SBSR: a ‘hip-hop party’ dos De La Soul e a celebração das batidas no palco Carlsberg

[TEXTO] Ricardo Farinha [FOTOS] Hélder White

Sobre o último dia do Super Bock Super Rock, já se escreveram muitas páginas e se gastou muita tinta – mesmo no nosso mundo digital – e já sabíamos que o dia iria ser de alguma forma histórico, tanto pela presença esmagadora do hip-hop no dia definitivamente mais apinhado desta edição do SBSR, ou pelo (muito) esperado concerto, no auge da carreira, de Kendrick Lamar.

A festa, porém, aqueceu – e bem – ao som dos old-school De La Soul, que também foram elogiados por K-Dot em palco, referindo-se ao grupo de Posdnuos, Maseo e Dave como uma forte inspiração, principalmente no disco mais jazzy e soulful To Pimp A Butterfly.

Como Maseo já tinha adiantado ao Rimas e Batidas, os De La Soul regressaram a Portugal para fazerem uma festa – e que festa –, uma hip-hop jam party a celebrar as rimas, as batidas e a carreira notável do trio de Nova Iorque. E nunca se desviaram por um segundo do seu objectivo. Sem truques ou inovações, sem plano de fundo ou instrumentos, simplesmente um DJ/MC atrás de uma mesa com dois gira-discos e dois rappers de microfone em punho. O formato ao vivo standard do hip-hop a provar que (ainda) consegue fazer maravilhas e ser relevante, mesmo num palco tão gigante como o MEO Arena e aparentemente tão despido.


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Além de rappers intérpretes, Posdnuos e Dave foram, na sua verdadeira essência, MCs, ao animarem a imensa multidão, composta na maioria por um público provavelmente demasiado jovem para conhecer e ter acompanhado a carreira dos De La Soul. “Ponham as vossas câmaras para baixo, isto é uma festa”, começaram por dizer, e o público por aplaudir e sorrir. A ordem para aproveitar o concerto continuou a ser firmemente veiculada e até se estendeu aos fotógrafos que estavam no fosso do MEO Arena precisamente para tirar fotografias. “Put your motherfuckin’ cameras down”, disse um dos rappers norte-americanos. “Eu sei que estão a trabalhar, mas parem um bocado e aproveitem”. Podemos assegurar que o fotógrafo do Rimas e Batidas, Hélder White aka Dedy Dred, foi aquele que mais vibrou a partir do fosso, na primeiríssima fila do antigo Pavilhão Atlântico.


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Pelo meio, houve ainda espaço para uma battle amigável entre o público, dividido ao meio e comandado pelos dois rappers, num intervalo grande entre clássicos como “Oooh”, “Potholes in my lawn”, “Ring Ring Ring” ou “Me, Myself And I” – e até o tema partilhado com os Gorillaz, “Feel Good Inc.”, foi interpretado no SBSR. “Nós amamo-vos, Portugal. Mesmo. Gostávamos de vir mais vezes cá”. Façam favor!


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No fim, os veteranos De La Soul mostraram que conseguem pôr uma imensa plateia a dançar, abanar os braços e gritar, sempre ao seu comando, mesmo para aqueles que não os conheciam mas que decerto ficaram impressionados com a pujança ao vivo e a boa disposição deste conjunto que se prepara para editar And The Anonymous Nobody, o primeiro álbum desde 2004, em Agosto – como Maseo contou ao Rimas e Batidas esta semana.

A performance de Kendrick Lamar, já sabemos, foi incrível. 20 mil pessoas a vibrar completamente pelo esperado regresso em força do MC de Compton a Portugal. No fim, todos aqueles que ainda não estavam demasiado cansados tiveram forças para se dirigirem ao palco Carlsberg, para uma noite longa e em festa.


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DJ Ride actuou primeiro com banda e apresentou alguns temas do seu último disco, From Scratch, e tomou depois conta dos pratos (já sozinho em palco) como poucos (ninguém?) em Portugal conseguem fazer. Há electrónica, trap, clássicos hip-hop, drum n’ bass e muito scratch, dance-se o que se quiser. Ride é um dos mais versáteis neste (e noutros) campeonato(s) e, além dos característicos vídeos projectados para animar o set – com a célebre arte do video-scratching – pudemos assistir à mestria técnica de turntablism do DJ das Caldas da Rainha.


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A encerrar definitivamente o festival, Batida – em formato DJ set e com vários dançarinos em palco, a puxar pelo público – e o alemão Daniel Haaksman, trataram de fundir as batidas com os ritmos quentes de África ou da América do Sul, para os últimos passos de dança no Super Bock Super Rock, que já acabou de manhã. Para o ano não podemos pedir um dia melhor do que este.

Ricardo Farinha

Ricardo Farinha

Jornalista. Colabora desde os 18 anos com várias publicações culturais — as rimas e batidas sempre foram inerentes à vida.
Ricardo Farinha