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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 29/05/2026

Na última sexta-feira de cada mês, Miguel Santos escreve sobre artistas emergentes que têm tudo para tomar conta do mundo da música.

Abram alas para… Genesis Owusu

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 29/05/2026

Há 84 anos atrás, Albert Camus apresentava ao mundo O Mito de Sísifo. Neste ensaio literário, Camus expõe a filosofia do absurdo, equiparando a existência humana ao castigo de Sísifo, personagem da mitologia grega condenada a empurrar eternamente um pedregulho por uma colina acima que rebola até ao sopé antes de chegar ao topo. O ensaio não será estranho a Kofi Owusu-Ansah, músico ganês-australiano que faz referência a esta obra na sua música “ONE4ALL”, o tema que encerra o seu mais recente álbum. Mas o músico que assina como Genesis Owusu não precisa de referir as palavras de outros para que as suas brilhem: a sua escrita acertada fala por si própria.

A história musical deste artista começou em 2015, com uma feature numa música do seu irmão Kojo Owusu-Ansah, rapper que assina como Citizen Kay. Os dois rapazes editaram o EP Polaroid em 2015, como Ansah Brothers, o único lançamento do duo até à data. Inspirado pela recepção favorável aos seus primeiros passos musicais, Genesis Owusu volta dois anos depois com a estreia em nome próprio. O EP Cardrive, é uma viagem de carro e uma viagem ao centro do condutor, palavras confessionais de um jovem que é franco com o mundo e consigo próprio, acompanhadas por beats que aterram algures entre o jazz e o hip hop, como no caso de “Drive Slow”, ou graves rimbombantes e pratos estilhaçados, como no caso de “Void”. Seja qual for a abordagem, Owusu esconde eficazmente a sua juventude, apresentando um conjunto de músicas com uma maturidade incomum para alguém de 19 anos.

Quatro anos e uma pandemia depois, estreia-se em longa duração. O que faz com que Smiling with No Teeth se destaque de outros lançamentos é a singularidade da voz e da escrita de Genesis Owusu. A sua entrega emprega alguma teatralidade aliada a uma poesia apurada, e a facilidade com que se adapta a diferentes ambientes sonoros é prova clara da versatilidade vocal deste artista, às vezes até na mesma música como em “The Other Black Dog”. Em “Don’t Need You”, afasta a tristeza sob um instrumental de agridoce optimismo, reticente mas simultaneamente determinado na sua escapatória das garras da depressão. É difícil caracterizar a música de Owusu, dispara em muitas direcções. A sua génese é o hip hop, mas ao longo do percurso o artista foi somando géneros como o funk, rock, música electrónica e a abrasão e rebeldia características do punk. É uma complicada e por vezes inescrutável tapeçaria sonora, cujo fio condutor é a voz camaleónica do seu autor.



Na sequela Struggler, aposta um projecto mais compacto mas com a mesma identidade. Em refrões de temas como “The Roach” ou “Tied Up!” escuta-se o ouvido que Owusu tem para hooks apelativos e ao longo de todo o projecto mostra-nos que não é uma distracção para mascarar pobreza literária. As suas letras não desapontam, incorpora um personagem combatente que dá título ao álbum, percorrendo de forma errante um mundo absurdo, auxiliado pelo seu instinto de sobrevivência. É um passo mais pessimista na carreira de Genesis Owusu em que não descura a produção musical, mantendo-se resoluto e totalmente focado na sua arte. 

E o que se há-de seguir para o homem que vive num mundo absurdo? Segundo Camus e Owusu, o que se segue é a revolta. REDSTAR WU & THE WORLDWIDE SCOURGE foi prenunciado por um estrondo sob a forma de música chamado “PIRATE RADIO”. É um ataque venenoso e certeiro ao capitalismo, com um bombo a soar fragmentado, difícil de prever, a simular a confusão digital em que muitos definham e se tornam dormentes aos ataques fundamentais aos seus direitos. O álbum alterna essencialmente entre dois tópicos: um apelo à união através de temas como “BLESSED ARE THE MEEK” ou “SITUATIONS”, uma bela demonstração de empatia em forma de música com uma brisa a soprar na guitarra de notas agudas, uma canção que aspira a recrutar almas para a “coalition of the ones from the mud”. E alterna em momentos em que o foco é no bem maior e em desmantelar os grandes interesses económicos que nos corroem e nos empurram uns contra os outros, claramente evidenciado na abrasiva “STAMPEDE”, munida de um refrão que nos incita a agir e a perceber que seja de que lado estamos, a grande maioria está toda no mesmo barco.

Em “THE WORLDWIDE SCOURGE”, Owusu reflecte sobre a sociedade actual e a necessidade de se continuar a puxar para a frente, um dos claros destaques do álbum cuspido a um só fôlego pautado por um refrão de engrandecimento. Sentimos frustração mas também a resiliência de alguém que não está disposto a desistir dos seus conterrâneos. Há uma grande animosidade em relação às injustiças do mundo e aos principais responsáveis por ela, mas não são encaradas de braços cruzados. REDSTAR WU & THE WORLDWIDE SCOURGE é um regresso de ímpeto renovado, de alguém cada vez mais empenhado em remar na direcção certa. E está assim concluída a transformação de Genesis Owusu: este Sísifo tornado músico encontrou a colina que irá subir para a eternidade. E quem escala por gosto não se cansa, por mais absurda que possa parecer a subida.


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