xtinto: “2019 foi o meu melhor ano enquanto rapper”

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Mariana Andrade

O passado domingo foi agitado para xtinto. O anúncio de que estaria para breve a edição de “Ébano” rapidamente se traduziu num par de hiperligações que apontavam não só para o videoclipe mas também para Inacabado, o EP de estreia do rapper de Ourém, que tem benji price enquanto produtor de serviço, e a confirmação oficial da sua entrada na Think Music.

Um passo importante na carreira de Francisco Santos, que se apresentou ao mundo com a mixtape Odisseia, criada a meias com DEZ e editada pela Andromeda Records, em 2015. Os tempos que se seguiram foram de alguma incerteza, com a label da Zona Centro a fechar as portas e xtinto a mudar-se para Lisboa, onde já estava também a viver o amigo de longa data benji price, que, apesar do trabalho que vinha a desenvolver para a Think Music, não deixou de ajudar o rapper no seu regresso aos estúdios, servindo ainda como ponte para alguns dos produtores afiliados da turma de ProfJam.



2018 trouxe-nos o canal oficial de xtinto no YouTube, inaugurado com o singleOpus Magnum”. O catálogo pessoal foi crescendo a conta-gotas e, em Setembro passado, já eram cinco as faixas assinadas pelo jovem artista — à primeira amostra juntaram-se “Jurássico Barco”, “Quentin Miller”, “Sangue Novo” (com DEZ) e “Pentagrama”, todos eles amplamente consumidos pela comunidade hip hop em Portugal e agora compilados no EP Ventre, que saiu para as plataformas de streaming logo após a chegada de Inacabado. Em Setembro de 2018 submeteu-se ainda à terapia de VULTO. num tema solto.

Inacabado vai ser apresentado ao vivo na Figueira da Foz, dia 20 de Dezembro, com Lisboa reservada para o arranque do próximo ano. O Rimas e Batidas contactou o MC para falar um pouco sobre o seu trabalho de estreia e da sua união com a Think Music.



Já me tinhas adiantado a ideia de um EP com o benji price, o teu tão aguardado primeiro projecto de originais. Levaste algum tempo a concluí-lo — e acredito que todo esse tempo foi aplicado no aperfeiçoamento dos temas — e ainda assim intitulaste-o Inacabado. Porquê este título? O que sentes que tinhas mais para mostrar e que não conseguiste aplicar nesta primeira investida?

O Inacabado é, na verdade, um projecto de faixas que estavam a um pé de se tornarem obsoletas. As excepções foram a “Ébano” e a “Interlúdio”, que gravámos com a intenção de entrarem no projecto que tenciono lançar em 2020 mas achámos que assentavam bem neste EP, para dar alguma diversidade. São faixas em que também não batemos muito crânio na sua concepção e até contemplámos a possibilidade de as rotular de “demos” a todas elas. Só não o fizemos por uma questão de acessibilidade e estética.

Tinhas anunciado a edição do trabalho para “breve” mas acabaste por fazê-lo no próprio dia em que lançaste o aviso nas redes sociais. Havia essa urgência em ti de fechar este ciclo e mostrar todas as competências que imprimiste nas cinco faixas do Inacabado?

O tweet em que anunciei esse projecto teve tanta adesão que decidi “dropar” logo. Já tinha as atenções voltadas para este drop, então decidimos agarrar isso e correu surpreendentemente bem.

Além de se tratar do teu EP de estreia, este marca também o teu primeiro trabalho no catálogo da Think Music, uma das editoras que mais impacto causa no panorama nacional do hip hop. Sei que não é um “namoro” de agora por isso tenho de te perguntar: o que significa para ti integrar esta equipa e respectivo leque de artistas?

Foi a squad que sempre me acolheu de braços abertos, mais ninguém me abriu portas desta maneira. Quando surgiu o convite por parte do Nelson, benji e Prof, não pensei duas vezes. É um orgulho enorme fazer parte desta team.

Explica-me como funcionou o processo de criação destas músicas. Houve alguma que te tenha sido mais desafiante ou que o resultado final te tenha deixado mais realizado?

São processos laborais completamente naturais. Estúdio com o benji, ouvir uns beats e cuspir.

Queria dar aqui algum ênfase à “Ébano”, até porque foi o tema que escolheste para servir de bandeira deste EP com um videoclipe realizado pelo Billy Verdasca. Sinto que esta é uma das melhores amostras daquilo que tu consegues fazer – aliar um flow intenso às rimas em catadupa numa prestação imaculada em três registos sónicos diferentes, fazendo de ti até, provavelmente, um caso pioneiro no hip hop português a chegar perto do espectro do trance. Explica-me este conceito de “Ébano” e como foi esculpir algo tão singular dentro da nossa cultura musical.

Foi mais um fruto de uma sessão de estúdio completamente normal com o benji. Nesse caso específico estávamos a sentir que faltava algo na faixa para agarrar a malta para além das barras a metro e também não nos parecia a track indicada para espetar um refrão. Felizmente o benji teve esse rasgo de génio e acabou por resultar na perfeição.

Uma mixtape, vários temas soltos (que agora culminaram também no Ventre) e um EP novo. Já li no Twitter que fechaste as contas para 2019, e em grande estilo. Que balanço fazes deste teu percurso e que planos ou metas estabeleceste para ti mesmo para o ano que se avizinha?

2019 foi o meu melhor ano enquanto rapper, superou 2018 e será, com certeza, superado por 2020. Vamos abrir o ano com um concerto de apresentação do EP em Lisboa. Em breve dou mais novidades.


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
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