Beiro e a colaboração com Pedra: “Sempre fui uma pessoa que gosta de se rodear por quem sinto que me estimula a ser ou fazer algo melhor”

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] AUTOBOY

IMAGINAOSOM é a nova entrada na discografia de Beiro, uma beat tape cozinhada a meias com Pedra no estúdio da Caixa Cartão Collective.

2019 é sinónimo de “ambição” no dicionário de André Dias, que se comprometeu a editar nada mais nada menos do que 10 projectos em nome próprio. Depois da estreia com Barbudisses, já na recta final de 2018, o produtor tem vindo a dedicar o presente ano a I.D.E.N.T.I.D.A.D.E., uma série de lançamentos que conheceu recentemente a sua sexta entrada.

Introspeção, DISSENSÃO, ECHOES FROM BOOMLAND, NINFO, TRIDI The Dark Circus e o mais recente IMAGINAOSOM são os projectos que ajudam a traçar o perfil de Beiro na óptica do músico autónomo, num ano em que já colaborou com Ângela Polícia no segundo álbum a solo do versátil artista minhoto.



Já te tinhas envolvido com o Pedra noutras ocasiões mas agora assumiram a dupla de forma mais séria no IMAGINAOSOM. Como foi produzir uma beat tape inteira a quatro mãos com uma pessoa que conheces tão bem musicalmente?

O Pedra é aquele meu amigo que está quase sempre sentado no sofá do estúdio de fones a compor ao meu lado. Trocamos impressões sobre as nossas composições já há uns anos, desde a altura das nossas bandas, e o facto de nos conhecermos tão bem musicalmente fez com que este processo fosse todo super descontraído e interessante ao mesmo tempo, pois é bastante fácil para nós entendermos o que o outro quer e com isto chegar facilmente a um consenso sobre o caminho a seguir.

Explica-me o processo de criação destes seis temas. Existiu alguma troca de impressões para delinear um caminho ou foi tudo um processo natural? Fecharam os instrumentais lado a lado ou a composição foi feita à distância?

Tirando o tema “Space Trap”, em que tivemos de a trabalhar à distância — o Pedra estava fora e mandou-me uma ideia que tinha tido — a tape foi literalmente construída a quatro mãos, lado a lado nos estúdios da Caixa Cartão Collective. Sabemos identificar o melhor das composições um do outro e com isto se acharmos por bem delegar essa mesma tarefa ao que estiver mais confortável nesse campo, não sendo isto uma regra, claro, o nosso objectivo é conseguirmos estar ambos ao mesmo nível em todos os aspectos. Estamos constantemente a mostrar um outro o que aprendemos.

Este é mais um capítulo da tua I.D.E.N.T.I.D.A.D.E., uma série de lançamentos que explora o teu cunho enquanto produtor. Dado ser uma narrativa bastante pessoal, porquê a escolha de dividir um destes projectos com outra pessoa?

A decisão veio mesmo por aí, sempre fui uma pessoa que gosta de se rodear por quem sinto que me estimula a ser ou fazer algo melhor, assim como sinto bastante necessidade de consumir diferentes vibes que provêm de diferentes vivências. Acredito que todo este “consumo” me melhora o sentido crítico enquanto artista e não só.

Estão aqui compiladas algumas das tuas faixas mais sombrias que temos ouvido, repletas de baixos sobrecarregados e ritmos acutilantes. Musicalmente, qual foi o conceito que quiseste atribuir a este IMAGINAOSOM?

O despejar dos medos é uma boa forma de definir o que é o conceito desta sonoridade. IMAGINAOSOM provêm de imaginarmos o que conseguiríamos compor após ultrapassar todos estes medos que, se não forem vencidos, acabam por se tornar barreiras.

Ficam a faltar-te quatro beat tapes para encerrar a saga I.D.E.N.T.I.D.A.D.E. até ao final do ano. O que se segue nas edições do Beiro para estes próximos meses?

Nas próximas vou tentar uma abordagem mais consciente no sentido em que passa sobre questões às quais eu me debato regularmente mas também vai trazer versatilidade em composições que nos levem para lá daquilo que é o hip hop e, em simultâneo, até ao final do ano, vão sair mais uns três singles com colaborações à parte deste projecto das beat tapes.


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira