The Roots no EDP Cool Jazz: levantem-se para receber os campeões

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTOS] Sebastião Santana

“Everybody get up”, atirou de imediato Black Thought aquando da entrada da banda americana em palco. Um tom autoritário, vindo de quem já pisou mil e um palcos e olhou de frente para os mais variados públicos, que não fica mal a quem realmente pode reclamar alguma arrogância na sua postura (e que bem ficou o MC de longo casaco/robe com “reigning champ” estampado nas costas…).

Depois das atribulações técnicas no concerto de abertura dos HMB — três tentativas falhadas de tocar que levariam ao cancelamento –, Jeremy Ellis, um dos elementos mais recentes a entrar nos Roots, assumiu a dianteira e, sozinho, aqueceu o público para a entrada do resto da “big band”, que se dividiu por instrumentos como bateria, baixo, guitarra, tuba, saxofone, trompete, teclas e, claro, a mais variada maquinaria para disparar todo o tipo de sons e beats.

“The Next Movement”, do disco Things Fall Apart, que este ano celebrou o seu 20º aniversário, foi o primeiro estoiro, mas o melhor viria a seguir: uma aula prática de história da música negra com especial destaque para o hip hop. De Main Source a Tribe Called Quest, passando por Pharcyde, Lil Wayne, Mobb Deep, Outkast, Gang Starr e Jay-Z, a matéria foi dada por quem sabe, e com versões eximiamente executadas pelas lendas vivas que se mudaram para o Hipódromo Manuel Possolo, em Cascais, durante uma noite. Um luxo.

Os Roots são tão hip hop que se transformaram basicamente na personificação de um sampler. Metem-se lá elementos de soul, r&b, jazz ou rock, não interessa, o que importa é que funcione (e que tenha groove). E se a revisão do passado é obrigatória, não se enganem: “Old Town Road” mereceu a atenção da super-banda, e isso vale o que vale, mas não deixa de ser curioso que um “meme” rapper tenha conquistado este destaque de um projecto que tem mais anos de carreira do que Lil Nas X de vida. Andávamos a ouvir um futuro clássico e ainda não sabíamos…

Apesar de todos os elementos da banda serem virtuosos da cabeça aos pés, sem excepções — os solos deram espaço para que se percebesse isso –, uma palavra de apreço para o frontman, um monstro de palco que encerra em si uma complexa herança de vocalistas, mais concretamente James Brown, Stevie Wonder ou Curtis Mayfield, misturando essas referências com uma mestria absolutamente assombrosa na arte de “cuspir”. Enquanto a banda segurava o ritmo, não foi raro vê-lo a rimar nonstop como se a sua própria vida dependesse disso, confundido-nos depois com a facilidade de quem o faz como quem respira. Se falarmos de quem merece o estatuto de G.O.A.T., o nome de Black Thought é obrigatório na lista final, encerrando em si todas as qualidades necessárias para o distinguir dos demais — e é difícil encontrar alguém com esta longevidade a “rappar” como ele.

Pediu-se “power to the people” com o punho erguido, evocou-se o “soul power” e, entre outros temas, ouviram-se clássicos como “You Got Me” ou “The Seed (2.0)” que, parecendo estranho ou não, foram tão ovacionados como qualquer outra proeza que se viu durante a actuação. Neste caso, as músicas são apenas o barro nas mãos destes “oleiros” — não interessa para onde elas vão, mas sim o que podemos retirar dessas interacções entre as versões originais das canções e os novos arranjos que Questlove e companhia arquitectaram para trazer algum espírito de improviso.