Às compras no Gaia Chopping: “O conceito foi tentar fazer g-funk à la West Coast

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Direitos Reservados

Lançado esta manhã, Gaia Chopping é um EP que junta David Bruno e Minus em dois temas originais à moda do g-funk. Logos, que aqui assina como Thug Lite, é o único convidado nos créditos.

Gaia Chopping foi ontem anunciado por David Bruno em jeito de aperitivo para um novo projecto a solo que se encontra a caminho para suceder a O Último Tango em Mafamude, editado no arranque de 2018. O artista gaiense voltou a unir esforços com Logos no quarto longa-duração de Conjunto Corona, em Outubro, regressando à pele de David Bruno, já em Maio deste ano, para lançar o videoclipe de “Mesa para dois no Carpa”, que deu por encerrado o ciclo do seu último disco a solo.

Hugo Oliveira é o homem do leme do projecto Minus & MRDolly, que em Gaia Chopping, tal como dB, assume não apenas o papel da criação dos beats como também das rimas, através do alter-ego Alferes M., presença habitual nos trabalhos editados pelo Conjunto Corona. Em Janeiro de 2017 editou o álbum Man With a Plan, que este ano foi “espremido” numa edição de material inédito que ficou fora do disco original.

À conversa com o Rimas e Batidas, David Bruno explicou o que podemos encontrar neste shopping tão particular:



Que homenagem é esta que decidiste fazer com o Minus ao Gaia Shopping?

Como dizia o slogan: “Gaiashopping: está tudo lá”. Aqui também está muita coisa: jogar dice, o clube de strip Life Club, a rotunda do Morango de Canidelo, g-funk, synths, baixos gordos…

Adaptaram o título do EP para Gaia Chopping. Qual é o conceito que esteve na base para a criação destes temas?

Dois produtores de Gaia, sampling, chopping… Assim nasce o trocadilho. O conceito foi tentar fazer g-funk à la West Coast, aqui em Vila Nova de Gaia, mais precisamente em Coimbrões — onde eu e o Minus moramos (somos vizinhos). Além disso somos os dois Gaienses.

Rotulaste o projecto com o termo g-funk, um género já pouco habitual nos dias que correm e de fraca repercussão no nosso país. Que influências tiveram para abordar esta linguagem em pleno ano de 2019?

Sempre fomos fãs de g-funk e sempre quisemos fazer algo nesta praia. Já fiz muitos DJ sets apenas com g-funk, por exemplo. É simples, é genuíno e acima de tudo acho que é compatível com o lifestyle aqui de Vila Nova de Gaia. Na altura. o Minus morava com o Logos (que também entra neste EP) na Rua Alferes Malheiro, no Porto, e costumávamos organizar DJ sets em casa deles. Numa dessas noites, lembro-me bem, o Minus apareceu na sala de robe, óculos de sol e montado na sua bicicleta. Ao cruzar a sala de bike, já não sei quem, sugeriu que aquela persona se chamasse Alferes M.. Assim foi. Primeiro fez um feat num álbum de Corona e mais tarde surgiu a ideia de experimentarmos fazer algo na praia do g-funk, juntando dois gaienses: Eu, como 4400 OG, e ele, como Alferes M.. Assim foi. Depois convidámos o Logos, que criou o alter ego Thug Lite — um gangsta, mas ligeiro.

Gaia Chopping remete-nos para o corte e costura de samples, mas o g-funk tem, por norma, muitos adornos de teclados e sintetizadores. De que forma é que foi cozinhado este EP?

Fizémos um conjunto de bases instrumentais, depois as rimas, e só depois de tudo os arranjos de synths, que foram feitos pelo Minus — que como se sabe é um produtor e um brilhante músico, mestre nas teclas. As músicas ficaram feitas e guardadas e entretanto fomos lançando muitos projectos — O Último Tango em Mafamude, Santa Rita Lifestyle, Man With a Plan. Até que um dia destes chegámos à conclusão que (felizmente) teremos sempre projectos a sair, então seria inútil continuar a deixar este projecto na gaveta e, sem grande preparação, pegámos nos dois temas que mais nos enchiam as medidas e lançámos este pequeno EP. Duas músicas e dois instrumentais — afinal de contas somos, acima de tudo, produtores e gostamos de partilhar instrumentais. Mais instrumentais e sons ficaram na gaveta, quem sabe no futuro pegamos neles outra vez.

Em que altura é que tu e o Minus começaram a trabalhar juntos neste projecto? Foi feito a quatro mãos em estúdio ou trocaram a maior parte das ideias pela Internet?

Tudo começou para aí em 2017, logo após ter saído o Cimo de Vila Velvet Cantina de Corona. Como já tinha referido, agora somos vizinhos (em Gaia). Usamos a Internet, mas os nossos estúdios estão separados por uma parede: é só bater à porta.

Deixaste também no ar a ideia de que está para chegar um novo projecto de David Bruno. Já lhe deste um título? Podemos assumir que seguirá a mesma linhagem d’O Último Tango em Mafamude ou arriscaste em reformular o conceito base desse disco?

Isso são contas de outro rosário, mas, adivinhem lá? Sim, é sobre Gaia outra vez. Mas desta vez há todo um enredo que mistura realidade e ficção, envolvendo um grande fenómeno que tem surgido em Vila Nova de Gaia nos últimos tempos… E desta vez vou contar com a ajuda de muitos convidados de peso.


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira