Beiro estreia-se com o EP Barbudisses

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Direitos Reservados

Beiro lançou o EP de estreia no dia 11 de Novembro. Barbudisses é uma edição da Caixa Cartão Collective e tem Ângela Polícia, Kron Silva ou SER entre os convidados.

André Dias passou pela primeira vez pelo radar do Rimas e Batidas quando, a 21 de Outubro, foi um dos produtores convocados para o último projecto assinado por SER, tendo contribuído com um instrumental e com a captação de alguns dos temas presentes no EP.

Apesar de ter começado a praticar brakdance aos onze anos, as ligações musicais ao hip hop tardaram em sobressair, com o rock a ficar em primeiro plano durante vários anos, durante os quais dedicou algum do seu tempo aos The Crawlers — “foram o projecto que mais me fez crescer”, confessa. Na estrada cruzou-se com outro artista que, tal como ele, fez a transição do rock para o hip hop recentemente: Ângela Polícia pertence aos Bed Legs e tem também trilhado um percurso a solo na música urbana em Portugal, cujos passos têm sido seguidos de perto pelo ReB — é ele um dos convidados de maior destaque em Barbudisses, e divide o protagonismo com Beiro e SER no único videoclipe extraído do EP.

 



Para quem ainda não te conhece: quem é o Beiro?

BEIRO é o pseudónimo de André Dias. Desde os meus 12 anos que o pessoal me deu a alcunha de Beiras e daí, cada um deles, foi inventando uma variação, sendo que Beiro era uma delas e optei por utilizá-la enquanto artista. Aos 11 anos tive o meu primeiro contacto com o hip hop. Dancei breakdance durante uns anos e cresci a ouvir os nomes míticos, mas tive uma fase em que os gostos começaram a virar para outro rumo. Comecei a tocar guitarra e aos 15 anos comecei a minha primeira banda de rock, os The Crawlers, que sem dúvida foram o projecto que mais me fez crescer. Desde aí que fui ouvindo cada vez mais de tudo um pouco, cada vez de forma mais minuciosa enquanto compositor, e comecei a aprender a tocar diversas ondas. Tive sempre uma conexão com o mundo do hip hop, produtores e MCs. Um dos produtores do meu primeiro disco com Crawlers foi o Lazy, no Estúdio Cubo d’Ensaio. Ficámos amigos desde aí. Passava dias no estúdio com ele e fui acompanhando-o a produzir os próprios discos e de outro pessoal que lá gravava. Só comecei a compor digitalmente muito depois disto mas sem dúvida que já levava um bom input.

Este Barbudisses é o teu EP de estreia, estou certo? Que plano tiveste sempre em mente quando te comprometeste a produzir estas quatro faixas para as apresentares ao público?

A minha ideia com este projecto era fazer uma tape em que eu compusesse os beats, convidava os MCs que me fizessem sentido para entrar em cada vibe do disco e fazer a conexão do pessoal convidado. A maioria não se conhecia e ver que isso criou uma verdadeira connection entre todos nós foi para mim a grande vitória deste trabalho.

Vejo que o projecto é uma edição da Caixa Cartão Collective. Queres falar-me um pouco mais sobre quem pertence a este grupo e o que é que vos fez avançar com a ideia?

A Caixa Cartão Collective é um ponto importantíssimo no meio disto tudo. Este projecto que comecei só com o meu brotha de infância Francisco Fernandes, que entra no single “Não Estacionário” do SER. A ideia da CCC era começarmos a avançar com projectos para o nosso portefólio enquanto artistas audiovisuais, e com isto dar o nosso contributo a outros projectos que admirássemos. Começámos por fazer as “Sessões no Terraço”, que consistiam em convidar bandas para fazer live sessions no terraço do nosso primeiro spot, que era em casa do Francisco. Passados uns meses, conseguimos alugar o nosso primeiro spot e aí o colectivo começou a crescer, apareceu pessoal de motion graphics, ilustração, informática, sonoplastia, produção musical, fotografia e realização, sendo que o objectivo da CCC passou a ser o da evolução individual mas com o colectivo sempre presente no background. Ou seja, se um realizador precisar de um sonoplasta ou se um ilustrador precisar de motion graphics, têm a quem recorrer instantaneamente. Neste momento, a Caixa Cartão Collective tem como sede um estúdio no centro da Maia e outro em Ermesinde.

Já te tínhamos ouvido no EP do SER, com quem voltaste a colaborar no Barbudisses. É uma parceria “antiga”?

O SER foi das primeiras e maiores surpresas que apareceram na minha vida desde que comecei a produzir. Ele apareceu, supostamente, só para fazer um beat, por volta de Agosto do ano passado. Quando nos juntámos percebi que ele rimava. Começámos a trabalhar desde aí, sendo que a “Vejo” foi uma das primeiras músicas que fizemos juntos.

O tema no qual se voltaram a encontrar conta com a participação do Ângela Polícia e foi até editado no formato de vídeo. Que ideia foi esta que procuraram transmitir no “Vejo” e como é que surgiu o ÂP em cena para complementar o tema?

Eu conheci o Ângela no mundo do rock. A banda que eu tinha com o Miguel Pereira teve uma data com Bed Legs, que é um dos outros projectos dele. Quando comecei a produzir, lembrei-me logo que gostaria de fazer uma colaboração com ele. Entretanto surgiu a “Vejo” e senti que era a hipótese perfeita.

Também participam no EP o Kron Silva, West, Rilla e Miguel Pereira. Era fulcral para ti teres uma voz a acompanhar todos os teus instrumentais?

Sinceramente, não. Sou da opinião de que um instrumental pode levar-nos numa viagem e ao mesmo tempo transmitir-nos a mesma mensagem que uma faixa com voz, mas decidi a meio do processo assumir a coisa desta forma. Beattapes irão surgir.

Achei curiosa a escolha do sample da série “Casa de Papel”, que acabou por ficar como uma espécie de cover num tema com o mesmo título. Como é que se processou toda a fase criativa em torno dessa faixa?

Esta faixa surgiu porque eu e o Miguel andávamos colados na série e achámos que seria uma boa forma de homenagear o trabalho dos criadores da mesma. Conseguiram elevar muito a fasquia do mundo cinematográfico espanhol. A letra é metade da música original e, a outra metade, o Miguel interpretou após ver parte da série.

 


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
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