Casa das Máquinas VII: Roland TR-909 – o segredo está nos pratos… e no bombo…

[TEXTO] Manuel Rodrigues [FOTO] Direitos Reservados

 

“Tentar discriminar todos aqueles que utilizaram uma 909 é uma tarefa que se pode tornar infindável: será muito difícil encontrar algum produtor de techno ou house que não tenha utilizado a dada altura da sua carreira um bombo de uma TR-909 (tenha sido ele retirado directamente da máquina ou samplado)”, assim é rematado um dos artigos que podemos encontrar na coleção “The Best… Top Ten Classic Drum Machines” da Attack Magazine. De facto, se a TR-808 desempenhou um papel importantíssimo no hip hop – facilmente comprovado pelos testemunhos presentes no documentário 808 –, a TR-909 encontrou em instrumentos como o bombo e o prato de choque importantes assinaturas para estilos como o techno e o house, tornando-se, assim, numa incontornável ferramenta para as pistas de dança.

 



Introduzida no mercado em 1984 pela marca japonesa Roland, a TR-909 teve como principal intuito responder ao (até à data) fracasso comercial da sua antecessora TR-808. A nível de formato e desempenho, bem como filosofia de funcionamento, ambas as máquinas são muito semelhantes, basta atentar no método de sequenciação. A grande diferença reside na própria sonoridade, principalmente na zona do prato de choque, crash e ride. Enquanto o conjunto de pratos da 808 é processado de modo analógico, os da 909 recorrem a uma das primordiais tecnologias de sampling, ou seja, são reais, como nos explica Atsushi Hoshiai, um dos membros da equipa da Roland, num dos vídeos promocionais da novíssima Aira (guardada para um episódio futuro).

“Quando começámos a planear a 909, queríamos tratar todos os sons de modo analógico”, recorda Hoshiai, “para o bombo e tarola não houve grande problema, conseguimos criar bons sons a partir de circuitos analógicos, porém, fomos incapazes de construir um bom conjunto de pratos, por mais que tenhamos tentado. Por isso, decidimos recorrer a samples digitais apenas para esses instrumentos”. Os pratos que nela podemos encontrar foram samplados a 6-bit e fazem-se acompanhar, à imagem das restantes peças, de controlo de volume, tom e, no caso do prato de choque, decay (tanto para a posição fechada como aberta). A mitificação do prato de choque não demorou. Em entrevista para o site The Ramson Note, o DJ e produtor Tom Middleton disse que caso fosse transportado para um bizarro futuro fascista em que só se pudesse fazer acompanhar da tarola ou do prato de choque, escolheria o segundo por este ser mais difícil de replicar. “Sei disso por experiência própria, pois tentei recriá-lo em estúdio. É muito mais fácil chegar à tarola”, acrescentou.

 



Também o bombo se tornou num dos instrumentos modelo da TR-909, pela sua imponência a nível de corpo e ataque (à semelhança da TR-808). “É a minha peça favorita”, revelou Richard Devine, veterano da IDM e sonoplasta de renome, numa entrevista à Red Bull Music Academy, “tem um ataque fixe, forte e rápido, para além de ser bastante versátil. Usei-o centenas de vezes”. No mesmo artigo, é possível ver Gabe Gursney, baterista no colectivo Factory Floor, ir ao encontro desta opinião. “Definitivamente, o bombo [da TR-909] tem mais tomates do que qualquer outro de bombo de qualquer outra máquina de ritmos que tenha ouvido. Alguns dos sons que encontrei noutras máquinas são agradáveis de tocar, mas nenhum deles dá tanto gozo. A TR-909 sempre oscilou muito bem entre o divertimento e a seriedade”.

Não foram apenas os instrumentos os principais impulsionadores do sucesso da TR-909 – esse que não foi imediato, ditando a descontinuação do produto um ano depois e limitando o mercado a 10000 exemplares. Para além da crepitação do prato de choque e da energia rompante do bombo, há uma característica que não pode passar incólume: a acentuação da batida (o primórdio daquilo que conhecemos hoje como humanização). Basicamente, o que esta função faz é acentuar certos pontos da sequência rítmica para que esta ganhe um carácter humano, como se fosse tocada por um baterista. Mas melhor do que explicar por palavras é entender e sentir como se processa. Num vídeo intitulado “House – Part 1 (A History of House Music / The TR-909)”, James Wiltshire, fundador da escola de música Point Blank e membro do colectivo Freemasons, explica e exemplifica a função de acentuação, para além de traçar a importância da Roland TR-909 no estilo musical. Vale a pena ver.

 



O fracasso da Roland TR-909 junto dos músicos (a aproximação à realidade de máquinas como a Linndrum e Oberheim DMX, que já usavam samples digitais de baterias reais, ditaram a preferência) levou a que várias unidades fossem vendidas em leilões e em segunda mão ao desbarato. Resultado? Foram parar às mãos de produtores de zonas desfavorecidas de cidades como Detroit e Chicago, um pouco à imagem do que aconteceu com a sua antecessora, impulsionando, desta feita, estilos como e techno e house, respectivamente. Ainda assim, nem toda gente conseguiu ter acesso a este aparelho. Muitos produtores tiveram que esperar até chegar a estúdio para conseguir trocar as baterias originais da sua música por umas oriundas da TR-909. Quando foi lançada, em 1984, uma TR-909 custava $1195; actualmente, este aparelho pode valer entre os $3000 e os $4500 em segunda mão.

Algumas músicas produzidas a partir de uma TR-909:

 


Jeff Mills – “The Bells

 


808 State – “Pacific State

 


Aphex Twin – “Heliosphan”

 


Daft Punk – “Revolution 909”

 


Joey Beltram – “Energy Flash”

 


Mr Fingers – “Can You Feel It”

 


Orbital – “Chime”

 


Plastikman – “Spastik”

 


John Tejada – “Stabilizer”

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