ANIMA: o ciclo de sono de Thom Yorke e Paul Thomas Anderson

[TEXTO] Beatriz Negreiros [FOTO] Direitos Reservados

Nos anos vinte do século passado, o revolucionário psiquiatra suíço Carl Jung escreveu sobre o conceito anima pela primeira vez: termo próprio da psicologia que se referia ao estado inconsciente mas real da feminilidade que habita parte da constituição do homem, em oposição ao animus, que representa exactamente o contrário. Quase 100 anos depois, Thom Yorke, um nome que dispensa apresentações e que esta semana actua no NOS Alive, abre a caixa de pandora em dois para criar, em parelha com o realizador norte-americano Paul Thomas Anderson, um som e uma imagem que existem dentro da mesma obsessão pelo inconsciente, o sonho e a psique que inebria o início trémulo da exploração da interminável mente humana através da lente do sono. 

ANIMA é, assim, o título de baptismo do quarto álbum a solo do líder faz-tudo dos Radiohead, grupo que, parecendo que não, se estreou nos discos noutra vida (com o querido mas datado Pablo Honey, de 1993, que daria ao grande público poucas pistas em relação à transformação que os fantásticos cinco de Oxford viriam a sofrer ao virar do século). Entretanto, a banda que começou a querer transformar birras adolescentes em hinos de guitarra metamorfoseou-se numa mescla meditativa de experiências sonoras que fundaram um género só seu. A mão esticada em direcção ao rapaz inexperiente que era na altura Thom Yorke, que só devia querer ter a sua banda de rock, foi a de um homem cujo nome regressará a este texto não tarda: Nigel Godrich, reservado produtor britânico que transformou OK Computer num álbum que contornou de imediato a possibilidade de se ver datado, temperando-o com um trato que o tornou um disco muito para lá de apenas mais um projecto de voz, guitarra, bateria e baixo. Kid A foi a banda sonora que divorciou Radiohead da clausura fatal da banda de  indie rock, que, quiçá, seria pouco depois engolida por outros gigantes de riffs e refrões mais poderosos: Thom Yorke e companhia afundaram-se num oceano de discrição elegante de glitch e sintetizadores, e a sua banda de rock transformou-se para sempre num projecto de qualquer coisa que se colou para sempre na memória dos críticos e dos fãs, tanto dos que odeiam como os que amam. A âncora que os arrastou para um subsolo de novas possibilidades de exprimir som? Nigel Godrich, tal como se tinha avisado.

Em 2019, Thom Yorke reencontra-se com Godrich, como sempre fez desde que começou a aventurar-se para fora da redoma da sua banda, uma das maiores e mais influentes deste século e do anterior (feito complicado para muitos). Do casamento ininterrupto resultaram já três discos assinados pelo próprio — estreando-se com The Eraser, em 2006 — e AMOK, de Atoms for Peace, a versão actualizada de um super-grupo que juntou Yorke, Godrich e Flea no mesmo estúdio e palco, em 2013. Desta vez, nasce ANIMA, a 27 de Junho, ele próprio um ensaio no qual Yorke se desdobra, se confunde e se encontra sob a alçada do sono, dos sonhos, do real e do imaginário, do medo e do descanso. 

