5K7s #9

[TEXTO/FOTOS] Rui Miguel Abreu

 

No Inverno as cassetes soam melhor: o analógico “quente” é remédio santo contra o frio. Mas, provavelmente, a razão certa para isso prende-se com factores de ordem emocional e memórias de outros tempos que sempre aquecem qualquer coisa, nem que seja a alma. Na seleção proposta para este nono volume da série 5K7s há vários tons invernis a atravessar a música, muito diferente, que abaixo se apresenta. Façam o favor de ouvir. E de se agasalharem.

 


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[DEMDIKE STARE] The Age of Innocence
(DDS, 2015)

Enquanto não surge um sucessor para Elemental (que já data de 2012 e é o último álbum da dupla formada por Miles Whittaker e Sean Canty) ou para a incrível série Testpressing (os sete maxis que os Demdike Stare lançaram entre 2013 e 2015) é no igualmente entusiasmante terreno das mixtapes impressas em cassete que a dupla britânica se vai fazendo sentir. Desta vez é The Age of Innocence que concentra atenções, depois do lançamento de Empirical Research, em 2014. Como sempre, trata-se de uma viagem imprevisível, entre drones, ecos de antigas gravações radiofónicas, techno espectral, grooves vindos de dimensões paralelas e ruído estático captado de super-novas a explodirem nos confins da galáxia. Cada nova mixtape de Miles e Sean é pensada como uma espécie de banda sonora para um filme inexistente (e daí títulos como os já citados ou The Weight of Culture e Post Collapse, por exemplo). Fundamental para quem admira o trabalho da dupla que deverá ter novidades grandes durante 2016.

Edição em caixa de plástico transparente com insert simples impresso em papel de qualidade e cassete em concha de plástico laranja opaco. Como sempre, as edições da DDS vêm numa caixa de cartão exterior carimbada à mão. Edição limitada a 200 exemplares.

 

https://www.youtube.com/watch?v=LKgSaVK2OC8

 


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[SHINICHI ATOBE] Ship-Scope
(DDS, 2015)

Longo caminho, o deste clássico perdido: edição original em 2001 na Chain Reaction, a sub-label da histórica Basic Channel, passagem aos nebulosos terrenos da memória e do mito durante os 15 anos seguintes, até que os Demdike Stare resolveram o mistério e a esta única edição do japonês Shinichi Atobe acrescentaram o recentemente editado álbum The Butterfly Effect. Ter o lendário maxi Ship-Scope, que os Demdike Stare também reeditaram recentemente em vinil, disponibilizado também em cassete é um preciosismo a que é impossível resistir. Esta música faz todo o sentido neste formato: Shinichi Atobe criou aqui um singular momento em que uma deriva algo ambiental da fórmula dub-techno carimbada pela Basic Channel se apoia numa elegante arquitectura sonora de amplas e desertas paisagens. Tudo é certo neste trabalho que carrega nos ombros o peso de 15 anos de história, mas que bem poderia ter sido editado ontem que continuaria a fazer pleno sentido. Este é o som de placas tectónicas a deslocarem-se lentamente sobre rios de lava. Maravilhoso, portanto.

Edição em caixa transparente, com insert em papel de qualidade, com tracklisting, e cassete em concha preta opaca. Tal como acontece com a cassete dos Demdike Stare referida anteriormente, também esta vem embalada numa caixa de cartão carimbada manualmente. Edição limitada a 100 exemplares.

 

 


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[VARIOUS ARTISTS] Calendar Customs Vol. III: Mid Winter Rites & Revelries
(Folklore Tapes, 2015)

As edições da Folklore Tapes de David Chatton-Baker são sempre impressionantes. Esta faz parte de uma série com que se celebra a chegada de cada estação e centra-se, obviamente, no Inverno. Reúne-se aqui trabalho de uma série de artistas e o resultado é uma potente mescla de folk, manipulação de fita, rituais hauntológicos, drones assombrados e outras curiosidades electrónicas que tornam esta música perfeita para a contemplação de dias cinzentos como o de hoje.

Como sempre acontece nas edições da Folklore Tapes, também esta é limitada (a 250 exemplares) e embalada numa caixa de cartão serigrafada. Dentro da caixa, um vasto conjunto de materiais impressos, fotos diversas, cartões com documentação e até uma folha seca de azevinho. A cassete propriamente dita vem dentro de uma capa de cartão serigrafada e a concha é em plástico verde opaco com informação impressa.

 

 


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[MR. GALACTUS] Sith Breaks
(Muj, 2015)

Nova edição na sempre cobiçada MUJ (Modern Urban Jazz) cujas edições tendem sempre a esgotar muito rapidamente no Bandcamp. Esta nova aventura de Mr. Galactus aproveita o momento Star Wars e é uma viagem de colagens através da mesa de mistura que resulta como uma pequena fantasia que qualquer fã da saga de George Lucas achará absolutamente deliciosa: breaks, scratch, snippets vocais que nos remetem imediatamente para o filme, ruídos electrónicos variados… O que há aqui que não nos agrade? Absolutamente nada. Ear candy da melhor colheita. A força é poderosa nesta cassete. Que tem, como seria de esperar, um “Dark Side” e, talvez algo surpreendentemente, um reverso que é ainda “Darker”… Possam os breaks estar convosco.

Cassete em caixa transparente com insert a cores impresso em papel de qualidade e cassete em concha preta com etiqueta impressa em papel e colcada no painel lateral. Vem com um cromo coleccionável impresso em cartolina.

 

 


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[MOGLI / MANOFUE WURDZ] No-Fi
(I Had An Accident Records, 2015)

A I Had An Accident Records tem uma década de existência e inúmeras edições. Merecerá em breve por aqui uma edição especial do 5K7s. Para já, e em jeito de antecipação, alguma atenção a esta edição split de Mogli e Manofue Wurdz. Cerca de 15 minutos para cada lado de hip hop lo-fi (ou No-Fi a julgar pelo título). No caso de Mogli, a música apresenta-se como uma melancólica mistura entre hip hop instrumental e folk, com arranjos muito simples, mas estranhamente cativantes (qualquer coisa certamente a ver com o hipnótico poder dos loops). Tanto Mogli como Manofue Wurdz são nativos da Califórnia, o que certamente ajuda a enquadrar a aura experimental que cobre as suas produções. Já Manofue Wurdz, é mais lo-fi do que Mogli, mais soulful também. Delicioso o beat que constrói a partir do clássico “Be Thankful for What You’ve Got” de William DeVaughn, por exemplo. Vibes perfeitos para dias de chuva, sem dúvida.

A cassete apresenta-se em caixa de plástico transparente com insert simples e com a particularidade da concha ser bicolor (branco e preto), reflectindo o facto desta edição ser um split. Edição limitada a 100 exemplares.

 

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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