Run The Jewels: “O rap é para os famintos”

 

[FOTOS] Ricardo Miguel Vieira

 

Os Run The Jewels de El-P e Killer Mike são uma combinação improvável: oriundos de duas zonas muito distintas do rap – a fértil cena de Atlanta que deu ao mundo UGK e OutKast, por exemplo, e os subterrâneos mais experimentais de Nova Iorque, por outro -, ostentando culturas, cores, percursos e estilos diferentes, o duo conseguiu, ainda assim, a proeza de gerar um par de assombrosos álbuns que os afirmam como uma força a ter em conta no criativo mapa rap contemporâneo. Mike e Jaime falaram, à margem do NOS Primavera Sound, no Porto, sem papas na língua sobre a cultura que os move, que os apaixona e que os suporta. E também de Meow The Jewels, o projecto que se segue.

 

Não sei se repararam, mas vocês são os únicos rappers neste cartaz.

[Killer Mike] Sim, até foi a minha mulher que me chamou a atenção para isso.

E será que o organizador percebeu que vocês não trazem guitarras…?

[El-P] Ah, mas nós trazemos guitarras. O Mike tem uma guitarra de três braços…

[KM] Sim, eu sou o Jimmy Page do rap.

Vocês estão um bocado a reescrever o livro: há uma regra mais ou menos invisível que diz que o rap é coisa para miúdos, mas vocês são homens feitos, com uma longa carreira que agora finalmente chega ao grande público…

[El-P] O rap é para dope shit. O rap é para música do caraças. Por isso, sim, estamos a mudar as coisas.

[KM] E sabe bem, esta posição é confortável.

[EL-P] Nós mantivemo-nos sempre insatisfeitos, sempre com fome, tentámos sempre manter-nos na vanguarda desta cena, obrigamo-nos sempre a ir mais longe, e as coisas algum dia teriam que mudar. Mas tudo se resume aos discos e aí não há regras: podes ter cinco anos de idade e fazer um disco de rap fantástico.

[KM] Eu penso que o rap é para os famintos, é para os que anseiam por alguma coisa. Desde que queiras muito uma coisa e que tenhas aquele espírito de combate, então o rap é para ti. É como no boxe em que podes ter um gajo com 50 anos a desancar tipos muito mais novos e isso acontece porque ele tem fome. Enquanto essa fome subsistir, a força permanece.

Quando vocês decidiram oferecer o vosso primeiro disco, isso foi um “vão-se f***r” para a indústria?

[El-P] Não, foi um “obrigado” para os fãs e não um “vão-se f***r”. Quer dizer, a única forma em que acabou por ser um “vão-se f***r” para a indústria foi porque essa decisão foi tomada porque não queríamos esperar, não queríamos lidar com indecisões e prazos e contratos e etiquetas e blah blah blah…

[KM] Foi mais um “que se lixe”…

[El-P] Sim, foi mais isso. Tínhamos carreiras solo muito boas, tínhamos acabado de lançar Rap Music e Cancer 4 Cure, sentíamo-nos cheios de força, ficámos espantados pela quantidade de amor que recebemos dos fãs e quando fizemos aquele primeiro disco não tínhamos planos. Fizemo-lo só para nos divertirmos porque éramos amigos e queríamos voltar a andar em digressão porque essa era a parte divertida. Por isso, dissemos mesmo, “que se lixe”, e decidimos oferecer o disco porque havia gente que nos seguia há anos, que nos apoiava totalmente, e por isso pareceu-nos a atitude acertada. Por isso acabámos por fazer o mesmo com o segundo disco quando poderíamos facilmente ter seguido o exemplo do dealer de droga: “hey, a primeira dose foi de borla, mas vais ter que pagar desta vez!”

 


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“Não somos melhores do que ninguém, mas não nos vamos calar quando alguma coisa é errada ou sentimos que algo ferve em nós e precisa se sair cá para fora.”
El-P

 


Qual foi o momento em que tudo se encaixou, em que perceberam que a combinação dos vossos dois talentos resultava numa coisa especial?

[El-P] Honestamente, foi imediato. Foi por isso que fiz o álbum do Mike (Rap Music), voei para Atlanta para ir para estúdio com ele e produzir beats para o álbum dele, para ver se tínhamos algum tipo de química. A ideia era fazer apenas um par de temas para o disco dele, porque eu estava a trabalhar no Cancer 4 Cure, mas foi mágico desde o início e penso que ambos gostámos muito um do outro. E isso deixou-nos muito entusiasmados com o que se estava a passar no estúdio. De tal maneira que no primeiro dia fizemos logo três “malhas”: “Big Beast“, a “Untitled” e uma outra qualquer. E isso fez-nos pensar: “oh caraças, isto é uma boa combinação”. E como bónus ainda atinámos um com o outro, por isso, foi logo óbvio que funcionávamos bem juntos. Depois, quando fizemos “Tougher Colder Killer” no meu disco e fizemos a “Butane” para o disco dele deu para perceber outra coisa: não só combinamos bem, como ainda soamos fantásticos a rappar juntos. Por isso foi tudo muito rápido. Além disso, estávamos ambos a sair de fases nas nossas carreiras em que estávamos ambos a trabalhar muito, a tentar forçar algumas situações e por isso estávamos ambos num ponto em que pensámos: “o que acontecer, acontece”. Estávamos ambos fartos de lutar em batalhas injustas e queríamos ambos fazer coisas que nos dessem prazer, dar ouvidos ao miúdo em nós que amava hip hop e fazê-lo sorrir. Acho que encontrámos isso um no outro e foi por isso que nos mantivemos juntos e foi nesse pilar que fizemos assentar a nossa amizade que tem crescido. E agora não há volta a dar: estamos a divertir-nos demasiado para pararmos.

