A Winged Victory for the Sullen sempre existiram numa zona liminar difícil de cartografar. Demasiado composicionais para o circuito ambient mais ortodoxo, demasiado abstractos para a linguagem neoclássica que tantas vezes lhes é colada (com alguma preguiça…), Adam Wiltzie e Dustin O’Halloran construíram, ao longo de pouco mais de uma década, um corpo de trabalho onde a monumentalidade nunca depende do excesso, e onde a emoção raramente se anuncia e antes se infiltra. Entre piano, drones, cordas e electrónica atmosférica, os seus discos habitam um território onde a música parece querer inventar o seu próprio espaço ou pelo menos transformar o que possa já existir.
Desde a estreia homónima de 2011 até Atomos, que foi lançado três anos depois, passando por The Undivided Five, de 2019, e pela extraordinária banda sonora de Invisible Cities, o registo mais recente, mas que data já de 2021, o duo norte-americano tem mantido uma presença discreta mas singular, feita de aparições cirurgicamente espaçadas e de uma recusa saudável em transformar o projecto numa máquina de repetição. Talvez por isso cada regresso se imponha como um verdadeiro acontecimento.
Os concertos que agora finalmente chegam a Portugal — a 29 de Maio, na Culturgest, em Lisboa, e a 31 de Maio, no Theatro Circo, em Braga — deveriam ter acontecido em 2020. O mundo, entretanto, interpôs-se. Cinco anos depois, a promessa cumpre-se enfim. À distância de dias dessas apresentações, falámos com Adam Wiltzie sobre interrupção e continuidade, colaboração e disciplina, a estranha afinidade emocional que diz sentir com Portugal, e a necessidade de preservar, mesmo dentro de uma carreira longa, um sentido real de significado. Ah, e um bocadinho só, sobre café…
Então, vamos começar pelo óbvio. Este concerto na Culturgest estava originalmente previsto para 2020, mas muita coisa aconteceu entretanto. Sente estes concertos como a continuação de uma conversa interrompida ou como o início de um capítulo diferente para A Winged Victory for the Sullen?
Não sei se lhe chamaria um novo capítulo, honestamente. Parece mais a continuação de uma conversa que foi abruptamente interrompida. Tínhamos estes concertos planeados — nem me recordo exactamente das datas — e estávamos em plena digressão quando começámos a perceber que a Covid estava a aproximar-se. Estávamos em Inglaterra, a terminar aqueles concertos, e o último espectáculo foi na Bulgária, creio eu, a 7 de Março. Literalmente dois dias depois, pelo menos ali, tudo fechou. E depois o mundo inteiro entrou naquele estado suspenso que todos conhecemos. Tínhamos um ano e meio de concertos planeados, mas claro, não éramos caso único. Toda a gente passou pelo mesmo. E sinceramente, não sei se faz muito sentido continuar a revisitar esse assunto, porque afectou toda a gente, em todo o lado. A menos que estivesses a viver completamente isolado numa ilha remota, foste afectado por aquilo. Por isso não sinto que isso tenha mudado fundamentalmente quem somos enquanto projecto. Estamos apenas felizes por poder regressar. E, para mim, Portugal sempre foi um sítio especial. Sempre gostámos muito de tocar aí. Há qualquer coisa na relação emocional que sinto com o público português que é muito particular. O tipo de música que fazemos vive muito da melancolia, da introspecção, de um certo silêncio emocional, e Portugal é um dos poucos países onde sinto que isso é realmente compreendido de forma intuitiva. Não quero simplificar isso dizendo apenas “é por causa do fado”, porque seria demasiado redutor. É mais uma sensação geral. Há qualquer coisa nas pessoas, na história, talvez até na geografia. Essa sensação de estar num extremo da Europa, de olhar para o oceano, essa relação com distância, perda, descoberta… não sei exactamente. Mas sinto isso. E sinto claramente uma diferença entre portugueses e espanhóis, por exemplo. Claro que há afinidades culturais, mas musicalmente, emocionalmente, sinto uma diferença enorme. Em Portugal há uma receptividade muito específica à nossa música — à tristeza, à quietude, à contemplação. E por isso sempre gostámos de tocar aí. Parece haver uma espécie de entendimento mútuo. Uma amizade, até.
Entretanto passaram seis anos. Houve novos lançamentos, novos projectos. O que muda no repertório destes concertos?
Vamos tocar música nova, sem dúvida. Lançámos um disco durante a pandemia, mas além disso há bastante material novo. E também vamos recuperar peças mais antigas que nunca tocámos ao vivo. Para nós, as digressões nunca funcionaram segundo aquela lógica tradicional de banda de rock: “temos disco novo, vamos para a estrada”. Não é assim que pensamos. É mais uma questão de conseguirmos encontrar espaço nas nossas vidas para isto acontecer. Eu vivo na Bélgica, o Dustin está na Islândia. Não estamos assim tão longe um do outro, mas há toda uma logística, há vidas, compromissos, outras coisas a acontecer. Portanto, quando conseguimos reunir circunstâncias para tocar, fazemo-lo. Portugal era um lugar a que queríamos regressar há muito tempo, por isso estes concertos são quase o cumprimento de uma promessa adiada.
As actuações de A Winged Victory for the Sullen são relativamente raras. Essa escassez tornou este projecto mais precioso? Ou torna mais difícil regressar?
Não, regressar é fácil. Na verdade, é óptimo. Continuamos muito amigos. Isso nunca mudou. Mas a vida naturalmente muda — o Dustin tem filhos agora, por exemplo — e as prioridades reorganizam-se. Mas nunca houve propriamente uma conversa entre nós a dizer: “vamos tornar isto mais raro”. Simplesmente aconteceu assim. Mesmo desde o início, nunca fui alguém particularmente interessado em tocar sem parar. Gosto de actuar ao vivo, gosto muito da experiência, mas isso tem de significar alguma coisa para mim. Caso contrário transforma-se num trabalho mecânico, e nunca quis isso. Mesmo vivendo da música, quero continuar a sentir alguma coisa quando faço isto. Se transformas qualquer actividade em repetição constante, eventualmente perde-se alguma coisa. Como em qualquer profissão. O desgaste instala-se. Pode até começar a gerar sentimentos negativos. E eu não quero isso. Quero continuar a sentir que há significado no acto de tocar.
O Dustin falou noutras entrevistas sobre a importância da intuição, de deixar espaço para o inesperado em vez de controlar excessivamente cada resultado. Ainda procuram essa surpresa?
Sim, mas de forma muito natural. Trabalhar juntos continua a ser incrivelmente fácil. O Dustin está na Islândia — o que, convenhamos, não é assim tão longe. Posso apanhar um avião e estar em Reiquiavique em poucas horas. Antigamente juntávamo-nos mais vezes na mesma sala para compor e gravar, simplesmente porque estávamos noutra fase das nossas vidas. Hoje o processo mudou um pouco, mas a ligação criativa continua muito fluida. Nunca foi uma colaboração difícil. Pelo contrário. A diferença maior talvez esteja no trabalho por encomenda. Quando trabalhas para cinema, dança, ou com um coreógrafo, por exemplo, o processo muda. Mas eu gosto disso. Porque quando estás a fazer música puramente tua, és tu a definir tudo. Quando trabalhas para outra visão, tens de abdicar de parte do ego. Tens de aceitar que estás ao serviço de outra narrativa. E isso pode ser incrivelmente libertador. Estás a contar uma história através dos olhos de outra pessoa. Isso obriga-te a sair dos teus automatismos. E eu gosto muito de colaborar por causa disso. A colaboração leva-te a lugares onde nunca chegarias sozinho.
Essa abertura à colaboração e à interferência externa pode então tornar-se uma fonte de inspiração?
Sem dúvida. Claro que às vezes também pode ser fonte de frustração — não vou romantizar isso. Especialmente quando falamos de publicidade ou televisão, há muitos potenciais conflitos. Há muitas camadas de decisão, muitas opiniões, muitos compromissos. Mas no caso da dança, pelo menos nas experiências que tive, tem sido profundamente positivo. Atomos, por exemplo, nasceu desse contexto, da colaboração com Wayne McGregor. E isso foi fascinante precisamente porque houve momentos em que ele nos empurrou para lugares onde provavelmente nunca teríamos ido sozinhos. Na maior parte do tempo, o Wayne deu-nos bastante liberdade. Deixou-nos fazer aquilo que fazemos. Mas houve determinados momentos em que a peça precisava de uma energia específica, de um determinado andamento, de um certo impulso dramático. E isso obrigou-nos a repensar coisas. Houve peças que acabaram nesse disco que simplesmente não existiriam se ele não estivesse envolvido. Se aquilo tivesse sido apenas “mais um disco nosso”, algumas dessas composições nunca teriam acontecido. E isso, para mim, é belíssimo. É exactamente aí que a colaboração se torna interessante. Quando alguém te obriga a sair do teu território habitual.
Mas hoje em dia parece ser bastante selectivo em relação a esse tipo de projectos.
Muito. À medida que envelheço, tornei-me muito mais criterioso com o meu tempo. Porque há demasiadas coisas que quero fazer. Tenho os meus próprios discos. Tenho outros projectos. Tenho música nova a caminho. Há um novo disco meu a sair em Setembro, que vais ouvir em breve. Portanto, a realidade é simples: só há 24 horas num dia. Não posso aceitar tudo. E sinceramente, também já não tenho vontade de aceitar coisas só porque sim. Se me envolver num projecto por encomenda, quero que faça sentido. Quero sentir curiosidade. Quero que me desafie. Caso contrário, prefiro não o fazer.
Essa necessidade de escolher melhor também vem de ter interesses fora da música?
Sim, absolutamente. Porque a música é central na minha vida, claro, mas não é a única coisa que me define. Sou um grande coleccionador de discos, por exemplo. Adoro vinil. Mesmo a sério. Tento ir a feiras ou lojas pelo menos uma vez por semana, se conseguir. Costumo dizer, meio a brincar, que é o meu desporto favorito: a caça ao disco. Há qualquer coisa nesse ritual que adoro. A descoberta. O acaso. O objecto. A história.
Vai aproveitar esta passagem por Portugal para praticar esse “desporto”?
Sem dúvida. Depois dos concertos em Lisboa e Braga devo ter um pouco mais de tempo, por isso quero explorar. O Pedro Santos, que programou os concertos, conhece muito bem esse universo. Nem me lembro se ele ainda está ligado a uma loja, mas sei que conhece óptimos sítios. Pedi-lhe precisamente sugestões porque gostava de encontrar lojas de usados interessantes. Portugal tem algumas lojas muito boas. Portanto sim, vou certamente fazer algumas compras.
Além dos discos, há outras paixões improváveis?
Sim — jardinagem (risos). É verdade. Desde que saí da cidade e fui viver para uma zona mais costeira, descobri isso. Tenho estufas. Cultivo coisas. Vegetais, plantas, esse tipo de coisas. E adoro. É muito trabalho, claro. Exige tempo, atenção, paciência. Mas dá-me um prazer enorme. Tem qualquer coisa de profundamente terapêutico. Relaxa-me completamente. É um contraponto perfeito ao resto. A música pode ser intensa, absorvente, emocionalmente exigente. A jardinagem devolve-te a outra escala de tempo. Obriga-te a desacelerar. E gosto muito disso.
Voltando a A Winged Victory for the Sullen: falou em música nova. Podemos esperar novidades em breve?
Espero que sim. Temos material novo, sem dúvida. A ideia é conseguir terminar tudo até ao final deste ano, idealmente, e depois lançar no próximo. Mas sabes como estas coisas são. Nunca gosto muito de prometer datas rígidas. Estamos a trabalhar nisso.
Última pergunta — porque não resisto. Atrás de si parece haver um setup bastante elaborado para fazer café. É um apreciador sério de café?
(Risos) Sim. Completamente. Sou absolutamente um homem de café. Adoro café. Aliás, essa é outra das grandes qualidades de Portugal. Têm bom café. Isso é mesmo verdade. Nem sempre acontece na Europa, devo dizer. Mas Portugal tem óptimo café.