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Fotografia: Direitos Reservados

Casa das Máquinas IX: Fairlight CMI – um terramoto tecnológico

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Para além de terem sido editados na primeira metade da década de oitenta, que outra característica partilham temas como “Sledghehammer” de Peter Gabriel, “Relax” dos Frankie Goes To Hollywood, “Rocket”‘de Herbie Hancock e “Shout” dos Tears for Fears? A resposta é simples: todos eles tiveram na sua génese aquele que é considerado ser o primeiro sampler digital de sempre, o Fairlight CMI (CMI = Computer Music Instrument). É sobre ele que o episódio de hoje se debruça.

Os anos oitenta foram palco de uma importante revolução sónica, mais concretamente no campo do áudio digital, que mostrou ser tão impactante quanto a invenção do fonógrafo, por Thomas Alva Edison, em 1877. Nos primeiros tempos, o áudio digital não passava de um mero substituto de alta tecnologia para as fitas magnéticas, todavia, não demoraria muito até que este formato viesse a revolucionar a forma como as pessoas passaram a ouvir e a fazer música. Na crista dessa onda de mudança podemos encontrar o Fairlight CMI, um computador criado pelos australianos Peter Vogel e Kim Ryrie, tornado público em 1979, que viria a deixar uma importante marca no mundo da música.

Ao contrário do Chamberlin, um sampler analógico que se fazia valer de um conjunto de fitas magnéticas para gravar e reproduzir os sons pretendidos (consultar o episódio VIII desta caminhada pelo trilho das máquinas), o Fairlight CMI permitia armazenar as amostras de áudio numa memória interna, um pouco à imagem daquilo que podemos actualmente encontrar em máquinas como as MPCs e em softwares como o Kontakt. Apesar dos primeiros modelos serem bastante limitados a nível de memória interna, 16 kilobytes apenas, este sampler arrebatou a curiosidade de artistas como Thomas Dolby, Stevie Wonder e Peter Gabriel (há um vídeo que mostra o músico dos Genesis a partir a sua televisão, bem como outros objectos, com o intuito de gravar o som perfeito para depois trabalhar em estúdio).

 



Mas comecemos pelo início. Em meados da década de setenta, dois jovens entusiastas do mundo da electrónica, Peter Vogel e Kim Ryrie, decidiram criar a sua própria marca de sintetizadores digitais (Ryrie já desenvolvera anteriormente o seu primeiro sintetizador analógico, o ETI 4600, mas as limitações do aparelho levaram-no a procurar algo mais). Em 1975, nasce a Fairlight. Um ano depois, os dois colegas de escola ajudaram a desenvolver, em parceria com Tony Furse, consultor da Motorola, um sintetizador digital com microprocessadores de 8-bit, o Qasar M8, que acabou por se transformar, dada a sua deficiência a nível de sonoridade e transportabilidade, numa espécie de protótipo do Fairlight CMI.

Reduzir este “computador musical” a um mero sampler pode ser, numa primeira análise, algo injusto, visto combinar funções como sintetizador e sequenciador. Seria mais correto encaixá-lo na família das workstations. Não obstante, e apesar de tudo, foi no campo do corte e costura que o Fairlight CMI mais se destacou, permitindo aos músicos criarem e armazenarem as suas próprias orquestras em amostras de 8-bits a 16khz. O processo criativo em muito se assemelhava ao de um artista a pintar a sua tela. Primeiro, recolhia-se a matéria-prima, através de um microfone ligado ao cérebro da máquina (como um pintor que prepara a sua aguarela); depois criava-se a melodia desejada no teclado (a organização das cores da paleta); por fim, editava-se o material gravado através de uma caneta especial (o derradeiro retoque no quadro quase acabado).

 



Se analisarmos o funcionamento das recentemente divulgadas MPC X e MPC Live, que em muito se aproximam da filosofia de trabalho do Fairlight CMI (uma fonte sonora que entra dentro de uma máquina para ser manipulada através de um conjunto de teclas e de um ecrã “táctil”), é-nos possível concluir que a revolução impulsionada por Peter Vogel e Kim Ryrie foi bem maior do que aquilo que pensamos. Foi um verdadeiro terramoto tecnológico. As réplicas, essas, ainda hoje se fazem sentir.

 


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