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Fotografia: Hugo Santos

Precisam de um pouco de funk moderno?

SaiR: “O Fractions veio reavivar a minha filosofia da liberdade e despreocupação”

Fotografia: Hugo Santos

Um mestre no seu ofício, assim se posiciona Ruben Allen, mais conhecido como SaiR, na criação de batidas e imaginários neo-funk. Nome destacado desta cena portuguesa, o produtor lançou o seu mais recente álbum, Fractions, no passado dia 23 de Maio, aproximadamente um ano depois do seu anterior LP, Becoming.

A versão física será editada pela Omega Supreme Records, responsável pelo seu EP de estreia, no próximo dia 12 de Junho. Ao sabor das nove propostas do álbum, a “refinada mente” de Ruben deu-nos a conhecer um pouco melhor a sua mais recente mostra de criatividade.



Fractions vem no seguimento de Becoming (álbum) e Watercolors (EP), ambos lançados no ano passado. O que inspirou este disco?

Este álbum veio reavivar algo que para mim se diluiu no tempo, a filosofia da liberdade e despreocupação. Quando comecei o projeto SaiR tinha esse conceito como premissa mas, com o tempo, fui-me tornando demasiado matemático. Tinha a necessidade de encontrar teorias e regras para cada secção ou elemento da música. No entanto, sem me aperceber, criei uma caixa para o meu trabalho, e recentemente cheguei à conclusão de que a música não pode existir nestas condições. Mais do que teorias e técnicas, a música tem de ser livre para respirar e se expandir. A mistura de estilos e das influências de vários géneros permitiu-nos ter a variedade musical que felizmente ouvimos hoje em dia, e quero que isso se reflicta na minha música.

Fractions foi feito com total despreocupação. O trabalho foi fluído e as ideias que tive no momento da composição foram as que levei para a gravação, sem pensar demasiado sobre as mesmas.

Na tua linha de lançamentos, Fractions destaca-se na produção — mais aveludada que a dos anteriores, a mistura não tem tantos maneirismos característicos dos 80s. O que levou a esta mudança na produção? Foi propositada?

Foi propositada, fruto da forma como encarei este disco. É verdade que tinha certos maneirismos característicos dos anos 80 muito vincados, e que fazia questão de incluir (ainda o faço, em porções mais comedidas) mas, por mais que me sinta influenciado musicalmente por essa época, já não a estamos a viver, e quero que isso transpareça. Quero mostrar que essa música foi muito importante e que ainda vive, mas que se pode apresentar de formas diferentes, mais actuais, mais evoluída ou com mutações talvez.

A mistura do disco também segue uma tendência mais moderna. Destacam-se as batidas e as linhas de baixo proeminentes, com o resto dos instrumentos a serem encarados quase como adereços.

Outra diferença relevante é a ausência de guests. Na nossa entrevista anterior, disseste que convidaste os cantores de Becoming “pela experiência e curiosidade em ver como [a combinação] resultaria para o público.” Sentiste que para agora esse contributo não seria proveitoso?

As parcerias do meu último disco foram interessantes e proveitosas. Compreendo que o público tenha preferência por música com voz e letra, o que dita se a música vai ou não passar na rádio. Mas, ao mesmo tempo, sou um apaixonado por música instrumental e acredito que se deveria ouvir e fazer mais.

É possível ouvir “palavras” e “frases” nos instrumentos. Cada um deles fala, e a música torna-se numa conversa entre eles. Se ouvirmos desta forma, a perspectiva muda radicalmente. Além disso, quando existe uma letra, esta acaba imediatamente por ditar o assunto, quase que diz como nos devemos sentir, o que é algo castrador. Na música instrumental, cada pessoa sente-a e interpreta-a à sua maneira, e aquilo que pode transmitir alegria e energia a alguém pode transmitir tristeza e melancolia a outra pessoa. Esta imprevisibilidade tem, para mim, um enorme encanto.

Não estou com isto a dizer que uma é melhor do que a outra, estou só a defender a minha visão. Gosto imenso de música instrumental e quero continuar a ser, essencialmente, um promotor da mesma.

E qual a tua abordagem para criares essas “conversas” entre instrumentos? Escreves as notas da melodia como na composição mais tradicional, ou procuras as melodias “certas” por ouvido?

Sempre por ouvido. Gosto de ter a mente limpa e deixar as mãos trabalhar, quase de forma independente. Os “erros” são bem-vindos, alguns até são os que tornam a música boa. Para mim é importante ouvir o lado humano da música e acho que a imperfeição é uma coisa bonita de se sentir. Mantém a música natural e como parte de nós, não como um produto sintético.

No ano passado, lançaste dois remixes fantásticos, “A Musa” (do Maze) e “Drinks Promise Better” (de Mirror People & Da Chick). Podemos ouvi-los no álbum de alguma forma?

Sim. Quando abordo uma remistura, faço sempre uma música “minha”, com a minha sonoridade e identidade. Às vezes uso algumas pistas instrumentais da música original, mas a maior parte das vezes uso apenas a voz.

No caso de “A Musa” foi um pouco diferente. Sendo eu o compositor do tema original, agora, quando o remisturei, inverti o processo criativo, ou seja, construí a música em torno da voz. A voz e a letra ditaram o ritmo e a identidade do instrumental.

O Juno 106 continua a dominar o álbum, como dominou no Becoming?

Pode-se dizer que sim. O Juno 106 é uma máquina inacreditavelmente versátil que em cada som que produz deixa uma assinatura rica e característica da década de 80. Este sintetizador ainda me consegue surpreender. Cada vez que lhe dou atenção, consigo programar algum som propulsor de novas ideias.

Ao mesmo tempo, tenho vindo a aprofundar o meu interesse por outros instrumentos, como a guitarra, percussão, metais e outros, que poderão vir a tomar mais espaço nas composições. Pretendo explorar mais os ritmos tocados na bateria, apesar de ter uma queda especial por caixas de ritmos. Não sei como será o caminho daqui para a frente mas sinto que as possibilidades são imensas.


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