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Ilustração: Ângela Polícia

Está cá fora o segundo álbum do artista bracarense.

Ângela Polícia sobre Apùtece-me!: “É uma expansão do que tinha proposto anteriormente e também a vontade de voltar às minhas raízes”

Ilustração: Ângela Polícia

Ainda está quente: Apùtece-me!, o novo trabalho de Ângela Polícia, saiu ontem e junta colaboradores como Razat, Pesca, Cachupa Psicadélica ou Thiago Arit em 13 novas faixas.

Apesar dos dois anos que o separam de Pruridades, a criação de Apùtece-me! começa logo após a edição do álbum que apresentou Fernando Fernandes enquanto Ângela Polícia. Entre fazer beats, escrever canções e equacionar potenciais colaborações, o versátil artista minhoto foi aconselhado por Razat, eterno amigo e mentor que o acolheu na Crate Records, a abrandar e concentrar-se na promoção daquele que era o seu LP de estreia.

A espera abriu-lhe uma janela de oportunidade para trabalhar em Apùtece-me! numa residência artística, curada pelo gnration, que lhe permitiu regressar às composições que tinha acumuladas e dar-lhes uma nova roupagem com a ajuda de outros músicos, tornando estes novos 13 temas numa espécie de híbrido que junta produções electrónicas a instrumentos reais, aproximando todo o registo ao formato de banda.

O Rimas e Batidas esteve à conversa com Fernando Fernandes, que explicou todos os passos dados até chegar ao resultado final do seu segundo álbum a solo.



Dois anos depois do Pruridades, eis que chega um novo álbum de Ângela Polícia. Entre todos os projectos pelos quais te divides, em que momento é que surge este Apùtece-me!?

Comecei a trabalhar neste álbum logo a seguir ao Pruridades. Naquela altura não parava de fazer beats, de gravar e escrever. O Razat chegou a pedir-me para acalmar os cavalos porque tinha a promoção do Pruridades para fazer. Não descurando, obviamente, as minhas novas produções, mas para me dizer que tinha uma mensagem para espalhar e peixe fresco para vender. Assim o fiz. Continuei a produzir mas acalmei os ânimos para poder divulgar e tocar o meu primeiro álbum por essa estrada fora. Entretanto, continuei com os outros projectos paralelamente, mas como o Ângela sou eu, posso produzir e escrever em qualquer lado sem ter de depender de ninguém, e assim o fiz. Depois de um ano bem sucedido de promoção do meu álbum, surgiu o convite do gnration, espaço artístico-cultural em Braga, para fazer uma residência artística que culminaria com um concerto de apresentação do álbum. Aceitei e foi aí que comecei a reunir os beats e letras que tinha vindo a criar até então. O resultado está agora à vista, ou melhor, para ser ouvido.

No teu último registo, contaste com a ajuda do Razat no limar de todas as arestas, tendo ele sido uma figura central desse disco. Agora abres a porta a muitos mais artistas para colaborar contigo. Como se desenrolou todo este processo?

Com a morte do Baltazar, tive de me virar, não tive outro remédio. No início fiquei perdido porque perdi um irmão e, imerso na escuridão, esqueci-me das minhas aptidões. Depois de algum tempo à deriva e com a ajuda da família e amigos, voltei a olhar para mim e vi que tinha tudo o que era preciso: amigos, estúdio, capacidades, artistas e músicos disponíveis. Foi então que tomei a decisão de produzir o meu novo álbum. Pensei em subir um patamar e decidi dar uma roupagem nova aos meus beats e tornar este álbum num híbrido. Já sei o que é fazer beatssozinho no quarto e continuarei a fazê-lo, mas agora queria gente a tocar as minhas composições, que sempre foi um dos meus grandes sonhos. Então tomei a decisão de fazer um álbum que misturasse batidas com banda, queria uma nova roupagem. Sempre colaborei com vários artistas e tive agora a oportunidade de incluí-los no meu trabalho. Voltei a colaborar com o Razat, acrescentei um tema que tinha feito com o Pesca, o Beiro remixou um tema meu, o Cachupa Psicadélica fez uma visita surpresa ao meu estúdio, trabalhei à distância com o Thiago Arit, do Brasil, transformei alguns temas com os membros da banda, que nomeei de Força de Intervenção, composta por Rui Rodrigues, Emanuel Fernandes, André Pepe, Jorge de Carvalho, MOCA, Leonor Coutinho, Sara Maui e Suzanne Zwaap. Do outro mundo!

Para a produção contei com a ajuda preciosa de outro grande irmão, da vida e da música, Lucas Palmeira. Ele é um produtor musical magnífico, um grande artista e conto sempre com ele, a nível musical. Com ele aprendi a captar uma bateria, a trabalhar e melhorar arranjos, a misturar melhor e ainda saí com umas boas noções de masterização. Foi como voltar à escola mas com um prazer especial porque o trabalho é teu e não exigido pelo professor [risos].

Houve muita interacção em estúdio com muitos destes intervenientes ou a troca de ideias foi mais veiculada com a ajuda da Internet?

Os dois. A Internet serviu como forma de comunicação e quebra de barreiras geográficas. Os convites e envio dos temas foi pela net. Houve alguns que puderam vir ao meu estúdio e os que não puderam trabalhámos à distância. Houve muito trabalho e interacção dentro e fora do estúdio. Trabalhei com a maior parte dos músicos e artistas pessoalmente. Entre trocas de ideias, trabalhos de casa, arranjos, gravações e regravações, suámos muito ali dentro.

Se no Pruridades parecias apresentar-te com uma veia mais rock/punk bastante vincada, este novo LP soa mais tribal, procurando profundidade no dub e nos elementos que nasceram de toda a cultura soundsystem. Como se deu esta mudança de direcção?

Não acho que tenha havido uma mudança de direcção, mas antes uma expansão do que tinha proposto anteriormente e também a vontade de voltar às minhas raízes. Em relação à expansão musical, decidi gravar mais, fazer experiências fora da minha zona de conforto, colaborar com artistas, aprender mais sobre produção musical, escrever sobre assuntos diversos. Em relação às raízes, foi um regressar à infância. Aprendi a gostar de música por influência do meu pai, que é um angolano e africano orgulhoso. Ouvi muita música de Angola, de Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé, Brasil e um pouco de todo o mundo. Ele é jornalista de rádio e um grande difusor da língua portuguesa pelo mundo. Toda estas culturas que absorvi dele tive agora oportunidade de aplicá-las neste trabalho.

A mensagem que vociferas continua interventiva. Que batalha é esta que te propões a travar durante as 13 faixas do Apùtece-me!?

Decidi pintar o rosto e o espírito da Babilónia e a minha condição dentro dela neste álbum. A mensagem e o imaginário terão de ser vocês a decifrá-los.


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