Beiro lança a beat tape ECHOES FROM BOOMLAND

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Direitos Reservados

ECHOES FROM BOOMLAND é a mais recente beat tape de Beiro a integrar I.D.E.N.T.I.D.A.D.E., série que nos trará mais sete “frutos” até ao final deste ano e da qual já resultaram Intorspeção e DISSENSÃO.

Músico com escola no rock, André Dias arrancou com o projecto Beiro no ano passado, comprometendo-se a explorar os caminhos do beatmaking digital com uma orientação mais focada para o hip hop. Barbudisses, EP de estreia que editou no final do ano passado, levou-o a colaborar com SER, Kron Silva ou Ângela Polícia — com o último voltou a trabalhar recentemente em Apùtece-me!.

I.D.E.N.T.I.D.A.D.E. é uma saga com 10 beat tapes que pretende concluir até ao final de 2019 e da qual saíram Introspeção, DISSENSÃO e o mais recente ECHOES FROM BOOMLAND, um projecto conceptual criado durante a última edição do Boom Festival.



Lançaste duas beat tapes no espaço de pouco mais de um mês. Começa por falar-me na DISSENSÃO: o que viste neste conjunto de instrumentais que te fez compilá-los num só projecto?

Estas beat tapes são o início de um conjunto de 10 beat tapes que intitulei de I.D.E.N.T.I.D.A.D.E. e que irei lançar até ao final do ano, nas quais irei mostrar, uma a uma, pedaços da minha identidade, começando na Introspeção, seguido pela DISSENSÃO e pela ECHOES FROM BOOMLAND. A próxima chama-se Ninfo e já está na gaveta, pronta para sair nos próximos tempos.

DISSENSãO é discordância/divergência e quis retratá-la nesta beat tape com uma viagem de samples líricos e 808s groovados que, na primeira parte da tape, nos levam a ambientes mais psicadélicos e cinemáticos como na “Tempos de Pedra”, em que samplei Capitão Gancho, um projecto que tenho de rock, e na “Dissensão”, até que chegamos ao outro lado da tape, que é separado pelo skit “Mouco”, em que nos deparamos com ambientes com uma vibe mais latina e dançável como na “Campesitos del Trapé”, mas sempre com uma onda meia dark, quase como que um desconforto sempre presente, como podemos sentir na “Manipuladores de Informação”, na qual samplei pedaços de acapellas dos MCs com quem costumo trabalhar para criar a minha própria mensagem.

Depois tens também a ECHOES FROM BOOMLAND, um projecto conceptual criado durante o Boom Festival. Como foi produzir com um leque de equipamentos mais reduzidos e dentro de uma tenda?

Fui trabalhar para o Boom e sabia que ia ser um desafio em que ia precisar de ter o meu refúgio, assim sendo peguei no meu pad, portátil e fones e segui para a frente. Sabia que, como ia para a equipa de produção, na zona onde estávamos acampados tínhamos uma tenda grande que era a zona de alimentação/convívio e onde tínhamos acesso a tomadas. Era lá que produzia com o pad. Mas sim, muitas vezes, com o que restava da bateria do portátil, quando ia para a tenda, em vez de estar a ver uma série para aterrar, metia os fones e ia dando uns toques. Lembro-me que, ao mesmo tempo, estava a trabalhar também no tema “Mendigo”, do novo álbum de Ângela Polícia, e cheguei a pegar nisso umas noites enquanto estava lá. Quando regressei tinha um leque de beats compostos e fiz uma selecção de 4: “BoomTent8cion”, “BoomFlavour”, “BoomTrip” e “BoomWash”, mais as intros e skits, e pedi ao OKER para fazer a capa baseada na estátua Shaman, de Daniel Popper, que era uma das peças principais do festival. Gostei muito do resultado!

Sendo um festival com uma orientação vincada para o trance e electrónica de dança, de que forma é que as sonoridades que captaste te influenciaram na criação desse projecto?

Foi sem dúvida algo que me influenciou bastante, acho que abri muito os meus horizontes com o que ouvi lá, como com o que o pessoal da produção me foi metendo a ouvir ao longo do mês. Admiro bastante os produtores de trance, pois acho que, tecnicamente, têm características super apuradas e maneiras de chegar a sonoridades com truques próprios do género, que quis perceber como o faziam para tentar dar um pouco daquele sabor à minha estética.

Contaste ainda com a ajuda do Spencer Scott e do Pedra. De que forma o input deles ajudou a enriquecer o que já tinhas em mente para nos oferecer?

O Pedra é um produtor que faz parte da mobília da casa. Antes de produzirmos já tínhamos bandas juntos e tenho vindo a colaborar com ele para as beat tapes e outros projectos. Ele, além de trap, tem também uma vertente electrónica mais techno/trance, que sem dúvida foi um bom input para chegar a esta estética, além de que usei um som dele para o último skit da tape para transitar para o “BoomWash”, que é um dos temas mais dark da tape toda.

Já o Spencer é o oposto. Conheci-o lá — ele apareceu um dia na tal tenda de convívio a tocar native flute e didgeridoo quando eu estava a fazer um beat. Quando o ouvi a tocar pensei logo que o tinha de samplar, pelo som incrível que ele sacava da flauta. Então falei com ele sobre isso e gravei-o no momento com o meu telemóvel, que era o melhor recurso que tinha para fazer captação.


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
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