Nada bate um final de semana com previsão de aumento de temperaturas, principalmente quando acompanhado pela indústria discográfica, proporcionando diferentes bandas sonoras para festas em quintais, churrascos comunitários, tertúlias à sombra em jardins ou os apetecíveis mergulhos na praia. Esta semana veio carregada e diversa no que a lançamentos diz respeito e prova disso são os oito discos que por aqui destacamos no decorrer deste texto.
Sintam-se mais do que à vontade para ir mais longe e explorar também o que chegou vindo dos planetas Trista (Cuarto Minguante (Acústico)), António Olaio (If My Heart Had A Brain & Next Stop Is Yesterday), Tipo (Licença), PPJ (Joker), Sexyy Red (Yo Favorite Trappa Favorite Rappa), See You Next Year (SYNY 3 ACT III), NugLife (The Beat Dispensary 4), Red Cafe (Once In A Red Moon), Hedvig Mollestad Weejuns (Bitches Blues), ZAYN (KONNAKOL), Sofia Isella (Something is a shell.), Yves (NAIL), Tezzus & diamond* (UY SCUTI BØYZ), M.I.A. (M.I.7), Los Pulpitos (Tentacletek), NARCY (TO BE AN (ARAB)), Nine Inch Nails & Boys Noize (Nine Inch Noize), Jessie Ware (Superbloom), Eaves Wilder (Little Miss Sunshine), Kathryn Mohr (Carve), Protoje (The Art of Acceptance) e Lucy Liyou (MR COBRA).
[TILT] ESPIRRO
É o álbum de uma vida e o primeiro de (esperamos) muitos mais. Ao longo de mais de uma década, TILT tinha vindo a dosear meticulosos versos por entre inúmeros EPs e projetos colaborativos, mas celebra hoje o lançamento do seu registo de estreia no formato de longa-duração a solo. Como um reflexo natural da sua umbilical ligação ao rap e à cultura hip hop, este importante capítulo na sua carreira só se podia intitular ESPIRRO. São 15 faixas (mais uma extra na criativamente ambiciosa edição física em CD) recheadas de rimas cerebrais que tanto fazem mira aos que envergonham o movimento, como também lhe abrem uma janela no peito que permite ao ouvinte ver a essência escondida por detrás da carapaça de um dos mais irreverentes e cultuados MCs da praça nacional.
[Yaya Bey] Fidelity
Em Fidelity, Yaya Bey oferece-nos uma perspectiva diferente do seu processo de luto, com a sua voz — propositadamente despida de artifícios — a mover-se por camadas de soul, jazz, reggae ou até drum’n’bass. Este sucessor de Do It Afraid fala-nos de “três mortes” que o constituem: a humana (a perda do pai, o rapper Grand Daddy I.U.), a comunitária (a erosão de bairros negros históricos de Queens pela gentrificação) e a da inocência (o desencanto de uma geração criada nas promessas vazias da era Y2K). Assumindo sozinha a produção da maioria das 16 faixas, a artista transforma o estúdio num laboratório de perguntas incómodas, mas fá-lo sem jamais render a tristeza ao silêncio.
[Adrian Younge] Younge
Younge é apontado como sendo a opus magnum do veterano Adrian Younge, compositor, arranjador e produtor com um passado ligado aos A Tribe Called Quest e atualmente head honcho da Jazz Is Dead. Nestas nove faixas, inverte a lógica fundadora do hip hop ao fazer do sample algo que não é extraído do passado, mas criado no presente para ser fragmentado pelo futuro. Younge assume a herança de compositores que trabalhavam nas margens (Schifrin, Axelrod, Morricone) e apresenta-nos uma obra orquestral que respira com a disciplina de quem sabe que a tensão não está nas notas, mas nos espaços entre elas, movendo-se entre a soul cinemática e o jazz-funk, sempre com o sol californiano a rasgar por entre as ondas sonoras.
[MÃO] MÃO
No álbum de estreia homónimo de MÃO, DJ Vibe e Paulo Pedro Gonçalves inscrevem em vinil (o único formato disponível, pelo menos para já) oito núcleos tectónicos de pura energia sónica. Longe de um simples compêndio de geografias, o disco funciona como uma câmara de decantação de memórias colectivas, indo do funk ritualista da Nigéria à propulsão cibernética germânica, do calor melódico brasileiro à névoa da eletrónica que envolve o Reino Unido como um presságio industrial.
[Luar] a beleza de todas as coisas
a beleza de todas as coisas mostra-nos Luar enquanto alguém que se permite habitar o instante incerto entre a intuição e a palavra — um território onde a voz própria surge quase numa espécie de sussurro, como quem experimenta a língua pela primeira vez. As oito faixas deste registo de estreia em nome próprio — após ter colaborado como IOLANDA, Nenny ou xtinto — funcionam como cadernos de apontamentos emocionais em que a fronteira que separa o íntimo do universal se dissolve através de poemas que deambulam entre a rotina e o deslumbramento, embalados por um balanço pop indie e artesanal.
[Cult Of The Damned] SIMONY
Num quarto álbum capaz de rivalizar com a discografia anterior do grupo, os Cult Of The Damned atiram-se a SIMONY como forma de expandir aquele rap arrogante de quem nunca precisou de pedir permissão para ocupar um lugar de destaque por entre o subsolo inglês. Com a produção de Spectacular Diagnostics a fundir o boom bap mais sombrio com laivos de jazz que surgem como névoa entre os prédios de Londres, o LP navega por duas mãos-cheias de temas que retratam a fúria coreográfica dos inúmeros membros deste colectivo organizada por várias camadas.
[Honey Dijon] The Nightlife
Honey Dijon transforma a cultura de clube num organismo vivo que respira pelo suor das caves, pela exuberância do R&B e pela memória de territórios onde a liberdade era frágil, mas absoluta. The Nightlife encara a noite como um santuário e um espaço de refúgio onde corpos queer, negros e marginalizados encontram união contra a homofobia e a rigidez da catalogação humana, e onde a dança se torna um acto de resistência tão ritual quanto urgente. Esse espirito comunitário sente-se também na ficha técnica do projeto, já que as suas 14 faixas incluem um infindável número de colaborações, de Greentea Peng, Mahalia e Rochelle Jorden a METTE, Chlöe ou Madison McFerrin.
[Tokischa] AMOR & DROGA
Tokischa chega ao álbum de estreia não como uma promessa de futuro, mas sim como uma pequena estrela que já conquistou o seu espaço pelo sem-número de singles e participações que foi amealhando ao longo de quase 10 anos de carreira, que contempla êxitos planetários como “Ride or Die” (com SEVDALIZA), “Chulo pt.2” (com Bad Gyal) ou “LA COMBI VERSACE” (com ROSALÍA). O título AMOR & DROGA é como uma tese para demonstrar como os sentimentos e as substâncias químicas muitas vezes se podem confundir numa mesma equação. Musicalmente, Tokischa vai do tradicional dembow em estado cru até à pop eletrónica, contando com a ajuda de produtores como Om’Mas Keith, Sir Dylan ou Skrillex nesse processo.