, percebi que só assim fazia sentido”.

O EP sai com o selo da Margem Esquerda, uma editora pertencente a Mário Dimas, que desempenhava o papel de agente e manager de bandas da Margem Sul. A ligação do empresário com o quarteto vem da altura do management aos Braindead, porém, conseguir o interesse de uma editora em lançar o primeiro trabalho dos Da Weasel não foi fácil. É o próprio Mário Dimas que escava na memória as peripécias que o levaram a criar o seu próprio selo discográfico. “Já trabalho nisto há muitos anos, há mais de 35. Comecei a trabalhar com algumas bandas aqui de Almada, fui manager dos UHF… Ouvi os Da Weasel, achei o projecto muito bom e andei à procura de uma editora que tivesse interesse. Fui à Valentim, à Universal e nenhuma delas mostrou vontade de os editar. Sou por isso forçado a criar uma própria editora. Assim nasce a Margem Esquerda -podemos dizer que a criei com esse único propósito. Na altura o custo de fabrico de CDs era muito elevado comparativamente aos dias de hoje, era um investimento muito sério. Eu achei que aquilo tinha pernas para andar e teve. Passado um tempo, foram os tais ‘desinteressados’ que me vieram bater à porta com a finalidade de comprar os direitos para fazer uma nova edição. De repente, já toda a gente achava que eles tinham um enorme potencial, quando antes diziam que era simplesmente mais um projecto igual aos que eram feitos no estrangeiro”.

More Than 30 Motherf***s contou com uma edição de 1500 exemplares e, segundo Mário Dimas, “vendeu a conta gotas”. O EP é constituído por seis temas: “Da Weasel”, “Monkey King”, “One More”, “God Bless Johnny”, “And Life Goes On” e “Mi Ma Moo”, todos eles, ainda nas palavras do empresário da Margem Sul, “passíveis de virem a tornar-se hits da banda”. Mas, deste conjunto de seis canções, houve uma que tomou balanço e se destacou das restantes, chegando a ser hasteada como bandeira de uma das salas de espectáculo mais emblemáticas da zona de Lisboa, o Johnny Guitar.

 


[“GOD BLESS JOHNNY”: O HINO ACIDENTAL]

Os primeiros anos da década de 90 ficaram igualmente pautados pelo encerramento do mítico Rock Rendez-Vous e pela abertura do Johnny Guitar, que viria a ser considerado quase como o seguimento daquela catedral do rock que fez as delícias dos anos 80, localizada nas antigas instalações do cinema Universal. O Johnny Guitar tornou-se num local de culto para o rock e o tema “God Bless Johnny” acabaria por se tornar no hino do espaço. Jay Jay reforça o acontecimento fortuito. “Foi fruto do acaso, uma coisa não tem rigorosamente nada a ver com outra. Não houve programação nenhuma, não fizemos de propósito. No entanto, tornou-se numa bandeira do espaço – houve mesmo quem pensasse que a canção era uma homenagem ao Johnny Guitar. Como era um tema a abrir, com uma boa carga de guitarras e baixos pesados, entrava no perfil do espaço, por isso, tornou-se a sua cara”.

De facto, se há tema em More Than a 30 Motherf***s que prima pela energia e atitude é, sem dúvida, o “God Bless Johnny”. Armando Teixeira recorda a elaboração desta canção e acima de tudo o sample de guitarra utilizado. “Recordo-me que o Jay tinha programado a música numa caixa de ritmos assim muito fanhosa. E ainda me lembro de fazer vozes de apoio quando tocávamos essa música ao vivo”.

O Johnny Guitar acabou por ser um dos espaços escolhidos para os concertos dos Da Weasel. Mário Dimas descreve o ambiente esgotadíssimo que se vivia dentro das quatro paredes do local. “O Johnny Guitar era palco daqueles espectáculos clássicos, cheios, em que já não dava para entrar nem mais uma pessoa. Ficava muita malta cá fora. Não havia hipótese. Lá dentro, o pessoal chegava quase ao backline, quase que se sentavam em cima dos monitores. Foi um espaço emblemático para os Da Weasel”. Pacman acrescenta. “Lembro-me de termos dado lá uns concertos muito fixes. Mesmo sendo um projecto claramente na área do hip hop, a atitude da banda e das pessoas que lá estavam era muito punk, havia muito aquela cena quase de mosh e stage diving. O Johnny Guitar era o sítio ideal para este tipo de coisas”.

