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Fotografia: Billy Verdasca
Publicado a: 20/02/2026

A bonança depois da tempestade.

xtinto: “Eu queria morrer para a música e não consegui porque, lá está: em sonhos, é sabido, não se morre

Fotografia: Billy Verdasca
Publicado a: 20/02/2026

Não sabemos se esta é uma experiência partilhada, mas arrisquemos: sabem aquela sensação de ver a estreia de um jogador da cantera e, ao primeiro toque, perceber que vai ser especial? Seja pelo toque refinado, pelo comer da relva ou pela potência física, há jogadores que nos deixam logo com aquela sensação de que “vem aí craque”.

Este pode ser um bom paralelismo para quem tenha visto a carreira de xtinto despontar logo ao início. Desde a primeira “barra” que nos ecoou nos fones que foi fácil perceber que estávamos perante um talento especial. O primeiro impacto são mesmo as rimas, em que exibe questões internas, um arsenal de recursos expressivos, vocabulário vasto e, acima de tudo, mensagens importantes. Depois, ganha-se noção de que xtinto não seria apenas um liricista capaz de “matar” qualquer sixteen, mas sim um songwriter, alguém com capacidade para escrever canções e nos trazer conceitos mais intrincados.

Ventre e inacabado, os seus dois primeiros EPs, ambos de 2019, confirmaram as suspeitas e transformam-nas em certezas. Já Latência, o primeiro álbum do rapper de Ourém, traz-nos range, com uma variada paleta sonora, um conceito e uma linha condutora fortes, mas também um propósito — afirmar Francisco Santos como um dos mais marcantes autores da sua geração.

O novíssimo segundo em sonhos, é sabido, não se morre era, por isso, um dos álbuns mais antecipados do rap português. Três anos depois do projeto de longa-duração anterior, xtinto regressa com um disco pessoal e de sonoridade mais orgânica, contrastando com a estética de pendor mais eletrónico dos seus lançamentos até então.

Ao Rimas e Batidas, xtinto, na companhia de Lunn, abriu as portas do estúdio da MUNNHOUSE para uma conversa sobre o interregno entre discos, o processo de criação deste novo registo e o estado de espírito que o conduziu até ao mais recente lançamento. 



Como é que foi, para ti, o período desde o lançamento do Latência até chegarmos a este novo disco?

[xtinto] Depois do lançamento do Latência sabia que ia entrar numa nova etapa. Foi por essa altura que começou este coletivo que é a MUNNHOUSE e sabia que os queria trazer para a minha zona e fazer um projeto com a malta toda. A raíz deste novo disco é essa vontade. Não tinha ideia do que queria transmitir a nível de mensagem nem nada, era mesmo o que saísse. Fizemos só uma playlist para traçar uma estética que nos servisse de linha condutora para os writing camps que íamos fazer e começámos daí. Foi um processo fixe, porque consegui juntar esta malta daqui, tipo Kidonov, João Maia Ferreira, Lunn, Beiro, L-ALI, Billy Verdasca e Henrique Rocha com a malta de Ourém, nomeadamente o Guilherme Simões, que acaba por masterizar o álbum, o Tomás Martin, saxofonista, e o Samuel Louro, que é um grande guitarrista. Este foi mesmo o primeiro passo que quisemos dar a seguir ao Latência, pelo menos a nível da construção de um novo trabalho. Entretanto, tive uma fase assim menos boa a nível de saúde mental, por volta de setembro de 2024. Foi uma altura em que quis mesmo desistir da música. Conversei com algumas pessoas e percebi que, de facto, não estava muito bem e decidi bazar para Ourém. Decidi ficar lá o resto do ano, sem pensar em música, sem pensar em nada. Mudei o meu lifestyle, deixei de beber álcool e, no geral, “desliguei” um bocado deste ritmo de Lisboa. Este interregno acabou por me fazer bem porque me fez reaproximar do sentimento que eu tinha a fazer música. Sentia-me bastante em baixo e estava a precisar de me reconectar depois de uma fase em que achei mesmo que ia deixar o que faço e mudar de ofício porque estava farto de alguns aspetos do mundo da música. Na verdade, ainda há muitas coisas que me deixam um bocado desconfortável: a forma como funciona toda a cena de te promoveres, o teres que te dar bué a conhecer ao mundo e teres que te divulgar bué… não me identifico muito. Estes três meses em Ourém fizeram-me mesmo muito bem porque pude ter contacto com esta malta que faz música de uma forma mais apaixonada e reconectei-me com isso. Ajudou a trazer-me à Terra, reorganizar ideias e abrandar um bocado deste ritmo de Lisboa. Isto fez com que eu chegasse ao final do ano com um grande boost, e ya, decidi fazer um segundo camp em Caxarias, o sítio onde vivo, para poder fechar este álbum. Foi por esta altura que tudo ficou definido, só faltava mesmo o nome do projeto.

Achei o título do álbum muito interessante.

[xtinto] O título tem precisamente a ver com essa fase em que quis parar de fazer música. Estava a querer desistir do sonho, mas não consegui desistir. Acabei a gravitar de novo para a música e a perceber que é mesmo isto que eu gosto de fazer e, caso não esteja a conseguir fazê-lo, é porque há algo de errado. Daí o nome do álbum: em sonhos, é sabido, não se morre. Se a música é o meu sonho, não ia conseguir desistir. 

O teu processo de criação passa muito por writing camps, não é? Reunir a malta e criar, em vez do talvez mais habitual processo que vemos no rap, de envio de beats por parte de um produtor e começar a partir daí.

[xtinto] Para mim, música é bué comunhão. Ainda por cima, tenho a sorte de ter amigos prodigiosos, por isso é reuni-los todos numa casa e é certo que sai um álbum. Se há a possibilidade de ter malta tão talentosa fechada num espaço e a trabalhar só para mim, há que aproveitar. Este tipo de experiência foi mais fomentada a partir do momento em que entrei numa label. Percebi que eles, normalmente, agarram em alguém, neste caso um intérprete, e chamam os Avengers para se fecharem dentro de uma casa a escrever e produzir para ele. E eu percebi que tenho amigos que são grandes músicos, amigos que são grandes produtores, tenho o João Maia Ferreira e o L-ALI, que são gajos que escrevem bué, então também posso juntar a minha equipa e criar assim. Eu gosto mesmo bué de fazer música assim e há bué tempo que já não faço música com aquele dinâmica de receber uma pasta de beats, abrir um a um e escrever para eles. Estar ali sentado, em casa, com fones, é algo que já não faço há bué tempo. Acabo por escrever todos os dias, mas é mais frases ou rascunhos que aponto no bloco de notas do telemóvel e que me permitem, quando chego a estúdio, criar a partir dessas ideias que fui tendo. Depois do Latência, sabia que o passo que queria dar era o de trazer a cena mais orgânica, trazer esta comunhão com outros músicos e sinto que este disco fala muito por si neste aspeto. 

Ao ouvir este disco, fiquei com a ideia que tem uma estética algo portuguesa, pelas guitarras e alguma da percussão, como, por exemplo, na “Assunto Meu”. Era algo que vocês queriam atingir?

[Lunn] Na realidade, a “Assunto Meu” não era uma faixa do álbum. Originalmente, foi feita como uma faixa isolada para um cliente, enquanto projeto da MUNNHOUSE, mas acabámos por curtir bué da faixa e achámos que fazia sentido no álbum, por isso incluímos. Acaba por ditar um bocado o mood e a narrativa do resto do disco e por nos dar a ideia de juntar mais elementos orgânicos às faixas, que era também já algo que o Chico [xtinto] queria executar. Acho que essa estética a que te referes acaba por ser mais uma consequência de estarmos a criar este álbum com instrumentistas, que se calhar remeteram um bocado mais para aí, do que necessariamente algo intencional.

