Sons & Visões (com batida) I

[TEXTO] João Pedro da Costa [FOTO] Direitos Reservados

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O que se propõe aqui não é propriamente uma história do hip hop através de videoclipes, mas apenas um modesto itinerário cronológico por alguns dos seus mais importantes marcos videomusicais. Apesar de alguns capítulos fundamentais da história do hip hop se terem desenrolado “à margem” dos vídeos musicais, um olhar mais atento à forma como, nas últimas quatro décadas, o movimento foi definindo a sua identidade visual e negociando a sua entrada na televisão musical (e, em particular, na MTV) até dominar o pequeno ecrã para depois convergir de forma furiosa para a emergente paisagem mediática digital, poderá fornecer-nos algumas valiosas pistas de leitura não apenas para a sua conturbada relação com a indústria musical, a sociedade de consumo e a doxa, como para a forma como foi simultaneamente incorporando e influenciando sons e imagens de outros géneros musicais.

Desta forma, o principal critério da selecção aqui proposta será musical, apenas se, por “musical”, entendermos não só a componente sonora mas também a visual. É portanto uma viagem multimediática a que aqui se sugere ou não fosse o videoclipe um dos raros formatos capaz de congregar os estímulos orais (rap), sonoros (DJing), físicos (b-boying/b-girling) e visuais (graffiti) que são os alicerces da cultura hip hop.

Mais do que porventura qualquer outro género musical, um itinerário videomusical como o que se aqui propõe torna evidente que “política” (que inclui questões como a segregação racial, a censura ou a misoginia) e “estética” (que engloba problemáticas como o gosto, o cool ou a alienação) não passam de duas propostas indissociáveis para pensarmos um pouco sobre o fascinante processo de legitimação de um dos mais importantes e duradouros movimentos culturais do pós-II Guerra Mundial.

 


 

[BLONDIE] “Rapture”
(Keef, 1981)

Apesar de ter nascido nas conturbadas ruas do Bronx em meados da década de 1970, pode-se dizer que, logo no início da década de 80, o hip hop já se tinha transformado num género comercialmente promissor. As editoras, no entanto, continuavam a não saber o que fazer com um tipo de música que, na época, teimava em ser visto como uma moda passageira. Prova disso é, por exemplo, a famosa recusa da Sugar Hill Records em promover o vídeo que um jovem estudante de cinema da NYU chamado Spike Lee tinha realizado para o tema “White Lines” de Grandmaster Flash (no qual, para tornar as coisas ainda mais surreais, surgia um aspirante a actor chamado Laurence Fishburne).

Era por isso inevitável que tivesse sido um genuíno cavalo de Tróia a marcar a incursão inaugural do hip hop pela televisão musical e que o mesmo fosse levado a cabo por uma banda que, apesar de ter nascido, em meados da década de 1970, no coração da cena punk e new wave nova-iorquina, rapidamente se tornaria conhecida pela forma eclética como incorporava nas suas canções elementos de outros géneros musicais como o disco (“Heart of Glass”), o reggae (“The Tide is High”) e, claro está, o rap (“Rapture”).

“Rapture” não foi apenas o primeiro tema a incluir um rap a chegar ao topo da Billboard, como o seu clipe foi o primeiro vídeo com um rap a passar na MTV, escassas semanas após a sua promissora estreia, no dia 31 de Janeiro de 1981, na mítica série musical televisiva Solid Gold. Apesar de artistas como o já referido Grandmaster Flash, Afrika Bambaataa e Kurtis Blow terem rapado desde meados da década de 70 (e dos The Sugarhill Gang terem furado o top 40 norte-americano com “Rapper’s Delight” em 1979), “Rapture” dos Blondie marca historicamente o primeiro momento em que o rap é incorporado num tema pop, cujo sucesso ficou muito a dever à sua intensa promoção videomusical na MTV. O clipe, realizado por Keef, foi filmado na East Village (Manhattan) e, pormenor importante, num estúdio nova-iorquino onde foi reproduzido o cenário de uma rua de Bronx com artistas de graffiti e cameos de Fab 5 Freddy, Lee Quiñones, Jean-Michel Basquiat e, como não podia deixar de ser, Grandmaster Flash.

Apesar de tanto o tema como o vídeo continuarem a provocar urticária em alguns puristas, é inegável que este é um dos mais importantes momentos inaugurais da progressiva saída do hip-hop do gueto para uma audiência mais vasta: não é por acaso que membros de grupos seminais como Mobb Deep ou Wu-Tang Clan confessaram ter sido “Rapture” o primeiro tema rap que ouviram.

 


https://youtu.be/9lDCYjb8RHk

 

[AFRIKA BAMBAATAA & THE SOULSONIC FORCE] “Planet Rock”
(Steven Murashige, 1982)

Tendo sido um dos pioneiros do movimento hip-hop ao criar no final da década de 70 a Zulu Nation (um colectivo do Bronx formado por dançarinos de rua, artistas de graffiti e rappers), era quase forçoso que fosse uma das mais emblemáticas criações do DJ Afrika Bambaataa a dar origem ao primeiro videoclipe integralmente dedicado ao hip hop.

Se musicalmente o tema inaugurava o estilo electro funk (graças a um cocktail explosivo de samples dos Kraftwerk , Babe Ruth e Captain Sky), abrindo o caminho para a estimulante incorporação de géneros como o techno, o house e o trance, o respectivo teledisco foi o primeiro a documentar de forma precisa (veja-se, por exemplo, o destaque dado logo na abertura a uma t-shirt com o slogan “I Love the Bronx”) a subcultura dos músicos de hip hop, dos artistas do graffiti e dos b-boys/b-girls. Tudo graças a uma energética colagem de imagens oriundas de diversas fontes que dá a ilusão ter sido levada a cabo em tempo real, impondo um registo performativo e documentarista que torna comparativamente pálida a anterior emulação encenada em estúdio para o vídeo de “Rapture” dos Blondie.

Inúmeras vezes copiado, mas jamais suplantado, o vídeo de “Planet Rock” consegue a nada desprezível proeza de traduzir em imagens a euforia dos party anthems e a força da cultura hip hop enquanto elemento agregador ou forma de comunhão não apenas da comunidade negra mas todos aqueles que, independentemente da raça, sexo ou idade, se sentem ainda hoje directamente interpelados pelo “Party people, party people! Can y’all get funky?”.

 


 

[GRANDMASTER FLASH & THE FURIOUS FIVE] “The Message”
(Alvin Hartley, 1982)

São bem conhecidos os méritos atribuídos a “The Message”, um dos mais ubíquos hinos da cultura hip hop: não apenas marcou uma decidida inflexão temática do hedonismo típico dos party anthems para o comentário social (pode mesmo afirmar-se que remonta a este tema a pertinência do famoso “rap is the black CNN” de Chuck D dos Public Enemy), como operou simultaneamente uma decidida mudança de protagonismo do DJ para o MC (e para a qual contribuíram de forma decisiva a utilização de beats mais lentos e a criação de um espaço na mesa de mistura onde as letras se tornaram mais audíveis).

Para além de ser um dos mais antigos vídeos musicais integralmente dedicado ao hip hop, o clipe de “The Message” funciona como uma genuína cápsula de tempo que retrata, sem filtros ou contemplações, a dura realidade das ruas de Nova Iorque. Ciente da necessidade de os vídeos de hip hop estarem ancorados num contexto urbano muito específico e num contexto sócio-económico bem definido, Alvin Hartely optou por filmar uma espécie de itinerário por diversos locais da cidade abandonados pelo progresso e esquecidos por uma sociedade de consumo surda e cega às dificuldades da comunidade negra e a flagelos como o da toxicodependência. O MC Melle Mel pode surgir vestido com uma indumentária (casaco de couro e luvas) devedora a Michael Jackson, mas o cenário é uma esquina bem real das ruas do Bronx e não um qualquer simulacro hollywoodesco como os construídos para os clipes de “Rapture” ou de “Billie Jean”.

Talvez seja este o grande mérito do vídeo de “The Message”: o de ser um veículo sóbrio e eficaz para ilustrar não apenas o conteúdo verbal de um dos primeiros temas do denominado conscious rap (“It’s like a jungle sometimes/ It makes me wonder how I keep from going under”), como para sensibilizar os mais incautos para a beleza surda e poética de imagens de bairro que capturam uma comunidade à época maioritariamente arredada do grande ecrã.

 


 

[HERBIE HANCOCK] “Rock It”
(Godley & Creme, 1983)

Em 1983, dois DJs chamados Lionel Martin e Ralph McDaniels criam no canal de televisão local de acesso público WNYC o programa Video Music Box que acabaria por ter um papel fundamental na divulgação do hip hop ao dedicar-se quase exclusivamente à teledifusão de vídeos musicais de muitos artistas da denominada “idade de ouro” do movimento. Na televisão por cabo, programas semanais como o Video Vibrations (genuíno precursor do famoso Rap City, ambos da BET), o Night Tracks (da TBS), o New York Hot Tracks (da ABC) ou o Video Jukebox (da HBO) começavam, no mesmo ano, a transmitir alguns vídeos de hip hop para os quatro cantos da América. Paralelamente, diversos filmes ligados ao hip-hop começavam a invadir as salas, como é o caso de Wild Style (Charlie Ahearn, 1983), Beat Street (Stan Lathan, 1984), Breakin’ (Joel Silberg, 1984) ou o documentário vencedor do Grande Prémio do Júri do Festival de Sundance Style Wars (Tony Silver, 1983). À medida que o graffiti, o breakdance e o slang das comunidades negras começavam a romper as fronteiras de Nova Iorque, o cerco à teimosia da MTV em ignorar o hip hop tornava-se cada vez mais apertado.

As acusações de racismo apontadas à MTV possuem, de resto, argumentos bem documentados. Nos primeiros anos da sua existência, os únicos artistas negros que a MTV acolheu foram figuras consideradas “inofensivas” como Lionel Richie ou Michael Jackson, ignorando o hip hop de forma quase ostensiva. Os responsáveis do canal, como é óbvio, tinham outra explicação: a MTV apenas se recusava a passar vídeos de figuras pioneiras como Kool Moe Dee, Roxanne Shanté ou Whodini porque os vídeos eram toscos e de baixa-fidelidade; e as editoras, por seu lado, não investiam mais dinheiro na sua produção, porque a MTV não os passava.

O primeiro vídeo hip hop a romper este círculo vicioso criado pela MTV foi o de “Rock It” de Herbie Hancock. Apesar da excelência musical do tema e do facto de Hancock ser, já na época, um popular artista crossover suportado pelo poderio económico de uma major, os méritos da façanha têm de ser integralmente atribuídos à dupla que realizou o clipe. Enquanto realizadores, Godley & Creme eram uns genuínos camaleões extremamente inventivos cujo trabalho, apesar de não possuir propriamente um denominador formal comum, era imediatamente reconhecível pela sua elegância e despojamento. Quando a CBS Records contactou a dupla, eles já tinham no seu currículo uma série impressionante de telediscos que combinavam rigor formalista e capacidade técnica com uma irresistível dimensão lúdica e um apurado sentido de humor (basta dizer que tinham sido eles os realizadores de “Girls on Film” dos Duran Duran, absoluto epítome videomusical do lifestyle glamouroso que marcaria os primeiros anos da MTV) e, por isso mesmo, o briefing resumia-se a uma única frase: “Get Herbie Hancock on MTV!”. Em resposta, os realizadores elaboram uma sinopse e um orçamento no mesmo tom com apenas duas frases que os responsáveis da CBS aceitaram sem discussão: “Herbie Hancock appears on a television screen in a room full of robots. $35,000”.

O vídeo que entraria para a história do formato era, na época, algo de nunca visto: no que parecia ser a casa abandonada de um cientista louco, uma série de esculturas robóticas maníacas (da autoria de Jim Whiting) dançam até à sua própria destruição instigados pela música de Herbie Hancock (que apenas surge de forma muito fugaz num televisor a tocar o tema). Formalmente, o aspecto porventura mais inovador é a forma como Godley & Creme fazem ecoar o scratch de Grand Mixer D.ST nas imagens do vídeo, prefigurando algumas técnicas contemporâneas de VJing e o mais surreal o facto de os responsáveis do canal terem deixado passar cenas em que uma das máquinas se masturba desalmadamente numa cama. O single entraria no Top 100 da Billboard (um feito assinalável para um tema maioritariamente instrumental) e o respectivo vídeo ganharia, em 1984, nada mais nada menos do que cinco prémios na primeira edição dos MTV Video Music Awards, deixando em segundo lugar, com uns míseros 3 prémios, o vídeo de “Thriller”, o mega-sucesso internacional de um jovem artista R&B chamado Michael Jackson.

