5K7s #5

A minha paixão pelas cassetes renasceu, talvez há uma década, quando encontrei no lixo um incrível leitor Sony Vintage, com VUs de agulha, lados em madeira, objecto lindíssimo que é hoje um acessório de decoração em casa da minha filha, depois do motor ter morrido e de assim ter ido para o céu dos decks. Há um par de anos encontrei, por 20 euros, um belíssimo Akai GXC-725D, também com VUs de agulha, três cabeças, uma maravilha. Mas o modelo que mais uso para ouvir as cassetes é o meu fiel Tascam 130. Mas ando sempre à procura de algo melhor e um dia, quando for grande, hei-de ter um daqueles Nakamichi a sério. Isto porque levo também a sério este formato.

No momento em que escrevo esta quinta entrada na série 5K7s aguardo a chegada de alguns títulos neste formato, incluindo o mais recente álbum de Zombi, a nova cassete de M. Akers e um par de outras pérolas. Abaixo, algumas das cassetes que entretanto aterraram cá em casa. A este lote haveria que acrescentar dois títulos da nova aventura editorial de Legowelt, mas a Nightwind mereceu por aqui artigo à parte e esse assunto está devidamente arrumado. Adiante…

 


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[TUGALIFE]
(Kids, 1980, 2015)

Terceiro lançamento na 1980, depois da compilação Lyfers Vol. 1 e de 10.000 Anos Depois da Rave de José Acid. E primeiro lançamento em formato físico, o que diz muito da versatilidade da cassete que consegue acomodar orçamentos e ambições de dimensão mais microscópica. O produtor Tugalife reside actualmente em Londres e ouvindo Kids percebe-se que está em sintonia com as modernas paisagens sonoras pós-bass ou lá o que é: um terreno digitalmente difuso por onde ressoam ecos de hip hop, dubstep, house, techno, R&B, grime e demais linguagens electrónicas, trituradas por uma sensibilidade afinada pela internet 2.0. Por aqui ouvem-se beats lentos, farrapos de vozes rasgados de uma memória pop qualquer, esboços de sons de pista que nunca chegam a cumprir o seu desígnio, como se tudo isto se desenrolasse num sonho qualquer. Lançamento promissor que obriga a registar Tugalife no radar de valores nacionais a observar de perto.

Edição em caixa transparente, com insert em cartão e cassete em concha transparente com impressão simples.

 


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[MADVILLAIN]
(Madvillainy, Stones Throw, 2014)

A edição original é, obviamente, de 2004. Madvillainy é um dos primeiros grandes clássicos deste século. Mas o ano passado, por ocasião do 10º aniversário da edição original, a Stones Throw lançou este álbum em cassete, um formato que assenta particularmente bem a tudo aquilo que MF Doom faz, ele que parece carregar uma natural poeira dos tempos na voz e nas produções. Chegou agora chez moi. Beats de Madlib, snippets de séries clássicas de animação, voz de Doom a fazer aquilo que Doom faz tão bem: free flows, rimas esquinadas pela lógica, carregadas de imagens que só devem fazer sentido naquela dimensão paralela onde existe um Super Homem Bizarro. E onde rappers com máscaras metálicas soam absolutamente normais. Em cassete, as produções de Madlib ganham uma camada extra de patina, com as baterias a soarem um niquinho mais reais do que em vinil ou CD, com a voz a parecer carregar mais um ou dois maços de cigarros do que o normal. E agora apetece-me ter toda a série Special Herbs neste formato: “please Mr. Doom, please…!

Edição em caixa transparente com insert desdobrável e cassete em concha transparente com impressão simples.

 


 

[VINGTHOR THE HURLER]
(The Sesame Street Beattape, Asgard Records, 2015)

Não há nada que não seja adorável nesta edição de Vingthor The Hurler: a capa é fantástica e os beats que preenchem 44 minutos de fita são pontuados com inúmeros samples da Rua Sésamo, numa tradição mais ou menos subterrânea da produção hip hop que se liga a um universo infantil através de citações de séries como os Marretas, de filmes como os Goonies e de cancioneiros como de Hoagy Carmichael. O estilo de Vingthor é puro boom bap, carregado de poeira que não esconde que estes beats são levantados de vinil resgatado a dollar bins. É um exercício puramente lúdico, uma orgia auto-indulgente na MPC e merece toda a atenção por isso mesmo. É uma beat tape. E não faria sentido em nenhum outro formato. O output de Vingthor The Hurler, bem documentado no Bandcamp, merece ser investigado com alguma atenção. E nem é de estranhar que as suas cassetes esgotem muito rapidamente.

Edição em capa de cartão impressa dos dois lados, com os olhos do boneco em relevo. A concha é amarela com impressão a preto.

 


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[NOBOD¥]
(Puzzles, Dome of Doom Records, 2015)

Curiosa esta edição: NOBOD¥ é um membro activo da cena de beats underground de L.A., figura recorrente nos meandros frequentados por gente como Gaslamp Killer, Daddy Kev ou FlyLo. E esta cassete é uma reedição limitada a 300 cópias da sua primeira beat tape lançada originalmente em 1996. E possui alguns extras: uma série de exercícios sem título que datam de 1995, as duas primeiras colaborações vocais deste produtor, com Ellay Khule, e uma primeira amostra de material que viria a surgir em Soulmates, aquele que foi o primeiro lançamento oficial de NOBOD¥ na Ubiquity, em 2000. Há 20 anos a tecnologia era muito diferente e no seu ADN estes beats carregam essa condição: gravados directamente para DAT a partir de um Roland DJ-70, estes temas funcionam assim como uma cápsula de um tempo muito particular que nos deu obras primas como Endtroducing. Um tempo em que os produtores perceberam que com as estratégias de abordagem à memória impressa em vinil desenhadas pelo hip hop se poderia avançar para terrenos mais livres, sem o domínio das vozes, com os beats a terem que valer por si mesmos. Foi também uma época de intenso escavar de vinil que abriu as portas do passado e levou à criação de muitos selos apostados nesse tipo de recuperação. Ainda hoje sentimos os efeitos dessa abertura.

Edição em caixa de plástico normal, com insert simples e cassete em concha transparente com impressão a uma cor.


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[EMERALD WEB]
(Catspaw, Audion Recording Co, 1986)

Cassete comprada a um amigo no Discogs depois da revelação que foi Dragon Wings and Wizard Tales, uma cassete de 1979 que a Finders Keepers reeditou em 2012, quando toda a onda new age começou a ser reavaliada à luz de uma redescoberta da música de sintetizadores. A música dos Emerald Web, casal composto por Kat Epple e Bob Stohl, já mereceu mais atenção da etiqueta comandada por Andy Votel, com o lançamento de The Stargate Tapes, uma bem-vinda e reveladora antologia, Whispered Visions, reedição em vinil de uma cassete com o mesmo título datada de 1980, de Garden of Mirrors, um split na série Disposable Music, e ainda de Sanctus Spiritus, LP creditado não a Emerald Web mas a Bob Stohl e Kat Epple relançado na Dead-Cert, a etiqueta que Votel mantém com Doug Shipton e Sean Canty dos Demdike Stare. Sintetizadores, flautas etéreas, new age em estado puro de 1986 que recentemente mereceu reedição em CD pela Anodize, label operada por Darren Bergstein.

Caixa clássica com insert simples a cores, cassete em concha branca opaca com impressão de títulos a uma cor.

 

Toda a série 5K7s está disponível aqui.

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu