Crónicas de um HipHopcondríaco #25: Percorrer novos caminhos ao longo de velhas estradas

[TEXTO] Manuel Rodrigues [ILUSTRAÇÃO] Riça

A Bretanha é linda. Das paisagens às aldeias típicas, passando pelas suas igrejas, catedrais, pontes e castelos medievais, e acabando, claro, no imponente Mont-Saint-Michel, tudo se conjuga de forma a criar umas férias de sonho. Mas não é de viagens nem de experiências turísticas que esta crónica trata. Em vésperas de apanhar o avião para Bordéus, cidade costeira onde se deu uma espécie de escala antes de arrancar de autocarro rumo a norte, deparei-me com um artigo, salvo erro do Consequence of Sound, que dava conta de um tema em plena maratona no lugar cimeiro da tabela Hot 100 da Billboard. Tratava-se de “Old Town Road”, de Lil Nas X – confesso que sempre cheguei com algum atraso a este tipo de fenómenos, e este não foi claramente excepção.

Ouvi o tema umas quantas vezes antes da partida com destino a França. E qual não é o meu espanto quando o oiço, já em Bordéus, num bar em pleno coração do centro histórico, a tomar conta da pista de dança e dos ouvidos dos presentes, que não se inibiram de cantar a letra toda. E novamente em Vannes, já na Bretanha, num espaço entre muralhas longe de qualquer ligação com o hip hop. E em Dinan, numa rua com uma mão-cheia de bares onde a banda sonora era maioritariamente música medieval. E em Nantes, numa discoteca às moscas e perdida numa rua perpendicular à zona de restauração. A maior surpresa acontece, contudo, no regresso a Portugal, a 9 de Julho, dia de EDP Cool Jazz. Ver os The Roots a citarem o refrão de “Old Town Road” a meio do concerto leva-me a crer que este é um fenómeno transversal a zonas geográficas, géneros musicais e gerações – trata-se de um caso de omnipresença.

“Old Town Road” lidera a lista Billboard Hot 100 há 15 semanas consecutivas e prepara-se para ultrapassar uma importante barreira: se se mantiver nesta posição até à 17ª semana, o single de Lil Nas X tornar-se-á no recordista de longevidade na primeira posição da cobiçada tabela, até agora detido por “Despacito”, na versão que junta Luis Fonsi e Daddy Yankee a Justin Nieber, e “One Sweet Day”, de Mariah Carey e Boys II Men – ambas as canções acamparam no lugar mais alto do pódio durante 16 semanas consecutivas.

E como terá conseguido o jovem Lil Nas X, que completou no passado mês de Abril a sua vigésima Primavera, alcançar tal feito? Com trabalho, astúcia e sorte.



No ano passado, Montero Lamar Hill abandonou os estudos para investir numa carreira musical. “Era tudo muito stressante”, revelou o músico em conversa com a revista Time. “Dormia cerca de três horas por dia, pois passava imenso tempo em casa da minha irmã, na Internet, a tentar promover a minha música. Não queria regressar a casa, porque sabia que os meus pais estariam furiosos comigo”.

“Old Town Road” nasce numa altura em que Lil Nas X diz ter-se sentido num beco sem saída. “Eu estava a viver na casa da minha irmã. E ela já estava farta de eu estar lá”, confessa, acrescentado que parte da letra do refrão se deve a essa fase mais atribulada. Contudo, durante a construção do tema, Nas deu-lhe um significado diferente, mais positivo. “Old Town Road” passou a ser símbolo de sucesso. “O cavalo significa não ter muito, mas teres o suficiente para alcançar aquilo que queres. A parte do ‘can’t nobody tell me nothing’ refere-se aos meus pais quererem por força que eu regressasse aos estudos”.

O instrumental, que utiliza um sample do tema “Ghosts IV – 34”, dos Nine Inch Nails, foi produzido por YoungKio e adquirido por Lil Nas X, via Internet, pela módica quantia de 30 dólares. “Old Town Road” foi editado de forma independente a 3 de Dezembro de 2018 (o músico viria mais tarde a assinar contrato com a Columbia), numa altura em que a Yeehaw Agenda, movimento que se apropriou da moda e cultura cowboy, atingia o seu ponto alto. Como forma de promover a canção, Nas criou uma série de memes que acabariam por ser aproveitados pelos utilizadores da plataforma TikTok. “Eu estava muito familiarizado com a TikTok”, pode ler-se ainda na mesma entrevista. “Sempre achei os seus vídeos ironicamente hilariantes. Ter-me tornado numa tendência lá foi um momento de loucos para mim”.