 


 

[RUN-DMC] “Rock Box”
(Steve Kahn, 1984)

É possível apontar factores musicais e extra-musicais que ditaram o papel absolutamente decisivo dos Run-DMC na entrada do hip hop na MTV. Musicalmente, as razões são óbvias: contrariamente a precursores como Blondie (“Rapture”) ou The Sugarhill Gang (“Rapper’s Delight”) que ancoraram a sua abordagem ao hip hop no disco sound, o duo de Queens assumiu desde sempre que o que fazia era “rock” (e isso, como é óbvio, era música para os ouvidos da MTV). Extra-musicalmente, a aparência dos Run-DMC não era ameaçadora, muito pelo contrário: tinham boa-pinta, eram divertidos, fotogénicos e vestiam-se como personagens de desenhos animados, o que se encaixava na perfeição no horizonte de expectativas da audiência do canal.

Pouco mais de dois anos separam os vídeos de “Rock Box”, “King of Rock” e “Walk This Way” e o conjunto forma, porventura, a mais importante trilogia de telediscos da história do hip hop.

Historicamente, “Rock Box” foi mesmo o primeiro clipe de uma banda afro-americana a passar na MTV e, o mínimo que se pode dizer, é que vídeo fez por isso: tanto o monólogo inicial do Professor Irwin Corey (que dá uma explicação delirante sobre a natureza e a origem da música rap, fazendo tábua rasa do seu problemático contexto sócio-económico), como as poses de Eddie Martinez (a sua guitarra foi a primeira não-samplada a entrar num tema hip hop) ou o miúdo (branco, pois claro) que persegue os Run-DMC (e que pretende ilustrar, com escassa subtileza, o potencial fascínio do duo nas gerações mais jovens) catapultam este vídeo para os antípodas de “The Message” e aproxima-o, visualmente, muito mais da euforia dançante do clipe produzido dois anos antes para “Planet Rock” de Afrika Bambaataa & The Soulsonic Force (dois clipes que, de resto, apenas passariam na MTV na segunda metade da década de 80).

 


 

[RUN-DMC] “King of Rock”
(Joe Butt, 1985)

O vídeo de “King of Rock” tem o condão ser uma alegoria presciente: o museu do rock’n’roll cuja entrada lhes é vedada no início do clipe acabaria por se materializar uma década depois no Rock and Roll Hall of Fame and Museum (para onde os Run-DMC entrariam em 2009). Depois de desprezar ícones como Little Richard, Jerry Lee Lewis, os Beatles ou Michael Jackson, apenas um item do museu merece a aprovação do duo: um televisor que passa o seu primeiro vídeo, “Rock Box”. É, muito provavelmente, o primeiro meta-vídeo a passar na MTV.

 


 

[AEROSMITH FEAT. RUN-DMC] “Rock This Way”
(Jon Small, 1986)

Em “Walk This Way”, uma das obras-primas absolutas do género videomusical, os rapazes de Queens destroem literalmente a parede que os separa do estrelato gozado pelos seus padrinhos do hard rock. Se o vídeo foi originalmente concebido para ilustrar a união entre o rock e o rap, o seu maior simbolismo reside, no entanto, no contraste entre os dois mundos: os Run-DMC estão submersos na escuridão underground, enquanto os Aerosmiths estão banhados pela luz do mainstream. Apesar de ser Tyler quem usa o tripé do micro para abrir o primeiro buraco na parede, são claramente os rappers as estrelas de um vídeo que culmina na forma apoteótica como invadem o palco num concerto da banda de Toys in the Attic para conquistar os seus fãs.

Alguns cínicos poderão apontar o facto de o genuíno factor que une esta fabulosa tríade videomusical ser a presença reconfortante de pessoas brancas. Os mais progressistas, no entanto, não hesitarão em reconhecer que o sucesso dos Run-DMC no panorama televisivo norte-americano demonstrava que o hip-hop estava disposto a tudo para conquistar o pequeno ecrã – para depois fazer dele o que muito bem entendesse.

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