Vivificat de Sensei D: uma escuta a quente e faixa a faixa

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Foi lançado na noite de segunda-feira, 7 de Novembro, o esperado disco de Sensei D.. Vivificat conta com inúmeras participações de rappers portugueses e estrangeiros e está recheado de pormenores enriquecedores e vários samples falados. “Hoje deixo-vos o meu mais recente trabalho Vivificat, um álbum que levou três anos da minha vida a executar, onde tudo foi feito até ao mínimo detalhe e onde pus TUDO de mim como um reflexo”, escreveu o beatmaker no seu Facebook.

O disco tem os scratches de DJ X-Acto, foi misturado por Pass One e masterizado por Gustavo Freitas de Carvalho. Vivificat está à venda em edição física, por encomenda, e disponível nas plataformas digitais. Além disso, o produtor lançou um site onde colocou todos os seus trabalhos anteriores disponíveis para download gratuito.

Aqui fazemos uma escuta a quente e faixa a faixa do álbum que acabou de ser editado.

 


[“Vivificat” (feat. Puro L)]

Um começo que, apesar de ser uma faixa completa, soa como uma intro para este disco e para a entrada na mente de Sensei D.. Um instrumental enigmático ao início, como se estivéssemos a entrar numa caverna profunda (e imprevisível), acompanhados pela voz hipnótica de Puro L que nos guia até à luz — quando começa, de facto, a rappar. O instrumental é complexo e simples em simultâneo, apresenta-se de forma tranquila mas tem a energia suficiente para nos deixar agarrados e com a cabeça a oscilar lentamente. É a entrada em Vivificat.

 


[“Zero Dúvidas” (feat. Beware Jack)]

A segunda faixa leva-nos para caminhos mais soalheiros, com vários elementos funky a resplandecer no instrumental, enquanto ouvimos Beware Jack no seu estilo característico, com o seu próprio ritmo e “arte clandestina”. Prestes a chegar ao fim, Bambino aparece para deixar um lema de vida. E, espera, quem é este? É a voz de João Tamura? Sensei D. a surpreender e a colocar convidados diferentes e não (directamente) creditados para rechear os instrumentais.

 


[“Era uma Vez” (feat. RealPunch)]

Faixa em modo suspense, num registo de banda sonora meio acelerada a servir de bandeja para as rimas de um dos mais talentosos algarvios a fazerem rap, RealPunch, por cima de um baixo gordo.

 


[“Regras” (feat. TNT)]

“Chillin'” é a primeira palavra que TNT solta na faixa e é igualmente a primeira sensação que “Regras” nos dá. Um tema embalador, com baixo forte e dedos a estalarem, que se torna mais intenso quando a percussão é introduzida e nos obriga a reagir corporalmente à batida. O tapete rolante macio perfeito para a voz e versos do rapper da Mano a Mano.

 


[“Renasci” (feat. Karlon)]

Tal como nas mixtapes à antiga, nem sentimos quando “Regras” passa a “Renasci” e de repente levamos com as rimas potentes de Karlon em crioulo, e um beat banger com um magnífico sample de fundo. Está aqui uma das melhores sessões de scratch que X-Acto nos proporcionou neste álbum. No fim: uma pérola do icónico José Mariño a anunciar na emissão que “há mais a caminho”.

 


[“Steel Intellect” (feat. Stig Of The Dump)]

O narrador João Tamura está de volta e introduz o tema com o primeiro convidado internacional do disco, o inglês Stig Of The Dump. Rimas duras potenciadas pelo sotaque britânico do rapper, de soqueira hooligan na língua. Hip hop boom-bap intenso, com um loop pesado, inquieto e orquestral.

 


[“When Fear Knocks” (feat. Slaine)]

A seguir vem Slaine, MC de Boston pertencente aos La Coka Nostra. Hip hop hardcore do lado do oceano onde tudo começou numa colaboração incrível com Sensei D.. O beat é bom, muito bom, e parece ter sido feito para a voz do rapper a que agora pertence. Real, puro, negro, forte — parece que veio directamente do covil de Ra’s Al Ghul ou dos templos orientais de Shaolin.

 


[“Eu Não Era Assim” (feat. Valas)]

Um piano jazzístico suave e tranquilo introduz-nos ao tema com Valas, antes de vir uma batida e um sample delicioso de fundo. Depois, o rapper leva-nos por uma curta mas aparente longa e despreocupada viagem dentro do álbum de Sensei. Estamos mergulhados nas profundezas da caverna de Vivificat e já nem pensamos em sair.

 


[“TeRAPia” (feat. Gab)]

A música menos conseguida do disco. Conseguimos ouvir os “brilhos” meio agoniantes e os “bling blings” de mau gosto no instrumental desta faixa onde, pelo contrário, o rapper não é brilhante. Tamura aparece outra vez, já num beat diferente e de qualidade bem superior, antes de se emancipar no tema seguinte. (Nesta fase, quase que nos apetece pedir ao rapaz que faça um disco com L-Ali ou Secta neste tom de voz. E com Sensei D. a assinar as batidas!)

 



[“Brightly Night” (feat. Nerve, João Tamura e Noiserv)]

Um início estrondoso com Nerve, como sempre num estilo poético, irónico, satírico, excelente, meio-falado e semi-alucinante, acalmado posteriormente pela serenidade de Noiserv, na sua estreia num álbum de hip hop. São os dois complementados pela poesia magistral de um rapaz que escreve como gente grande, João Tamura. O instrumental minimalista é ideal para esta mesa para três, não dá voltas e serve para todos eles. Uma das melhores do álbum.

 


[“Um Dia Novo” (feat. Kappa Jotta, Fuse e Ruste Juxx)]

O single que já conhecíamos. Kappa Jotta, o “grandioso” Fuse no refrão e o nova-iorquino Ruste Juxx “all together”. Um instrumental hyped que nos transporta para um ringue de rua onde os punhos são rimas e os adversários ouvintes. O ex libris das colaborações deste disco, juntando os subúrbios de Lisboa ao Porto e a Nova Iorque. Tudo vindo da mente de um produtor que cresceu em Macau!

 


VIVIFICAT_cover

Ricardo Farinha

Ricardo Farinha

Jornalista. Colabora desde os 18 anos com várias publicações culturais — as rimas e batidas sempre foram inerentes à vida.
Ricardo Farinha