Crónicas de um HipHopcondríaco #23: Obrigado, Universo

[TEXTO] Manuel Rodrigues [ILUSTRAÇÃO] Riça

Como boa parte dos amantes da cultura hip hop, também eu tentei no passado a minha sorte na vertente artística, mais precisamente no campo das rimas e produção. Mas desenganem-se aqueles que, no seguimento destas palavras, imaginam que eu tenha gozado uma carreira de edições discográficas ou algo semelhante. Nada disso. Gravei uma mão cheia de músicas, produzi uns quantos instrumentais, pouco mais. O material que saiu dos discos rígidos do meu computador e das memórias das minhas máquinas ficou quase sempre limitado a um fechado círculo de amigos e conhecidos.

Lembro-me do primeiro dia como se fosse ontem. É como o primeiro beijo, nunca se esquece. Compilei meia dúzia de instrumentais mal amanhados no eJay (programa que já trazia uma séria lista de loops previamente construídos, sendo, por isso, de fácil uso) e rimei sobre eles com recurso a um microfone ranhoso da Logitech que transformava o som da minha voz em áudio praticamente irreconhecível – ainda hoje em dia, quando oiço os temas (se é que lhe podemos chamar assim), não consigo decifrar metade das frases.

Seguiram-se o Sony Acid Loops e o Cool Edit Pro, programas que já me deixavam samplar áudio e construir os meus próprios loops. Tornei-me num verdadeiro arqueólogo musical. Corri lojas de discos em segunda mão e virei a colecção de álbuns de vinil e CDs da minha família às avessas em busca de material para ser injectado nas pistas destes softwares e submetido a um impiedoso processo de corte e costura – adorava a ferramenta time stretching que me permitia mexer na velocidade e na duração dos excertos áudio sem alterar o pitch da música. Depois do Acid Loops e do Cool Edit veio o Fruity Loops (o eterno desdenhado que marcou e continua a marcar a esfera produtiva), o Reason (mega exploração de máquinas), o Nuendo (onde me instalei mais tempo), o Pro Tools (o clássico), o Logic Pro (saudades…) e o Ableton Live (no qual ainda dei uns toques antes de pendurar definitivamente as botas).

Apesar de ter depositado versos em algumas músicas, como referido no início do texto, foi na produção musical que mais tempo e energias investi. Era algo que me dava realmente muita pica e que despertava em mim uma imensa curiosidade. Antes de me inscrever na ETIC, no Curso Geral de Som, que viria a pavimentar a minha estrada no mundo do áudio, tive a oportunidade de comprar uma Boss DR-3, caixa de ritmos à qual não cheguei a dar grande utilidade, não só por não me identificar com os kits de bateria que trazia embutidos, demasiado realísticos para o que eu procurava na altura, mas também por não me permitir alterá-los a meu bel prazer: tratava-se de um circuito fechado e nada flexível. Foi uma má compra.

O mesmo não aconteceu com a Roland SP-606, sampler que comprei mais ou menos na mesma altura. Apesar de hoje em dia lhe reconhecer um enorme leque de limitações, da qualidade dos pads à escassa memória e aos próprios menus, esta foi uma máquina que explorei à exaustão. Não descansei enquanto não a tive na ponta dos dedos. Recordo-me de duas features que eu adorava particularmente: o D-Beam, um feixe luminoso que, através do afastamento e aproximação da mão, controlava sintetizadores, filtros e ainda servia de trigger para a máquina, ideal para jam sessions e lives, e o botão mastering, perfeito para, depois de ter a batida toda construída e sequenciada, rematar tudo com um possante conjunto de ferramentas de masterização. Adorava a máquina. Infelizmente, vendi-a no preciso momento em que me afastei por completo do mundo da produção.

Há coisa de semanas, antes de ir para o NOS Primavera Sound, tive oportunidade de pedir uma MPC Live emprestada a um amigo. O intuito era só um: experimentar a máquina e, caso me desse bem com ela, juntar dinheiro para a comprar – como forma de alimentar o bichinho da produção que já há algum tempo se vem manifestando. Ainda a liguei uma mão cheia de vezes antes de rumar a norte, mas confesso que cheguei ao Parque da Cidade sem certezas: faltava-me um ou outro test drive para chegar à decisão final. E o melhor é quem nem precisei regressar a Lisboa para isso acontecer. Bastou-me, na verdade, assistir ao concerto de Erykah Badu e ouvir o tema “On & On”, cuja a capella samplei por altura da minha velhinha SP-606. A vontade de comprar uma MPC Live apoderou-se imediatamente de mim. Pensei que se há anos conseguia atingir os meus objectivos com uma máquina que tinha as suas francas limitações, também conseguiria hoje alcançar os mesmos resultados à boleia de um aparelho de funções quase ilimitadas, sobre o qual escrevi na minha Casa das Máquinas. Tomei a decisão ali, na plateia do Primavera Sound.

E qual não é o meu espanto quando chego a Lisboa e recebo uma chamada desse meu amigo a dizer-me que queria desfazer-se da máquina que me emprestara há dias e que tudo dependia da minha vontade de ficar ou não com ela (por um preço também ele muito amigável)? O desfecho desta história é de fácil previsão. O universo não funciona de forma maravilhosa? Eu cá acho que sim.


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