Claustro estreia-se com Na Laziness o Mais Guru

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Diogo Mendes [ARTWORK] Nerve

Na Laziness o Mais Guru é o projecto de estreia de Claustro. ELÓI, MCF, Oseias, niumigi e RIP TUFO são os produtores que assinam os instrumentais do EP. A capa é da autoria de Nerve.

Foi há pouco mais de um ano que Claustro se sagrou vencedor do Desafio 16 Barras, uma competição organizada pelo Rimas e Batidas em parceria com a Sennheiser. Nessa altura, o rapper também direccionou a atenção para a crew que havia formado recentemente. A Vasconcelos Crew conta com artistas mais experientes como Haka ou MCF.

Depois de Haka dar o pontapé de saída com a Purga e Grumpy Moses, editados em 2016 e 2017, respectivamente, é Claustro quem assina a terceira edição de um artista a solo pela Vasconcelos Crew, que já se tinha apresentado enquanto colectivo através de um EP. Na Laziness o Mais Guru é uma compilação de ideias e letras que o rapper do Entroncamento acumulou no seu caderno, que agora ganharam outra vida nas batidas de MCF, Oseias, niumigi, RIP TUFO e ELÓI, o responsável por todo o processo de gravação do projecto, que foi depois enviado para a Sine Factory para ser misturada e masterizada por Michael “Mic” Ferreira.

 



Tens aqui um dos títulos mais curiosos que vi nos últimos tempos. O que é isto de estar Na Laziness e ser também o Mais Guru?

Bem, estar Na Laziness é viver uma vida de constante procrastinação sem saber efectivamente definir prioridades. Adiar decisões indefinidamente e evitar ao máximo resoluções para os problemas que vão surgindo com auto-desculpabilização barata. Ser-se preguiçoso e displicente, portanto. Ser o Mais Guru é chegar a um nível de conhecimento de causa tal que se torna possível dar a volta à preguiça. É aceitar e estar tão por dentro da essência de cada comportamento que se torna óbvia a chave da mudança. É mais fácil encarar e, pelo menos, a melhoria gradual intensifica-se.

Nestes oito temas vais desde o egotrip à introspecção, da clássica arte de esgrimir enquanto MC ao pensamento profundo que tanto caracteriza a essência de um poeta. Qual foi o teu conceito para este trabalho?

O conceito não foi projectado no início. A “Bipolarizado”, por exemplo, foi escrita quase toda há 7 anos. O que também aconteceu com mais uma ou outra rima de outros temas do EP, que na altura não sabia que iam fazer parte. Lá para 2014, mudei-me para uma casa (o 18C) em Coimbra onde conheci algumas pessoas que de certa forma me encorajaram a fazer algo mais sólido. E aí comecei a pensar seriamente em fazer uma mixtape com beats da net. Comprei um mic, uma Scarlett Solo e pus-me a escrever e a gravar. Pouco tempo depois ficou pronta. O título da mixtape já era o mesmo e veio de uma dica que tenho numa faixa com o Niumigi que está na net. Mas tinha deixado de estudar e começado a trabalhar muito recentemente e não tinha dinheiro para uma boa mistura e masterização.  Esta foi a altura que antecedeu a criação da Vasco. O Litos, o Johnny e o Moisés moravam em frente ao 18C, isto na Rua António Vasconcelos. O MCF era de outra zona, mas eles já o conheciam e consequentemente parava lá muito connosco no Quente Bar, outro spot icónico. Por intermédio do Moisés conheci o Mic da Sine. Nessa altura comecei a sentir que conseguia fazer mais com o que tinha gravado e reformulei a coisa. Procurei beatmakers e o conceito foi-se formando gradualmente nesse processo. Essa dualidade de “posturas” que referiste deu-se de forma natural, encaixando-se no conceito. Essa bipolaridade faz parte de ser-se lazy e descontente com esse desequilíbrio, pelo menos no meu caso.

Apostaste numa selecção de produtores bastante ecléctica. Que receita tinhas em mente para a sonoridade do teu projecto de estreia?

Nenhuma. Não procurei nenhuma coesão sonora para o EP no seu todo. Cada instrumental foi um ambiente que tentei explorar individualmente com as ferramentas que um rapper tem à disposição — flow e rimas — até se tornarem em temas. Cada um dos instrumentais que está lá foi porque me agradou para escrever ou porque me serviu para rimas previamente escritas noutros, que por uma ou outra razão se inviabilizaram. Trabalhei presencialmente com todos os produtores à excepção do Oseias, que apenas contactei tendo em vista a cedência do instrumental “Maus Hábitos”, que já era público numa compilação da Habitus Collective e que me agradou muito. O niumigi encontrei no Soundcloud e apaixonei-me pelo “Tnks 300” que depois se tornou “MauVinho”. Entrei em contacto com ele e numa das visitas a Portugal foi lá à Vasconcelos. O RIP TUFO é meu amigo de infância aqui do Entroncamento, já tive uma banda com ele no secundário e ele faz música há muito tempo. Sempre tive a par do que ele faz e foram-se encontrando “casamentos” aqui e ali. E o MCF é da Vasco, pronto. Também foi fácil criar com ele.

Destaca-se provavelmente o trabalho ao lado do ELÓI, o beatmaker com o qual tens desenvolvido uma parceria quase assumida já mesmo antes do EP, e que agora te volta a ajudar não só com batidas mas também com todo o processo de gravação. Como deste com ele? Já existe uma química “vossa” dentro do laboratório?

Dei com ele no Soundcloud. Agradou-me o tipo de produção dele. Uma identificação quase instantânea de loops com potencial. E quando entrei em contacto com ele, a prontidão e vontade de trabalhar que demonstrou não só me agradou como me motivou. Facilmente comecei a ir a Aveiro à casa dele e a gravar faixas que escrevia em Coimbra. Sim, penso que há uma química. Não tenho grande base de comparação porque nunca trabalhei tão profundamente com outros produtores mas o nosso método tem resultado. Dá-me na cabeça quando tem que dar e motiva-me quando tem que motivar. Agradeço-lhe muito tudo o que já fez por mim e pela minha música.

A parte gráfica também não foi deixada ao acaso e acaba por ajudar a confirmar a polivalência artística do Nerve. Como surgiu esta colaboração?

Primeiro que tudo sou um ouvinte e Nerve foi desde sempre uma grande influência. Sabia já há muito da componente visual do trabalho dele. Mas na realidade tentei, numa primeira fase, entre alguns amigos e conhecidos arranjar a pessoa certa, mas não foi fácil. Precisava de um designer e ilustrador para me fazer o projecto de raiz e queria preferencialmente que fizesse parte do movimento para haver uma melhor interpretação do projecto e das minhas intenções. E como sabes não há muitos que preencham estes requisitos, muito menos [que sejam] tão bons quanto ele, e aí a escolha foi quase óbvia. Entrei em contacto com ele, dei o meu input de forma opcional que, no caso, foi apenas a ideia de ter uma preguiça na capa, deixando sempre a questão ao critério dele. Ele acabou por pegar nessa ideia e a coisa deu-se assim.

 


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Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
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