Mas tudo tem um início, até as próprias actuações ao vivo. Neste caso, tudo começou na Gartejo, actualmente conhecido como Paradise Garage (NR: à data de escrita original deste artigo).

 


[A ESTREIA NA GARTEJO]

No mesmo artigo do semanário Se7e, em que Pacman falava sobre as temáticas que o EP abordava, podemos encontrar uma introdução que faz menção ao primeiro espectáculo protagonizado pelos Da Weasel e ao local onde aconteceu, a Gartejo. Cristina Duarte escrevia: “Os Da Weasel começaram há seis meses, e a banda inclui, para além de Pacman e Yen Sung, Armando Leite (samplings) [mais tarde viria a assinar como Armando Teixeira], Jay Jay (baixo) e João Fagulha (saxofone). No primeiro concerto da banda na Gartejo (a 15 de Junho), contaram ainda com mais três convidados: Quaresma (guitarra) [que viria a entrar para os Da Weasel no álbum Dou-lhe Com a Alma], Lala e Carlos (trombone de varas e trompete, respectivamente)”. Foi neste concerto que More Than 30 Motherf***s  foi apresentado, e foi por isso “um concerto criado à medida para o local”, como o explica Mário Dimas. Sobre a incorporação de elementos extras para o espectáculo, que chegaram a acompanhar os Da Weasel em alguns concertos realizados nesse mesmo ano, Jay não tem dúvidas quanto ao porquê da inclusão da secção de metais. “Na altura também havia o álbum dos Us3 que fundia o jazz com o hip hop – uma junção que adorávamos. Tentámos puxar um tema ou outro para esse imaginário, mas sem o mesmo talento e capacidade.”

Seguiram-se a esta primeira experiência no espaço em Alcântara outros concertos de norte a sul do país, em bares e discotecas, mas com um sucesso “muito semelhante às actuações na capital”, como o recuperam e concluem as palavras de Mário Dimas. A doninha estava encaminhada e com vários quilómetros de estrada ascendente pela frente.

 


[O SEGREDO ESTÁ NA GÉNESE]

Seguiram-se a More Than  30 Motherf***s, seis discos de longa-duração: Dou-lhe Com a Alma, 3º Capítulo, Iniciação a Uma Vida Banal – O Manual, Podes Fugir Mas Não Te Podes Esconder, Re-Definições, Amor, Escárnio e Maldizer, e as devidas alterações no colectivo. Entram Pedro Quaresma (guitarra), Guilherme Silva (bateria), Virgul (voz) e, mais tarde, DJ Glue; e saem Yen Sung e Armando Teixeira. Todas as obras posteriores ao primeiro EP somaram e multiplicaram o sucesso dos Da Weasel e fizeram adivinhar uma carreira promissora, digna de várias décadas em actividade, não fosse o final abrupto que o colectivo conheceu em 2010. Por desvendar ficaram – e ficarão – as razões de tão repentina travagem, e para a história ficará gravado um exímio legado que vai desde “God Bless Johnny” a “Mundos Mudos”.

Existem várias razões para o êxito da receita mágica que fez os Da Weasel viverem verdes anos no panorama musical português. Henrique Amaro analisa e evidencia o espectáculo ao vivo como uma das principais razões do sucesso. “É impossível fazer crescer uma coisa de tal forma se não tiveres um show. Eu tirei essa conclusão a ver um concerto dos Black Company. Eles tinham canções que tocavam na rádio, aliás, tinham canções que tocavam muito mais na rádio e que eram muito mais abrangentes que as dos Da Weasel. Os Da Weasel estavam a cantar ‘God Bless Johnny’ e os Black Company tinham os deputados na Assembleia da República a dizer ‘não sabe nadar’. Só que os Black Company nunca conseguiram ter um show forte, um espectáculo intenso”. E acrescenta: “Os Da Weasel tinham uma componente de rap, mas não eram uma banda de rap. O próprio Pacman falava de uma maneira diferente. Os Da Weasel não eram uma banda de gueto, não viviam num bairro degradado. Viviam no centro de uma cidade de periferia carregada de problemas como qualquer outra cidade do mundo. O discurso das outras bandas sempre foi um pouco diferente, mais ‘guetificado’. Portanto, estar a etiquetar os Da Weasel como uma banda de rap leva-nos a ser injustos com outras bandas como os Mind Da Gap, que têm essa longevidade e continuam a fazer discos de hip hop puro. Não há nada que se intrometa ali. Da Weasel era uma banda que tinha raízes nos Dead Kennedys, Cypress Hill, Rage Against The Machine, Faith No More, Public Enemy. Era uma coisa muito versátil, muito vasta”.

Pacman expressa a sua opinião como membro do colectivo, mas acima de tudo como uma pessoa com a vivência em torno do hip hop bem assimilada. “Os Da Weasel foram fulcrais no sentido em que foram intermediários para uma cultura que ainda se estava a estabelecer em Portugal. Eu agora falo disto de um modo alargado, de uma forma geral, mas lembro-me dos tempos de escola e do pessoal que vinha do Miratejo e do Monte da Caparica. Eram os xungas, os mitras, os bandidos, não era uma coisa cool. Era uma coisa pesada. Os Da Weasel tiveram um pouco disso mas tiveram também um pouco de outras coisas que já eram mais familiares às pessoas. Isso levou a uma maior aproximação do público em geral ao hip hop. E eu acho que isso foi importante numa altura em que o movimento estava arrancar ainda com um certo receio. Em 93, na altura do primeiro disco, pensava que aquilo que estava a fazer era mesmo hip hop. Só mais tarde é que vim a perceber que não era hip hop, já era outra coisa qualquer. O pessoal mais conservador da cultura não gostava muito de nós por causa dessa mestiçagem toda. Mas por outro lado conseguíamos tocar em várias tranches – sempre foi uma das coisas que me disseram ao longos dos anos de existência do colectivo: “eu não gosto de hip hop, mas de vocês gosto porque é uma cena diferente”.

Nuno Galopim sintetiza e conclui esta questão, teorizando sobre algumas das variáveis presentes na equação da génese do colectivo. “Acho que o que torna os Da Weasel um exemplo diferente dos outros, é a vivência musical de cada um e como cada uma dessas vivências foi tida em conta para a construção da sua música. Ao somar o industrial, o hardcore, o DJ e a cultura hip hop, obtemos qualquer coisa, não necessariamente mais sólida, mas mais rica em acontecimentos e pontos que possam despertar familiaridade e interesse em outras pessoas. Muito do hip hop português acaba por ser mais fechado em referências e a falar para quem lá está: prega para os convertidos. Este projecto conseguiu estimular quem estivesse desatento. Houve qualquer coisa que estabeleceu aqui ou ali um patamar de sedução que levou as pessoas a gostar e a ficar. A carreira podia ter continuado. A prova que o colectivo era mais interessante que a soma das partes é que depois de separados, nenhum dos projectos que nasceu das cinzas dos Da Weasel chegou aos calcanhares daquilo que eram enquanto banda. Nem falo do valor musical, mas sim da exposição mediática. O que valia ali era a soma. A soma fazia a diferença. E era uma belíssima soma convenhamos”.

Quando chegamos ao 3º Capítulo, álbum que é por muitos considerado a obra de excelência dos Da Weasel, já estava enraizada toda a alma daquilo que iria ser o colectivo nos trabalhos que se seguiriam. More Than 30 Motherf***s tornou-se, assim, o tubo de ensaio onde se misturaram os vários estilos que deram origem à molécula de ADN que esteve presente nas células da doninha durante os seus 17 anos de vida.

 


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Texto originalmente publicado na Blitz e adaptado para publicação no Rimas e Batidas.

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