Sensei D. sobre The C-Beat-D Tape: “Quis criar uma banda sonora ‘canábica’ que fosse didáctica e desmistificadora ao mesmo tempo”

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Diana Forte

The C-Beat-D Tape é a sessão de terapia alternativa que Sensei D. nos acaba de prescrever. DarkSunn, DJ X-Acto, Dead End, Maria, Trauma e PRYM3 ajudam nesta curandice musical do produtor.

Acender, puxar, travar e descontrair. O mais recente trabalho de David Alves dá um novo apoio à tentativa de legalização da cannabis, uma planta com efeitos medicinais comprovados mas que ainda gera alguma desconfiança entre a sociedade no seu todo, no nosso país. Debates à parte, The C-Beat-D Tape pretende emular os efeitos relaxantes da CBD, substância contida na verdura mais idolatrada pela comunidade hip hop desde a sua génese.

O novo conjunto de instrumentais assinados pelo beatmaker de Sesimbra sucede a The Lost MPC Archives, de 2018, que colocou um ponto final na sua longa relação monogâmica com o lendário artefacto da AKAI, que agora usa como complemento para a produção digital desenvolvida no Ableton Live, uma das ferramentas mais queridas entre os produtores da actualidade. Dois anos antes, Sensei D. estreava-se nos álbuns com Vivificat, um ambicioso trabalho que o levou a colaborar com nomes como NERVE, Beware Jack, Slaine, Valas, Fuse ou Karlon.



Fala-me do contexto em que desenvolveste esta The C-Beat-D Tape. O que te levou a dedicar um conjunto de instrumentais ao culto em torno da planta da cannabis?

Agora que começa a pairar no ar a discussão da legalização, ainda existe uma grande maioria que considera a cannabis um tabu. E como sempre, por falta de educação ou puro desconhecimento, muita gente nem sabe a diferença entre cânhamo e marijuana, THC e CBD, e toda a vastidão de características que a planta tem para além do seu componente psicotrópico. Então achei que seria um modo interessante de abordar o assunto, que deste modo, instrumental, pode ser ouvido/”consumido” por consumidores e não-consumidores. Mas a minha principal a intenção foi dar um olhar sobre a planta não como uma substância psicotrópica, mas sim a profunda relação e história (ocultada) que a humanidade tem com ela, as razões que levaram à sua proibição, assim como todos os seus benefícios medicinais e industriais. Ou seja, quis criar uma banda sonora “canábica” que fosse didáctica e desmistificadora ao mesmo tempo.

No anúncio que fizeste recentemente no Facebook fazes um breve resumo da história que liga esta substância à humanidade. Se olharmos para a cultura do hip hop, o seu consumo tem sido banalizado desde os primórdios. Que ponte estabeleces entre os princípios activos da cannabis e o processo criativo de um artista?

Em relação ao consumo ser banalizado na nossa cultura, é verdade. Desde que me lembro de ouvir rap que me lembro de ouvir dicas/referencias de fumo/weed/etc. Mas sendo que o hip hop é um “filho” do jazz e do funk, géneros em que a marijuana já proliferava, é normal que o consumo já venha dai. Mas daqui gostava de salientar dois pontos: a moderação é a chave para tudo. A cannabis, como qualquer outra droga, tem de ser moderada e “calculada”, tal como o álcool, o tabaco, o café, o açúcar. Sim, estes últimos exemplos são drogas também. E a meu ver a quantidade de consumo e a exaltação desse consumo não faz ti de um melhor artista, obviamente. E no que toca ao envolvimento da cannabis no processo criativo, varia de pessoa para pessoa, assim como o efeito de cada droga varia em cada pessoa/organismo. Uns preferem no início, outros a meio, outros no fim, outros preferem nem tocar nisso. Pra uns é um estimulante, para outros uma “pausa”, para outros uma “sobremesa” depois do processo criativo. Se estiveres sozinho em estúdio é uma coisa, com o estúdio com mais gente é outra…

Se olharmos para o título do teu projecto anterior, que consistiu numa compilação de faixas “perdidas”, facilmente imaginávamos o fechar de um ciclo na tua carreira, provavelmente apontando para uma mutação no teu som ou na forma como trabalhas os teus beats. Houve algum upgrade no teu mindset ou no teu equipamento (hardware/software) que te tenha levado a fazer as coisas de forma diferente?

Sim, eu há uns tempos passei do workflow da MPC para o Ableton, mas continuo a trabalhar com a (minha inseparável) MPC ligada ao Ableton. Isso aconteceu porque quis começar a explorar outras sonoridades (e poderão talvez reparar nisso nalguns projectos futuros), expandir-me a outros horizontes, já que no caso da MPC 2000 XL tem as suas “limitações”. Quis fazer “mutações”, tal como disseste. Então, com base nisso, decidi deixar esse registo de beats que ficaram “perdidos” nos “arquivos” da MPC, daí o título The Lost MPC Archives.

De que forma esculpiste estes instrumentais? Juntam-se a ti nesta viagem ainda alguns convidados, alguns deles com os quais te cruzas musicalmente pela primeira vez. Como foram trabalhados estes temas e com que desafios é que te deparaste ao trazer para o teu universo nomes que, à primeira vista, podiam até soar distantes?

Alguns já os tinha e sabia que iriam encaixar na temática, outros fiz para a beat tape de propósito. No caso dos produtores convidados, em alguns casos já tinha uma base, que enviei e eles fizeram o flip deles. Noutros fomos trabalhando-o em conjunto. Por exemplo no caso dos PRYM3 fizemos o beat do zero juntos no meu estúdio. Em relação aos “desafios”, não houve muitos, antes pelo contrário. Com o Ableton a passagem e modificação de ficheiros é super fácil (ao contrário da MPC) e de resto, além de sermos produtores, somos todos grandes homies. No final, com a criatividade junta, o resto sai fluído! Talvez eu já tenha sido rotulado como produtor só de boom bap, mas na verdade eu sou bastante ecléctico e daí querer fundir outros estilos!

Em que fase te encontras como produtor e como classificas o que estás neste momento a preparar para nos apresentar?

Sinceramente, esta beat tape foi mesmo só um side project, os outros principais estão em execução neste momento. Acho que há algumas coisas em que estou a manter o meu registo e noutras estou a explorar novas sonoridades. Tenho dois projectos em mãos: num mantenho mais a linha a que os ouvintes já estão habituados e noutro estou a fazer músicas com sonoridades diferentes. Ao juntar o Ableton e a MPC, há outras hipóteses de manipulação de samples, adicionar VSTs e synths, e isso origina coisas novas, naturalmente. O que talvez considere a maior diferença é que neste momento não estou a trabalhar numa “compilação” com várias pessoas, num só projecto como tenho feito nos EPs e álbuns passados. Estou a seleccionar um artista ou um grupo e estou a produzir um projecto inteiro executivamente.


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira