Pioneiros: Madlib, o reinventor do passado

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

 

Já olharam bem para dentro das espiras de uma velha prensagem de vinil dos The Three Sounds ou de Bobby Hutcherson? Já espreitaram para lá do brilho negro do vinil e tentaram adivinhar a disposição dos músicos no histórico estúdio de Rudy Van Gelder? Do que falariam antes do engenheiro dar início à sessão? Já procuraram imaginar as escalas que Gene Harris tocava no seu Hammond B3 para aquecer os dedos? Ou de que marca era a garrafa estrategicamente colocada ao lado do vibrafone de Bobby Hutcherson? Já algum dia sentiram os vossos olhos a prenderem-se no azul-Blue Note das etiquetas destes discos e se perguntaram como estariam estes músicos vestidos no dia das gravações? Qual a marca do carro que os levou até New Jersey? O que almoçaram nesse dia?

A música que Madlib compõe e grava a um ritmo ainda mais alucinante do que o seu carregado calendário de edições deixa adivinhar contém as respostas a todas estas perguntas. E levanta ainda mais questões – delirantes, complexas, absurdas… – que são respondidas com uma lógica turva de fumo verde, dactilografadas directamente na sua SP 1200 e explicadas de forma enigmática pelas brancas & negras do seu Fender Rhodes.

Preencher os espaços em branco abertos pela imaginação quando o som quente de um disco de jazz se liberta do hi-fi e nos invade a vida deve ser um exercício a que Madlib* (nome verdadeiro: Otis Jackson Jr., também conhecido como baterista do virtual Yesterdays New Quintet) se habituou desde criança. Basta imaginar um típico jantar do Dia de Acção de Graças em sua casa, há 25 anos. Sinesca Jackson, a sua mãe, prosseguiu uma linhagem familiar de cantoras de folk e blues e muito provavelmente sentava-se ao piano quando chegava a altura de servir as bebidas. Otis Jackson Sr., o seu pai, tinha um peru para trinchar porque trabalhava bastante, como músico de sessão, para gente como Tina Turner, Bobby “Blue” Bland e Johnnie Taylor. Depois, não seria de estranhar que Otis Sr. tivesse convidado um dos seus amigos produtores para esse jantar. David Axelrod, por exemplo. O mítico produtor de gente como Cannonball Adderley ou os Electric Prunes de certeza que trazia histórias para a mesa da sala que deixavam o pequeno Otis maravilhado. E não podemos esquecer o tio, Jon Faddis, na cidade por uns dias, enquanto a vida na estrada ao lado de consagrados como Dizzy Gillespie, Bob James ou Roy Ayers não o levava de novo para longe de Oxnard (nos subúrbios de Los Angeles). Tentem imaginar o burburinho de um jantar assim. Tentem imaginar o impacto das notas que se soltaram do piano, das vozes que se elevaram acima dos risos, das histórias com nomes grandes que se contaram naquele jantar e que marcaram para sempre o pequeno Otis. E agora perguntem-se como poderia Madlib fazer outra coisa que não tentar reproduzir o glorioso ruído dessas noites, com uma colecção de discos assinados pelos nomes que se habituou a ouvir mencionados lá em casa com natural familiaridade e um sampler. O hip hop, para Madlib, é apenas um meio para contar a sua própria história e organizar as suas memórias. De resto, é assim que acontece com os melhores.


 


Madlib tem uma série de novos discos na rua: Shades of Blue, o seu tributo à Blue Note; A Lil’ Light, o álbum com o crooner Dudley Perkins (aka Declaime, MC com dois grandes registos no currículo – o EP Ill Mind Muzik de 99 e o álbum Andsoitsaid de 2001 – ambos com um generoso número de faixas produzidas por… Madlib); Stevie Vol. 1 (álbum de covers de material original de Stevie Wonder, assinado pelos Yesterdays New Quintet, por enquanto apenas disponível como CD promocional, provavelmente porque ainda não foram desbloqueadas todas as autorizações legais para a sua edição); e Secondary Protocol, o álbum de Wildchild (MC dos Lootpack, grupo com que Madlib se estreou nas edições de grande formato, em 1999, com o LP Soundpieces: Da Antidote) que conta com 10 beats assinados por Madlib (os seis restantes têm o carimbo do seu irmão que responde pelo nome de Oh No…). A esta lista, poderia ainda acrescentar-se o recente maxi The Official que prepara caminho para a estreia em álbum do projecto Jaylib, resultado da conjugação de esforços de Madlib e Jay Dee; o single de 7” Nuclear War que mostra Madlib a levar os seus YNQ para territórios do free jazz com uma sentida vénia a Sun Ra; ou, embora com circulação ainda “limitada” pelo domínio virtual da internet, o álbum do projecto Madvillain que vê Madlib a trocar delírios sampladélicos com MF Doom.


 


Seja como for, fica bem vincada a ideia de que a aplicação do termo workaholic a Madlib corre o risco de se revelar um sério understatement. Madlib confessa regularmente a quem lhe pergunta que produz, no mínimo, material suficiente para um novo álbum a cada três ou quatro dias. E se tal possa eventualmente parecer um entusiasmado exagero do produtor, rapidamente essa ideia se desvanece: Peanut Butter Wolf, o patrão da Stones Throw, explica em algumas entrevistas que Angles Without Edges, o genial álbum de estreia dos YNQ, é o resultado da selecção de material que ocupava originalmente 20 CDr’s. Por outro lado, em stonesthrow.com descobre-se que Stevie Vol. 1 é apenas a ponta de um iceberg de produção compulsiva que já gerou álbuns ainda não editados de tributo a gente como George Duke, Roy Ayers ou Azymuth.

Naturalmente, presumir que todo o output criativo de Madlib mantém um constante nível qualitativo é, muito mais do que simples ingenuidade, sinal de que não se percebe a verdadeira razão de tão intensa produção de música. Nas entrelinhas do por vezes hermético discurso de Madlib (ver, por exemplo, a entrevista de Egon, compilador de Funky 16 Corners e braço direito de PBWolf, disponível em aqui) há claros sinais de que o impressionante ritmo de produção a que se submete é consequência de um espírito inquieto, assombrado pelas possibilidades infinitas da própria música que deseja abraçar de uma só vez. Sob esse prisma, cada um dos discos que edita – e, sobretudo, cada um dos que nunca chegaremos a ouvir – é apenas uma peça solta de um complexo puzzle de sonhos e desejos alimentados por uma sede transcendental de criação. Uma sede que impele Madlib a procurar recriar por todos os meios cada espaço em branco aberto directamente na sua imaginação por todos os discos que o marcaram: os álbuns de jazz da Blue Note materna, os álbuns da fusão eléctrica com a estratosfera de mestres como George Duke ou Herbie Hancock, os álbuns de “swing” cósmico de Roy Ayers e Lonnie Liston Smith, os álbuns de cubismo tropical assinados pelos Azymuth, ou os álbuns de groove psicadélico de Stevie Wonder e Weldon Irvine. E quando o sampler já não chega, Madlib ensina-se sozinho a retirar sentido de um Fender Rhodes, a curvar as cordas de um contrabaixo a uma qualquer ideia pulsante ou a sincopar padrões imaginados numa bateria real. A música de Madlib e a sua dispersão por múltiplas latitudes editoriais e artísticas é parte de um processo maior de crescimento, de realização de uma visão. Como tal, são igualmente significantes os momentos de plena realização artística e os de indecisão e recuo. Madlib aceita cada nota que produz, sonante ou dissonante, correcta ou “livre”, como parte de um todo ainda não revelado.


 


Assim, Shades of Blue, o álbum com que a Blue Note abriu os seus arquivos ao sampler de Madlib, é apenas um gesto de reconhecimento de afinidades, onde as remisturas de bases pré-existentes diluem a sua natureza com esforços de recriação genuínos. Para Madlib, Shades of Blue equivale ao folhear de um álbum de recordações. As remisturas são reverentes exercícios de actualização subtil, e as versões, ou “re-imaginações”, são resultado da procura de um lugar no fluxo da história que Madlib ouve contada pelos discos que colecciona. E a prova de que Madlib faz música para responder a questões colocadas pela sua hiper-activa imaginação encontra-se no delicioso pormenor de o acesso facilitado às multi-pistas originais de peças de ícones como Donald Byrd – Stepping Into Tomorrow, mais concretamente – lhe ter permitido recuperar porções da sessão original (no caso, as vozes femininas) que haviam sido eliminadas da mistura final.