Quem é o yin e quem é o yang?

[KM] Bem, ele bebe vodka e eu bebo whisky, ele fuma cigarros e eu fumo marijuana…

[El-P] Eu também fumo marijuana, mas percebo que para que a metáfora funcione tenhas que dizer isso… Eu aninho-me em posição fetal e sou branco…

[KM] Eu durmo assim (estica os braços)…

Como é que se equilibra material como “Love Again” e “Early”: num momento estão a brincar, no momento seguinte soam muito sérios…

[El-P] Exacto, como qualquer ser humano. Isso acontece apenas porque somos humanos.

[KM] Seres humanos normais, o rap durante muito tempo pediu-nos que criássemos um personagem e nos limitássemos a ser esse personagem. Mas o personagem humano é muito mais rico e carregado de beleza do que os que podemos criar. E eu só tenho que agradecer ao público por nos dar a oportunidade de sermos estes seres humanos totais… Bun B (rapper do duo de rap sulista UGK) disse há muitos anos, quando ainda era apenas o 8 Ball, UGK, Outkast a representar o sul na cena hip hop, que a coisa mais bonita acerca dos Outkast era que eles tinham conseguido crescer fora dos estereótipos do hip hop, e isto sem desprimor para nenhum dos outros grupos. O que o Bun B queria dizer era que quando uma oportunidade de crescimento nos é apresentada devemos aproveitá-la e levá-la às últimas consequências. E penso que o nosso público nos deu a oportunidade para ser humanos, em todos os aspectos.

[El-P] Sim, mas penso que isso foi algo que nós mesmos decidimos apresentar…

[KM] Claro, mas o público poderia ter recusado…

[El-P] Mas isso não teria importado. O que é fixe no facto de já não sermos miúdos é que sabemos muito bem quem somos. Por isso, não tenho problema algum em ser um completo idiota e ao mesmo tempo poder dizer algo que é realmente importante para mim. É assim que somos e é assim que fazemos estes discos. Penso que as pessoas respeitam e compreendem isso porque não excluimos ninguém: não estamos a dar lições a ninguém, não somos melhores do que ninguém, mas ao mesmo tempo não nos vamos calar quando estamos convencidos de que alguma coisa é errada ou quando sentimos que algo ferve em nós e precisa se sair cá para fora. E vamos sempre fazer isso sem ver qualquer espécie de conflito entre essas coisas. Não devemos nada a ninguém, excepto sermos nós mesmos. E isso é algo que clicou com as pessoas, porque não há por aí muita gente a comportar-se assim, a assumir estes dois lados. Muita gente vive preocupada em tentar ser apenas uma coisa. A verdade é que as pessoas não conseguem perceber exactamente quem somos e isso funciona a nosso favor. Não nos conseguem arrumar: “eles são rappers ignorantes? Rappers políticos? O que é aquilo? É um disco da Costa Leste? É um disco do sul?” Não é nada disso. E é tudo isso.

[KM] É dope!

 


 


Tenho quatro gatos e um deles tem uma excelente voz…

[KM] Eu também! Abençoado sejas…

…um deles tem uma excelente voz, estariam interessados em fazer-lhe uma audição para o projecto Meow The Jewels?

[El-P] (Para Killer Mike) Ele disse “cats” e não “kids“.

[KM] Ah, pensava que tinha dito “miúdos”. Gatos, miúdos, tudo a mesma coisa: alimentamo-los e eles não nos ligam nenhuma (risos).

Mas o que se passa com o Meow The Jewels?

[El-P] Eis a cena: o disco pode ser para caridade, mas a arte não é para caridade, ok? Se o teu gato é um amador, então eu não estou interessado. Não estou aqui para dar a mão ao teu gato amador através da cena rap felina profissional. Se ele tiver talento e quiser uma oportunidade, então estou disposto a ouvir, mas não vou estar a dar esmolas… Meow The Jewels está fantástico, temos cerca de três quartos do disco pronto. Acabámos de divulgar uns snippets e está quase a sair e não digam que não vos avisei de que é a coisa mais estúpida de todo o sempre, mas vocês queriam isto e por isso vão ter o que pediram, mas não me culpem quando o ouvirem porque é exactamente o que eu vos disse que iria ser.

Mike, és dono de uma barbershop, certo?

[KM] Já são duas…

Um dos maiores rappers portugueses também é barbeiro e dono de uma loja. O que é que se passa com vocês os rappers e as barbershops?

[KM] É o sítio onde um homem pode ser um homem e ser completamente honesto. Quando se é da classe operária não se pode ser sócio de um country club, não se é membro de nenhum clube exclusivo, o que acontece é que se vai ao barbeiro para falar de merdas para depois se ir para casa e estar-se caladinho porque quem manda é a mulher. É isso. Gosto de poder dar trabalho a pessoas, gosto de poder dar um serviço de qualidade à comunidade em que as minhas lojas se inserem, mas acima de tudo gosto de poder ir a um sítio e ouvir os homens a serem homens. Não há nada como uma barba feita, um tratamento com uma toalha quente e ouvir os rapazes a discutirem política, religião, rap, o que quer que seja de que vos apeteça falar, e depois podem ir para casa e serem pais ou maridos porque é isso que está do outro lado da porta. O meu objectivo é ser dono de 150 lojas, por isso em breve se calhar abro uma aqui e esse rapper pode ser meu sócio.

[El-P] Isso é fixe, o meu objectivo é ser dono de 150 barbearias (risos).

 

* Texto originalmente publicado na Blitz.

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu