Run The Jewels no NOS Primavera Sound: a revolução passou por aqui


 

[FOTOS] Ricardo Miguel Vieira

 

We gonna burn this stage to the fucking ground” promessa de Killer Mike após entrada em palco sobre a passadeira sonora “We Are The Champions”. “One, one, one-one” e estala a bomba no espaço All Tomorrow’s Parties (ATP). Run The Jewels aos pulos de ponta-a-ponta, a esticar ao máximo o ritmo cardíaco, para acordar mortos, não há cá softness, ao som de… “Run The Jewels”. “Hey! Hey! Hey! Hey! Oh dear what the fuck have we here?

O que temos aqui é uma histórica dupla norte-americana a largar no Primavera Sound uma performance como, provavelmente, nunca assistimos num grupo hip hop em Portugal. O relvado estremece, terramoto debaixo dos meus pés, e isto não é uma superficial constatação da força dos monstruosos speakers por meio das leis da física. El-P e Killer Mike entram com tudo e as duas mil pessoas que os acolhem alinham na jogada, atiram-se de cabeça para uma redoma electrónica psicadélica, beats taser que disparam directamente aos ossos do corpo, e rimas pungentes, demonstrando que estão aqui para serem desafiados aos limites. Este pessoal à minha volta não veio para uma sessão de degustação auditiva, como muitos em FKA Twigs, ontem: isto são hardcore fans, malta que em casa estilhaça os vidros das portadas enquanto gira RTJ no Spotify ou na agulha.


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Há também por aqui muita raiva jovial a ser expelida. Isto não é só uma festa hip hop com fagulhas punk e intrépidos crowdsurfers – eu estou mesmo a ver crowdsurfers?! Isto está a ficar insane! Os Run The Jewels trouxeram até nós a América ferida dos dias que correm, dos bastões que asfixiam gente desarmada e das .9mm que roubam vidas aos negros. E nós sentimos na pele a sua aclamação. Em moldes diferentes, ou talvez não, apalpamos na nossa sensibilidade lusitana o grito de El-P à entrada de “36’’ Chain”: “Tell those warmongers, pedophiles that rule our world to fuck them!”, rematando que todos temos dentro do nosso peito a jewel que pode alterar o sentido em que o mundo gira.


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“Tell me if these sound familiar, these are the five things we live by and they are not based on the bible and they are not based on any laws brought by man. These are the five things: LIE, CHEAT, STEAL, KILL, WIN, C’MON, EVERYBODY IS DOING IT.”
El-P


Está tudo em sintonia. Todos gritam, esbracejam, cerram o punho e simulam a arma, simbologia de um duo que quer transformar o mundo, instrui-lo para uma convivência entre iguais. E essa educação nem sempre é fácil em palco, mas Run The Jewels fazem-no com mestria, equilibram o consciente com o satírico. A clarividência versus ironia, porque “nós somos humanos”, sublinha El-P no backstage ao Rimas e Batidas.

A mudança de mood dá-se em “Love Again”, esgotado o rancor global após um emotivo “Early” e dá-se lugar à trip sexual e obscena. El-P (mais falador que Killer Mike, de braço ao peito, depois de ter andado à porrada num destes dias – e todos sabemos quem ganhou) satiriza: “Toda a minha vida sonhei em vir ao Porto para vos ouvir gritar ‘dick in my mouth all day’. Thank you for making my fucking dreams come true”. Dica genuína, no mínimo porque RTJ também foram surpreendidos pelo ambiente e acolhimento que encontraram no Porto.

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Ricardo Miguel Vieira

Escrevo umas linhas em revistas e sites. Cultura, música, activismo, DIY, surfing são o meu universo. Se não me encontrarem por aí de headphones entre orelhas é porque estou algures no oceano.