É impossível separar ANIMA, o álbum de Thom Yorke, do seu simultâneo filho e pai, a curta-metragem de 15 minutos lançada a seu lado para a Netflix e algumas salas de cinema, dirigida pelo ilustre Paul Thomas Anderson (ele que já apontou a câmara a Yorke noutras ocasiões, talvez mais notoriamente no caso de “Daydreaming”, single retirado do último álbum de Yorke em companhia de Radiohead, A Moon Shaped Pool, de 2016). E é importante frisar que ANIMA, o filme, não se trata de ANIMA, o videoclipe. A atmosfera fria capturada pela lente experiente do homem que fez acontecer Magnólia, Haverá Sangue e O Mentor contagia como uma doença incurável a música de ANIMA, o álbum, fazendo “Not The News”, “Traffic” e “Dawn Chorus” respirar, ou sufocar, sob o peso dos visuais. O adormecer difícil sob a luz trémula da iluminação dos transportes públicos transforma-se numa sequência enervante de coreografia frenética de corpos simultaneamente “zumbificados” e eléctricos, maravilhosamente filmada por Paul Thomas Anderson numa violenta sobreposição de pretos e brancos e incrivelmente inventada por Damien Jalet (que já trabalhou entre Yorke e outro realizador, Luca Guadagnino, para a reimaginação do clássico de Dario Argento, Suspiria, musicado pelo vocalista dos Radiohead no ano passado). O encontro de Yorke com a expressão corporal também não é novo: a sua dança de espasmos ao som de “Lotus Flower”, desenvergonhada em toda a sua expansividade, já fascina os internautas desde o lançamento do vídeo do single retirado de álbum de 2011 dos Radiohead, King of Limbs. 



É na dança que Yorke encontra Dajana Roncione, a sua parceira na vida real, e assistimos a um vislumbre de luz que pinta a sua expressão permanentemente exausta com um sorriso que dificilmente imaginamos na boca de quem dá voz a uma das bandas mais melancólicas dos últimos 25 anos. Os seus movimentos, anteriormente desenfreados, num atrofio de inseto desconcertante, entre outros corpos loucos, atenuam-se numa poesia parada, e ANIMA desarma o espectador ao som das comoventes palavras perdidas de “Dawn Chorus”, que fecha a curta-metragem num plano negro.

ANIMA, o álbum, expande a ansiedade prevalente em ANIMA, o filme, em mais seis temas nos quais Yorke mergulha no seu familiar e desconfortável mundo de desconfiança perante o mundo cinzento que o rodeia, infestado de um medo meditativo do homem, da tecnologia, e do seu infeliz encontro- em “The Axe”, canta: “goddamned machiner / why don’t you speak to me? / one day I am gonna take an axe to you”. Os dias de OK Computer, afinal, não estão assim tão longe como parecem. Mas o humor de quem nasceu e cresceu na cínica Inglaterra pontua as preocupações com uma pincelada de sarcasmo saudável, como no enérgico single “Not The News” – “cue sliding violins in sympathy. Ao fim de mais de duas décadas de paranóia, Yorke sabe como não cair no ridículo de uma paródia de si mesmo. 

Em entrevista a Zane Lowe, ouvimos um Yorke que parece reemergir de cada ciclo de álbuns mais consciente das suas fragilidades e capacidades não só enquanto líder de banda como líder do seu próprio projecto, que ganha contornos monstruosos cada vez mais realistas a cada lançamento, não só se redobrou num entusiasmo adolescente pelo mundo da psicologia do sono como exaltou a importância de dormir enquanto ato de processamento da sociedade e do nosso lugar nela. ANIMA é o resultado do exorcismo de Yorke às suas ansiedades de pesadelo, reemergindo numa claridade de noite bem dormida. A desconcertante “Traffic” transforma-se no nervosismo latente nos acordes pontiagudos de “Last I Heard (… He Was Circling the Drain)”, na sedução de “I Am a Very Rude Person” — um recordar do som de algodão de In Rainbows — não é a única referência ao passado de Yorke, visto que “Impossible Knots” recruta o baterista de Radiohead Phil Selway para acompanhar o gorduroso baixo no seu ritmo de colibri inconfundível. ANIMA fecha o ciclo de sono com “Runwayaway”, o tema mais “radioheadesco” do disco, graças à linha de guitarra aérea que lhe dá início.

E assim se dorme, dia após dia, noite após noite, mais ou menos, bem ou mal, numa mente anestesiada no qual o nervosismo e a tranquilidade coabitam com tanta naturalidade como o feminino e o masculino, tal como previra Jung há cem anos.


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