Já com um disco como A Lil’ Light de Dudley Perkins a tentativa de re-equacionar as coordenadas de espaço e tempo, transformando um rapper num crooner toldado pelo fumo e um produtor de hip hop num director musical do combo residente no lounge de Bellevue, é ainda mais descarada. Dudley Perkins começou como uma brincadeira levada até às últimas consequências no single de 7” Flowers, uma ode ao tipo de ervas medicinais que se fumam em vez de se mergulharem em água quente. A experiência teve resultados interessantes e por isso mesmo Madlib e Declaime voltaram ao ataque. Em A Lil’ Light lida-se com os clichés do género de jazz-soul que se escutava nas coffee-houses dos anos 70. Dudley não canta, mas o seu demente falsetto transporta sugestões de letras, improvisadas por entre mais uma inalação. Curiosamente, Madlib acompanha o delírio de Dudley Perkins com beats que ostentam com orgulho falsos arranques, erros de programação, soluços no fluxo e dissonâncias variadas. Digamos que nem com faróis de nevoeiro deveria ter sido possível ver o que se passou no Bomb Shelter (estúdio caseiro de Madlib) durante estas sessões.


 


É ainda sob a perspectiva da homenagem às origens que se entende Stevie Vol. 1, um CD cujo carimbo de promo item o faz ter um preço dilatado em sites como o eBay. Executado pelo Yesterdays New Quintet – que entretanto começou já a gerar discos a solo de cada um dos seus “elementos”: Madlib já editou maxis de Joe McDuphrey (o “pianista” do quinteto) e de Ahmad Miller (clavinet e guitarra) – Stevie Vol. 1 é um pedaço de luz intensa apontada à carreira do grande Stevie Wonder. Escutando a versão de “Superstition”, por exemplo, sente-se ainda o processo de aprendizagem intuitiva de Madlib no Rhodes. Tendo em conta que o hip hop não é terreno fértil para versões (afinal de contas samplar já atira a composição para os domínios da citação), o gesto de Madlib reveste-se de uma honestidade profunda e de uma reverência sentida. E inverte-se o sentido natural do hip hop – que sampla para construir um objecto novo – ao encenar um regresso às origens onde o que é produto da citação directa pela via do sampler se confunde com o que resulta de uma ingénua abordagem das ferramentas usadas originalmente na criação das peças que agora são alvo de devoção.

Madlib parece realmente estar em todo o lado ao mesmo tempo. O seu trabalho no álbum do MC Wildchild, seu companheiro de armas nos Lootpack, mantém um elevado nível de qualidade, com beats que assumem uma identidade distinta de tudo o que conhecemos actualmente no hip hop. Madlib não é nem Jay Dee, nem Kanye West, nem os Neptunes ou Timbaland. Aqui remete-se à sua identidade de Loop Digga, assumida primeiramente no seu álbum a solo como Quasimoto (em que Madlib se transforma num rapper com flow alimentado a hélio…), construindo beats com pedaços de história, fazendo colidir baixos profundos com baterias sujas com o pó do tempo.


 


Faz tudo parte de um processo. Madlib gosta de se referir a si mesmo como “The Beat Conductor”, como se, muito mais do que como um produtor, se visse como um maestro cuja missão é encontrar um ponto de equilíbrio ideal onde seja possível orquestrar ideias, métodos, estímulos e capacidades para a organização de uma visão onde não há reais distinções entre passado, presente e futuro. Madlib sente que os discos que ama – independentemente da data ou do local onde possam ter sido gravados (desde a New Jersey de metade dos anos 60 até ao West Wend Londrino do novo século) – são entidades vivas e que, enquanto tal, são continuamente passíveis de serem reequacionados, reescutados, reconstruídos. Há que preencher os espaços em branco, completar a história, continuá-la e até, se necessário, alterá-la. Não passará muito tempo até que Madlib veja a sua oportunidade de regressar ao passado pela via do presente colaborando com os ídolos que permanentemente informam a sua produção artística. Herbie Hancock? George Duke? Azymuth? Madlib espera um telefonema vosso.

