Crónicas de um HipHopcondríaco #16: Excelência elevada ao quadrado

[TEXTO] Manuel Rodrigues [ILUSTRAÇÃO] Riça

Perdi a conta das vezes que vi Dealema ao vivo. E de tantas terem sido, perdi a contas das vezes que escrevi sobre eles.

Não me recordo ao certo da primeira vez em que vi o quinteto portuense em acção, por mais que tente obrigar a minha mente a tal. Terá sido certamente no Algarve, região onde vivi grande parte da minha adolescência e onde, claro, tive as minhas primeiríssimas experiências relacionadas com o mundo do hip hop. Sendo o território mais a sul de Portugal continental, longe de Lisboa e ainda mais longe do Porto, é normal que qualquer concerto dentro do género fosse motivo mais do que suficiente para sair de casa e rumar em direcção ao espaço escolhido, qual peregrinação alimentada por uma fé inquestionável.

Talvez a estreia com os Dealema tenha acontecido numa daquelas loucas e regadas Semanas Académicas de Faro, onde tive oportunidade de ver também Sam The Kid e os tão saudosos Da Weasel. Ou talvez na de Loulé, por onde passaram tantos projectos ligados ao hip hop. Talvez na Associação Cultural e Recreativa de Faro, espaço mítico da capital algarvia que já albergou um imensurável número de concertos, entre eles um de Chullage que eu recordo como se tivesse acontecido ontem. Talvez no Bafo de Baco em Loulé ou até no Satori, o velho casarão localizado no meio do nada, onde Lúcifer reencontrou as suas botas e se estabeleceu definitivamente – o local, anteriormente abordado nas minhas crónicas, foi durante muitos anos (e talvez ainda o seja) palco de várias actuações de bandas ligadas ao lado mais obscuro do metal. Não me lembro, muito sinceramente.

O que eu mais apreciava e aprecio num concerto dos Dealema é a forma como os protagonistas se conjugam em cena. Mundo, o sábio, altamente assertivo e com uma domínio da linguagem gestual fora do normal, capaz de colocar uma plateia de olhos fixos na sua expressão corporal. Fuse, o enigmático, outrora mestre da escuridão mas ainda dono de um vocabulário que se liga pontualmente às trevas e aos códigos do pentagrama. Expeão, o mais espontâneo e frontal, capaz de nos estabelecer uma ligação directa com a realidade, por mais que nos custe aceitá-la. Maze, o sereno, mestre da meditação capaz de transportar o nosso espírito para espaços nunca antes habitados. Por fim, Guze, o comandante, guardião da cabine que contém os comandos necessários e imprescindíveis para a missão dealemática. Testemunhei este cruzamento de personalidades durante anos, por vezes de bloco de notas na mão, outras vezes de mãos a abanar, sem qualquer compromisso jornalístico.

Quando me mudei para Lisboa, em 2005, o ritual de peregrinação acompanhou-me. A bagagem do colectivo foi-se renovando com os anos – V Império (2008) e A Grande Tribulação (2011) somaram-se a Dealema (2003) e ao clássico Expresso do Submundo (1996) na discografia – e tive igualmente oportunidade de testemunhar as várias investidas a solo das partes integrantes. Foi então que me deparei com um factor importante, que fora, aliás, abordado por Nuno Galopim numa entrevista que guiei aquando da recolha de material para um artigo que escrevi sobre os Da Weasel há uma mão cheia de anos. Tal como acontece com os ex-integrantes da doninha, também o todo dos Dealema é maior que a simples soma de todas as suas partes. E a verdade é que por mais coesos e competentes que sejam as actuações a solo de Mundo, Fuse, Maze e Expeão, a soma dos vectores não se aproxima da energia libertada do embate em palco de todos os elementos.

Presenciei muitas dessas colisões na área de Lisboa e arredores. TMN Ao Vivo, O Sol da Caparica e Festa do Avante são apenas alguns dos exemplos mais imediatos, todos eles milimetricamente executados e com plateias exemplares na recepção aos anfitriões. Certo dia, por altura da edição de Alvorada da Alma (2013), o último trabalho de estúdio, decidi fazer algo que nunca havia feito até então: ir ao Porto ver Dealema no seu habitat natural, o tão acarinhado e tantas vezes mencionado Hard Club (antigamente situado em Vila Nova de Gaia mas agora com uma nova localização, no Mercado Ferreira Borges, Porto). Basicamente, quis responder a uma pergunta que já há muito me colocava: como seria ver Dealema ao vivo naquele que é o seu grande santuário?

A chegada ao local lançou uma pista imediata. Lotação esgotada, obrigando o colectivo a marcar uma matiné extra para o dia seguinte; público completamente extasiado, visivelmente focado no que estava prestes a acontecer. Algo que eu nunca presenciara nas localidades a sul do Douro. Pelo menos com tamanha intensidade e tão denunciada entrega. E não foi preciso esperar muito tempo para ver a ansiedade acumulada transformar-se em pura energia. Mal entrou em cena, o quinteto foi prontamente recebido por uma ovação de fazer tremer o espaço. O público agarrou-se ao alinhamento e não abandonou por um segundo que fosse as músicas apresentadas, algo de louvar, ainda para mais tratando-se de um disco ainda muito fresco. Houve braços no ar, acompanhamentos vocais rigorosos, vigor na celebração, tudo e mais um par de botas. E ali estava eu, que me julgava batido nos concertos de Dealema, a viver algo de novo, numa escala nunca antes medida. Ao abandonar o espaço, já depois do final do espectáculo, lembro-me de me ter cruzado com a extensa fila que se criou para a zona dos autógrafos e de ter pensado “que raio acabei eu de presenciar?”. Foi mesmo algo único, um caso em que a localização geográfica ditou em muito o que se passou.

Não é mito. Os espectáculos de Dealema no Hard Club são mesmo uma coisa do outro mundo.


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