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Run The Jewels

RTJ4

Jewel Runners / BMG

Texto de Alexandre Ribeiro

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O contexto é tudo. Quando saiu o álbum de estreia dos Run The Jewels, em 2013, o hip hop norte-americano vivia um período de grande fulgor criativo: Nothing Was The Same (Drake), Acid Rap (Chance The Rapper), Yeezus (Kanye West), Doris (Earl Sweatshirt), Old (Danny Brown), LONG.LIVE.A$AP (A$AP Rocky), Wolf (Tyler, The Creator), Twelve Reasons To Die (Ghostface Killah), Albert Einstein (Prodigy & The Alchemist), Watching Movies With Sound Off (Mac Miller), The Night’s Gambit (Ka), Because The Internet (Childish Gambino), Marci Beaucoup (Roc Marciano) e 7 Days of Funk (Snoopzilla & Dâm-Funk) são alguns dos sólidos argumentos para se olhar para esse ano como um dos mais importantes da década. No entanto, o que existia em RTJ era diferente de tudo o resto, o que acabou por ser uma premissa fulcral para estabelecer bases fortes para um percurso duradouro.  

No meio de tanto barulho, os dois veteranos (com provas mais do que dadas a solo, e ambos à beira dos 40 anos) reuniam as condições para agradar a gregos e troianos — traduza-se para algo que novos e velhos, alternativos e clássicos possam gostar. RTJ seria aquele grupo que mostraria a um hip hop head que parou nos 90s se quisesse explicar-lhe que o rap continua a ter o mesmo valor, mas também serviria para mostrar aos adolescentes que cresceram envolvidos noutro tipo de som que também existe coolness em rappers menos jovens e mais batidos. 

Jaime Meline e Michael Render não tiveram dificuldades em convencer a crítica especializada a alinhar nas suas ideias e o público seguiu as mesmas pisadas. Era tão difícil ignorar o poder dos instrumentais (uma depuração calculada de El-P em relação ao que lhe tínhamos ouvido anteriormente, passando a valorizar o formato canção na sua acepção mais pop) como fácil constantar que a química inabalável dos dois MCs já tinha sido testada (mais propriamente através da troca de “favores” em R.A.P Music e Cancer 4 Cure, os primeiros vislumbres do que seria uma bem-sucedida empreitada a dois). Existia, definitivamente, pujança de sobra nas suas canções para se encherem estádios com hinos hollywoodescos — e, diga-se, começar os seus concertos com “We Are The Champions dos Queen” é um flex bem maior do que usar a joelharia mais cara, ainda para mais quando o restante repertório não ficava aquém dessa entrada triunfal… Ah, e viveríamos num mundo certamente melhor se tivesse sido o duo a assumir as duas datas de Ed Sheeran, em 2019, no Estádio da Luz. E nada contra ruivos, pode-se garantir deste lado.  

O quarto volume desta odisseia gloriosa é o primeiro disco dos RTJ gravado sem Barack Obama na Casa Branca, que foi substituído pelo inqualificável Donald Trump em 2017. E o que é que isto significa? À primeira vista, maior urgência no ataque ao establishment; maior ferocidade na hora de se abordar o microfone e uma vontade enorme de se dizer tudo — o futuro, incerto como sempre, mas menos iluminado do que o habitual, parece fugir cada vez mais do controlo. Ou não. A verdade é que os MCs sempre soaram agressivos e combativos desde o primeiro segundo da primeira música da sua discografia em conjunto, o que nos compele a olhar com atenção para a importância da conjuntura que rodeou o presente lançamento: pessoas nas ruas a protestar contra novos abusos de poder (capturados em vídeo) da polícia no meio de uma pandemia não é cenário de filme, é mesmo a realidade. E, em “walking in the snow“, Killer Mike, que escreveu este verso em específico sem saber que o passado voltaria para assombrá-lo num vídeo de oito minutos e quarenta e seis segundos, cristalizou esse sentimento de impotência que, pouco depois de ter saído, se tornou rapidamente num dos bálsamos das manifestações

“They promise education, but really they give you tests and scores
And they predictin’ prison population by who scoring the lowest
And usually the lowest scores the poorest and they look like me 
And every day on the evening news, they feed you fear for free
And you so numb, you watch the cops choke out a man like me
Until my voice goes from a shriek to whisper, ‘I can’t breathe’
And you sit there in the house on couch and watch it on TV
The most you give’s a Twitter rant and call it a tragedy
But truly the travesty, you’ve been robbed of your empathy
Replaced it with apathy, I wish I could magically
Fast forward the future so then you can face it
And see how fucked up it’ll be”

A poesia está muito longe de terminar nesse pedaço de alma que salta fora a meio do longa-duração. Entre muitos exemplos, leia-se (e vão ouvir, se fizerem favor) as seguintes linhas de El-Producto na última faixa: 

“I used to wanna get the chance to show the world I’m smart (Ha)
Isn’t that dumb? I should’ve focused mostly on the heart
‘Cause I seen smarter people trample life like it’s an art
So bein’ smart ain’t what it used to be, that’s fuckin’ dark
You ever notice that the worst of us have all the chips?
It really kinda takes the sheen off people gettin’ rich”

Existem frases que só se podem escrever com uma certa bagagem e é isso que vemos aqui — na primeira explica-se o que significa ser negro nos Estados Unidos da América e na segunda desmonta-se a ideia de que riqueza é sinónimo de felicidade. O impressionante reside na forma como o fazem — se não ficam rendidos ao valor do que se canta, tirem algum tempo para analisarem os esquemas rimáticos — e também na capacidade de não soarem repetitivos, tendo em conta que estas são temáticas recorrentes na sua obra. Em 2015, numa entrevista ao Rimas e Batidas a propósito da sua passagem pelo NOS Primavera Sound, Killer Mike dizia que o rap era para famintos. Juntem, então, fome, sapiência e técnica e têm o trio mais perigoso na hora de conjurar as forças mágicas do rap. Não é para todos lançar quatro LPs fantásticos em sete anos e não se denotar cansaço, monotonia ou esgotamento de energias e vontade. 

As palavras são importantes mas dificilmente se faz boa música sem uma cama instrumental que aguente o peso do que se diz. Há o terramoto industrial (com um pouco de trip hop nos pormenores) logo à entrada, em “yankee and the brave (ep.4)”; a reminiscência à golden era com Greg Nice e DJ Premier no singlehit à primeira que é “ooh la la”; embebida em graves, a bombástica “JU$T” dá-nos um refrão orelhudo de Pharrell Williams e um verso do poeta mais incendiário que é Zack De La Rocha como se ambos tivessem nascido para coexistir no mesmo plano; as duas últimas do LP, “pulling the pin” e “a few words for the firing squad”, são purga espiritual que se alimenta da construção/colagem instrumental de El-P — a utilização dos multi-instrumentistas (e irmãos) Wilder Zoby e Little Shalimar para criar um arquivo de samples em que mais ninguém toca é imprescindível na construção da sonoridade RTJ. Acrescentem Mavis Staples, Josh Homme e um fraseado apocalíptico de saxofone de Cochemea Gastelum a isto e têm a solução para expulsar todos os demónios, mesmo que seja só temporariamente. 

El-P e Killer Mike eram, em 2013, tão bons, assertivos e belicosos na caneta e na produção como o são agora. A humanidade também se mantém relativamente na mesma (balançando para melhor ou pior consoante os ventos). E é isso que torna, sem excepção, todos os discos (que são, na sua génese, tão de Atlanta como de Nova Iorque, tão Rage Against The Machine e Public Enemy como Company Flow e Outkast, tão inovadores quanto revivalistas) cruciais para servirem de arma de arremesso para as batalhas diárias contra o racismo sistémico e as injustiças sociais. E são tão relevantes e importantes porque o mundo não saiu de um ciclo vicioso e destrutivo que perpetua morte, preconceito e injustiça. Enquanto isso acontecer — e, sem sermos melodramáticos, não estará para breve, parece-nos –,  há algum conforto em perceber que existe alguém a dar-nos música que é o mais honesta e directa possível sem soar condescendente. Quando tudo falhar e a escuridão se apoderar de tudo, poderemos sempre confiar nos Run The Jewels para voltarmos à luz.


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