Fast forward para 2016, mais de uma década após os parágrafos anteriores terem sido escritos. Muita água passou, obviamente, debaixo da verdadeira ponte que é a mente criativa de Madlib. Após a edição em 2003 de Shades of Blue, a discografia pessoal de Otis Jackson Jr. – desdobrada por incontáveis máscaras: Quasimoto à cabeça, mas também DJ Rels ou os seus inúmeros alter-egos de jazz, de Monk Gughes a Ahmad Miller, de Yesterdays New Quintet a The Last Electro-Acoustic Space Jazz & Percussion Ensemble – explodiu numa miríade de direcções que são nítidos sintomas do seu espírito irrequieto e exploratório. Descobri-lo agora, já em 2016, ao lado de Kanye West, Kendrick Lamar ou Earl Sweatshirt é sinal de que o seu peso na bolsa de valores hip hop está em óbvio crescimento, o que é natural após o trabalho que foi realizando com Freddie Gibbs ou MED.


 


Mas nesta década e meia após o lançamento de Shades of Blue, o sismógrafo pessoal de Madlib registou muitos outros abalos: assinou Liberation com Talib Kweli em 2006; carimbou séries de excelência, como a de Beat Konducta, que o levou da Índia a esse enorme continente que é J Dilla; ou a incrível Medicine Show; trabalhou com Guilty Simpson em 2010; mas, sobretudo, assinou essas obras-primas que são os álbuns de Jaylib e Madvillain logo após o lançamento do seu projecto com a Blue Note.

Esses dois álbuns também me mereceram algumas considerações especiais:

Numa entrevista à Wax Poetics, MF Doom esboça uma ideia extremamente interessante: quando é que o hip hop se tornou hip hop? Segundo Doom, o momento em que o DJ primordial usou o crossfader para passar de um disco de soul para outro qualquer, aquele momento preciso em que o fader abre o espaço sónico de ambas as rodelas de vinil à interferência do DJ, esse foi o momento de nascimento do hip hop. Sendo assim, o hip hop pode ser entendido como uma música entre dois (ou mais) mundos, uma música que existe no espaço que a formação do produtor ou DJ determina. Para Madlib, companheiro de Doom no projecto Madvillain, esse espaço é o da intersecção do jazz e da soul com a modernidade electrónica dos samples. Jay Dee, outro produtor de eleição que faz parte dos Soulquarians com ?uestlove dos Roots (e é um ex-Slum Village), vem de um espaço formativo semelhante, mas com o sabor específico da sua Detroit natal, onde a soul por via da Motown foi sempre questão de elevação, sobrevivência e orgulho! Com Madlib, Jay Dee é também Jaylib.

Os projectos Jaylib e Madvillain, traduzidos digitalmente em Champion Sound e Madvillainy, respectivamente, são puro hip hop, porque resultam igualmente do cruzamento de dois mundos. Em Champion Sound ‘lib e Jay Dilla rimam alternadamente nos beats do outro, numa espécie de troca de estímulos em regime aberto de ideias que se traduz num entusiasmante caleidoscópio hip hop, com beats sujos e fluidos que atraem as paixões de cada um dos produtores e que soam como uma noite passada num clube de jazz, com headphones na cabeça. Madvillainy é um objecto diferente, mais apoiado nas memórias de cada um dos produtores, Mad e Doom, soando como uma viagem de zapping por canais de TV com 20 anos e imagem distorcida (pelo tempo ou pelo fumo…). Ambos são exercícios brilhantes que forçam o hip hop para fora do confortável sofá onde por vezes teima deitar-se, levando-o a explorar o resto da casa, de luzes apagadas… No dia em que se fizer luz, estaremos num universo novo!

O presente de Madlib faz-se, obviamente, dessa intrincada tapeçaria que é a sua obra passada, mas sobretudo de uma incrível e invulgar capacidade de trabalho, de alguém que entende o vinil como um portal para uma dimensão alternativa, de alguém cuja constante sede de passado ajudou a alimentar uma saudável ânsia pelo futuro. Vamos ouvir falar muito em Madlib em 2016…

 

* “madlib” é o nome de um popular jogo infantil cujo princípio básico é a aplicação, mais ou menos aleatória, de palavras a espaços deixados em branco em frases pré-existentes.

Artigo originalmente publicado na revista OP em 2003 e revisto no Rimas e Batidas em 2016.

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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