[xtinto] E é também por sermos portugueses [risos]. A “Assunto Meu” é uma história que tem piada: dividimo-nos por equipas para fazer um trabalho que foi solicitado à MUNNHOUSE. Eu fiquei com o Beiro e, basicamente, interpretámos mal o briefing do cliente. Entregámos a música, foi rejeitada e aproveitámos para o disco, fazendo, depois, outra cena para o cliente.

[Lunn] Na altura já sabíamos que era um ganda som.

[xtinto] Ya, ya. Mas respondendo à tua pergunta, não tínhamos essa intenção de tornar a cena bué portuguesa, só aconteceu. É normal, eu tenho bué referências de coisas portuguesas que eu gosto. A nível de produção não era essa a ideia.

Qual foi, então, a primeira faixa que gravaram mesmo para este disco?

[Lunn] Cronologicamente, a “Sofá”, não é? Tínhamos aqui alguns sons que acabaram por ir para o álbum, mas já tinham sido feitos antes. 

[xtinto] Ya, a “Sofá” ou a “Bobo da Corte”, há-de ter sido um desses dois sons. E é engraçado porque o “Sofá” foi dos primeiros a ser começado e dos últimos a ser acabado.

[Lunn] Acho que conseguimos perceber pela sonoridade que vem de uma altura um bocadinho diferente dos outros. É um bocadinho mais sinthy, com menos instrumentos e menos orgânico. Ainda assim, nós tentámos sempre incluir alguns instrumentos e guitarras nos outros e nas transições dessas faixas menos orgânicas para que se perceba que são do mesmo universo do resto do disco e para que a sonoridade tenha uma coesão. 

Então qual é que foi a vossa base de pesquisa para criar a soundscape do álbum?

[xtinto] Foi muito à base de hip hop com instrumentais bué orgânicos. Essa vibe de produção com instrumentos e basslines bacanas.

Quando apareceste, eras um rapper talvez mais associado àquele rap “puro e duro”, às barras. Neste momento, diríamos que a tua escrita cresceu bastante no aspeto do songwriting. Como se dá esse processo e como tem sido a tua evolução a nível da escrita?

[xtinto] É um bocado como disseste, passei a ser mais songwriter e menos rapper nesse aspeto da escrita de canções. É uma evolução que queira que acontecesse para que pudesse ter mais pessoas a perceber o que eu digo. Sentia que, muitas das vezes, aquilo que escrevia estava all over the place e não tinha qualquer fio condutor. Começava a falar sobre uma coisa e acabava a falar de outras trinta e tal ao longo do texto. O “Marfim” é um bom exemplo disso; acho que é uma boa peça de escrita e eu orgulho-me dela, mas não é muito coesa. Falo de muitas coisas e misturo muitas coisas ali, algumas delas só mesmo pelo show off lírico e por achar piada à desconstrução silábica das palavras. Agora, foco-me muito menos nisso e muito mais naquilo que tenho para dizer. Quero que, cada vez mais, a minha escrita se pareça com o diálogo que eu tenho a falar com alguém. O processo para lá chegar foi uma luta intensa em que tive que aprender a simplificar muitas das coisas que, anteriormente, tentava tornar complexas. E é fazer isto tudo sem tornar a minha escrita básica. Quero que seja na mesma uma boa escrita, quero apenas que mais pessoas a possam perceber e relacionar-se com o conteúdo, independentemente do estilo de música que estejam habituadas a ouvir ou da geração de que sejam. 

Escrever para outras pessoa ajudou nesse processo? E escrevendo também para outros géneros.

[xtinto] Sem dúvida, isso também me ensinou a simplificar e a adaptar-me.

Abordando agora o título do álbum, que é uma uma frase de uma música do Sérgio Godinho: foi um título que surgiu já no final da criação do disco?

[xtinto] Veio mesmo quando as pessoas já me perguntavam qual é que ia ser o nome do álbum [risos]. Fez-me sentido este título. Já me debatia com esta frase há anos, sempre que a ouvia. Sempre me deixou intrigado. Agora desta última vez que a ouvi chamou-me ainda mais a atenção e vi-a de outra perspetiva. Eu queria morrer para a música e não consegui porque, lá está: “em sonhos, é sabido, não se morre”. Fez-me muito sentido. Também sempre gostei de títulos longos para os álbuns, algo que ficou ainda mais vincado depois de ter vivido de perto o processo de criação do O Lobo Um Dia Irá Comer a Lua, do João Maia Ferreira. Acho bué pausado uma frase dar um título a um álbum. 

E como é que este título se liga com o conteúdo do disco?

[xtinto] Quero deixar isso um bocado em aberto para as pessoas interpretarem, mas, ao longo do álbum, tanto as faixas em que abordo alguns dos problemas que me fizeram entrar naquela fase menos fixe como as faixas mais de intervenção podem sempre ser interpretadas um bocado pelo lado do sonho. Isto para além desta interpretação que lhe estou a dar aqui de morrer para a música. Mas gosto que as pessoas tenham terreno fértil para interpretar à sua maneira.

E a capa? Tem algum conceito maior por trás? Confesso que me levou um bocadinho a viajar e a formular algumas teorias…

[xtinto] A capa do álbum tem uma referência que não vou revelar já. Mas fica aqui o desafio. Há malta que já chegou lá, até porque não é uma referência inalcançável. Pensem no nome do álbum e vão por aí…

Qual é a parte que gostas mais no processo de criar um álbum? A parte da conceptualização e escrita, da gravação ou outra?

[xtinto] A pior parte é esta agora [risos]. A parte de promover e pensar como é que faço o maior número de pessoas ouvir a minha música é mesmo a que me deixa mais desconfortável. A minha parte favorita é responder aos impulsos. Estar no estúdio sem saber sobre o que é que vou escrever e, de repente, escrever duas frases que desbloqueiam tudo. A parte mais fixe é criar, no geral.

Então, no teu processo criativo, dirias que és mais de instinto e feeling e menos metódico?

[xtinto] Sou zero metódico. Respondo, só. Muitas das malhas que tenho surgem a partir de frases que já tinha, outras a partir de “iogurtes” (melodias que fiz com a voz). Há uma música no álbum em que a minha linha de voz começou por ser uma linha de saxofone do Tomás Martin. Não tenho mesmo método, sai como estiver a sentir.

A nível visual, o lançamento deste disco veio acompanhado do videoclipe da “Dividir”. O que é que nos podes contar sobre este vídeo?

[xtinto] A “Dividir” é uma malha que fizemos logo no primeiro camp. Tem produção do Kidonov e tem um primeiro verso e refrão escritos meio que a meias com o L-ALI. O clip em si tem a ideia de base de ser um programa de culinária. Depois, em brainstorm com a Sony, surgiu a ideia de abordar o chef Henrique Sá Pessoa, também por aquela barra que tenho no som. Ele mostrou-se super disponível, aceitou logo e pronto, o vídeo foi para a frente. Mas ya, o conceito é esse de ser um programa de culinária e tem essa cameo. Depois, no final, temos lá a minha malta e estamos mesmo a comer o que estivemos a cozinhar. Faz sentido porque o som fala de dividir nesse sentido de partilha.

És alguém que gosta de estar em palco e de tocar ao vivo?

[xtinto] Ya, adoro. Também é das minhas coisas favoritas. Gosto do estúdio e do palco. No fundo, são as duas coisas que eu, quando era miúdo, achava que eram a música: estúdio e palco. 

Estás agora a preparar o concerto de dia 11 de março, no Capitólio. Como vais traduzir este disco para o momento ao vivo?

[xtinto] Muitas das pessoas que vão estar comigo em palco também estiveram comigo a criar o álbum. Traduzir as malhas para palco vai ser fácil, na medida em que as pessoas que o vão tocar já o conhecem bem e, felizmente, gostam da música que fazemos.


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