Hip to da Hop: um filme para pensar o momento do hip hop português

[TEXTO] Ricardo Farinha [FOTO] Direitos Reservados

Cinco minutos dá para fazer muita coisa, já dizia Boss AC, e cinco anos, então, bastaram para mudar quase tudo no hip hop nacional. Ergueu-se uma autêntica indústria independente, por vezes alicerçada nas estruturas tradicionais. Os milhões de visualizações em videoclipes tornaram-se banais; os festivais de música e as semanas académicas tiveram os seus cartazes preenchidos por rappers, DJs e produtores; as rádios e editoras viraram o chip para as rimas e batidas; nasceram novas plataformas (estamos dentro de uma delas); e apareceram inúmeros novos protagonistas, que rimam sobre coisas diferentes, em flows distintos, por cima de instrumentais com texturas e estéticas que simplesmente não existiam em Portugal há cinco anos. Tudo isto resulta numa impressionante onda de inédita diversidade, onde as barreiras e fronteiras demolidas assassinaram a (aparentemente) eterna discussão do underground vs. comercial.

Tanto mudou desde 2013 e acompanhar este momento de viragem foi um luxo para tantos observadores atentos destas realidades, no qual me enquadro eu próprio e o Fábio Silva, entre outros que se vão identificar com estas palavras, numa fornada como a que nasceu, por exemplo, no histórico H2Tuga por volta desse ano.

Já perto dessa altura o Fábio falava de fazermos um documentário que registaria o momento do movimento – não só do rap, mas de todas as vertentes da cultura. Lembro-me de um par ou dois de reuniões, o traçar de planos, a contextualização histórica, o delinear dos protagonistas certos, a reunião de contactos – foram feitas até algumas filmagens, mas a coisa acabou por não seguir para a frente. Sem problema. Era demasiado cedo.

Alguns anos depois, muito me orgulho de poder dizer que vou assistir à estreia de um documentário tão desejado pelo Fábio Silva, que se tornou toda uma nova obra quando conheceu e uniu esforços com o António Freitas, que também preparava o seu próprio filme, para criarem uma obra conjunta: Hip to da Hop – é aparecerem no IndieLisboa, no Cinema São Jorge, às 19 horas deste sábado, 28 de Abril.

Posso adiantar que já vi o filme (mesmo que numa fase pré-pós-produção) e trata-se de um documento precioso para analisar estes cinco anos de hip hop português. Aliás, mais do que cinco anos, é um filme que traça toda a história do movimento, sem a procurar relatar exaustivamente e em detalhe (seriam necessárias infinitas mais horas), e que nos coloca com os olhos onde realmente faz sentido: no futuro.

 



Num momento e num meio em que tudo acontece muito rápido — e cada vez mais: há sempre um novo single viral a sair, um álbum underrated que é preciso dissecar urgentemente, visualizações, likes, partilhas e seguidores –, é importante (pelo menos para quem se interessa verdadeiramente por tudo isto) parar um pouco para reflectir. Olhar para o passado, pensar o presente e perspectivar o futuro. É tudo isto que o já histórico Hip to da Hop oferece, com mais de 30 entrevistas a rappers, produtores, DJs, writers ou bboys, além de bloggers e jornalistas, de Norte a Sul do País. Cada um oferece a sua própria visão deste movimento, dos lugares de onde vimos e para onde vamos, daquilo que é mais ou menos importante, com talentos jovens e sábios anciãos.

Há o velho chavão – muitas vezes ironizado por quem não “percebe o hip hop” – do “representar”, neste meio. Este filme representa de facto a cultura hip hop portuguesa nas suas diferentes vertentes, orgulhos e dissabores – que, obviamente, nunca poderia almejar estar completa, pois seria necessário ouvir muitos outros milhares de pessoas e estar em constante actualização.

Para todos aqueles que esperam um documentário chato, como tantos outros, deixem o preconceito de lado – e o trailer já espelhava bem que não seria nada disso. O equilíbrio entre o registo mais documental e a estética mais cinematográfica foi mexido passo a passo com pinças por estes dois mestres realizadores, talvez das pessoas mais perfeccionistas que já tive o prazer de conhecer. Para cada longo e denso depoimento, há um momento mais leve e divertido, para cada paisagem mais negra e urbana há um lado cheio de cor nas águas do mar ou nas florestas do país.

Hip to da Hop vai a todas e promete continuar com excelência (e certamente aumentar a fasquia e o profissionalismo, a todos os níveis) o legado de registos documentais portugueses tão diferentes como O Rap É Uma Arma, Geraçon Rap, Raiz do Rap Tuga, Nu Bai, Enciclopédia Hip Hop, Outros Bairros, Sonho Americano ou Não Consegues Criar o Mundo Duas Vezes (que também é exibido nesta edição do IndieLisboa e vale a pena ver); e podemos ainda incluir séries como De Sol a Sol e Presentes no Passado.

Além de reflectir e ponderar, é uma homenagem honesta a todos os fundadores e pilares desta subcultura portuguesa, que conta com mais de 25 anos de história e sempre foi muito mais do que uma “moda” – morte súbita que tantas vezes tantos outros erradamente preconizaram. Mostrem este filme a todos os que sentem alguma ligação com a cultura, sim, mas também façam questão de “evangelizar” outsiders que não sabem, afinal, o que é isto do hip hop. É o filme ideal para mudar perspectivas.

 


Ricardo Farinha

Ricardo Farinha

Jornalista. Colabora desde os 18 anos com várias publicações culturais — as rimas e batidas sempre foram inerentes à vida.
Ricardo Farinha