No dia que se seguiu à edição de “Old Town Road”, Lil Nas X informou através do Twitter que queria que Billy Ray Cyrus, pai da cantora Miley Cyrus, fizesse parte da canção. Billy mostrou-se interessado em participar por esta lhe trazer à memória a “velha estrada” para a Old Town Bridge, no Kentucky, a sua terra natal. Assim nasce a remistura mais popular de “Old Town Road” – a esta juntam-se as remisturas protagonizadas por Young Thug e Mason Ramsey, Diplo e Cupcakke.



O capítulo que se segue é o mais interessante desta história toda. Por fazer referência a cavalos, cowboys e a todo um ideal de westerns, facilmente comprovado pelo videoclip, Lil Nas X decidiu categorizar “Old Town Road” nas plataformas SoundCloud e iTunes como música country, levando a que o tema emergisse nas tabelas country desses serviços. E por estar à vontade com o carácter viral da Internet e a possibilidade de manipular os seus algoritmos, Nas conseguiu que a sua combinação de banjos e batida 808 ganhasse representatividade em duas tabelas bem distintas da Billboard: Hot R&B/Hip-Hop Songs e Hot Country Songs.

Para infortúnio de Lil Nas X, a música acabou por ser expulsa da lista Hot Country Songs por, segundo critérios da Billboard, não se adequar. “Quando se definem géneros, alguns factores são examinados, mas primeiramente e mais do que tudo a composição musical. Apesar de ‘Old Town Road’ incorporar referências ao campo e ao imaginário cowboy, não reúne elementos suficientes da música country de hoje para entrar na sua versão actual”, comunicou a entidade à Rolling Stone. Em jeito de resposta, ainda no contexto da conversa com a Time, Lil Nas X afirma: “o tema é country rap. Não é só uma coisa, nem outra. São ambas. Deveria fazer parte das duas [listas] ”.

A exclusão da tabela gerou uma onda de indignação, com músicos, opinião pública e órgãos de comunicação a acusarem a Billboard de racismo e discriminação. No passado dia 29 de Março, Lisa Respers France publicou um artigo no site da CNN, com algumas das reacções à decisão da famosa publicação norte-americana. Pode ler-se, entre outras, uma mensagem da artista country Meghan Linsey a defender o jovem rapper. “Isso é treta [referindo-se à justificação da Billboard]. Tem tanto ‘country’ como qualquer outra coisa que passa na nossa rádio country”.

O remate da entrevista para a Time vai mesmo nesse sentido. “Eu acredito que quando estás a começar algo novo vai sempre haver algum tipo de má recepção”, partilha. “Tens o exemplo de quando o rap começou, ou quando o rock ‘n’ roll começou”, destaca, acrescentando ainda que não reclama ser precursor do country trap. “Eu acredito que o Young Thug seja um dos grandes pioneiros do género”, conclui. 

Racismo ou não, parece haver aqui uma questão incontornável em toda a polémica. A canção foi catalogada como country, escalou a tabela e foi escutada por muitos como tal, incluindo músicos dentro do género que lhe entregam esses créditos de bandeja (os quais poderiam, com legitimidade, negar essa identidade). Retirar “Old Town Road” dessa tabela é um acto que, além de conservador e altamente limitador, só demonstra que ainda há quem queira que alguns estilos vivam numa redoma, imaculados, intocáveis, sem que estes tenham sequer a liberdade de poder viver com outras correntes de expressão e ganhar com isso outra forma, outra vida, outra maneira de existir – e, neste caso, coexistir. Ainda bem que o hip hop nunca teve esses limites.

Se é perfeitamente possível ouvir “Old Town Road” a tocar em aldeias medievais na Bretanha, onde nunca imaginaria que tal coisa viesse a acontecer, também é perfeitamente viável integrar a tabela de um dos estilos que evoca na sua textura e intenção. Não?


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