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Prodigy: uma voz intemporal com intenso sabor a clássico

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Direitos Reservados

O mundo da música despediu-se de mais um dos seus heróis. Aos 42 anos, Prodigy dos Mobb Deep já tinha construído um enorme legado que certamente firmará o seu nome no presente e no futuro. Além de ser co-autor de vários temas que serão recordados enquanto clássicos intemporais do hip hop, Albert Johnson continuou também a editar música nova a solo. Nas centenas de faixas lançadas com o seu contributo, o icónico MC cruzou-se com vários nomes, muito deles também com o estatuto de lendários do rap norte-americano, mas outros que facilmente se encaixariam na categoria de sedentos newcomers e que nele e na sua obra encontraram inspiração para trilhar um caminho próprio.

 



Os primeiros passos dados ao lado de Havoc, o seu amigo de longa data e companheiro na dupla mais “infame” da história do hip hop, foram cruciais para tomar de assalto a indústria musical, que não conseguiu renegar o potencial que os Mobb Deep viriam a confirmar ao longo das três últimas décadas. “Flavor for the Nonbelievers” foi a demo de estreia que os levaria até à Unsigned Hype – a famosa coluna da revista The Source que se dedicava exclusivamente aos lançamentos mais quentes do underground americano tentando, de alguma forma, prever o futuro. De Queens para o país inteiro, o primeiro de muitos feitos estava alcançado ainda antes da dupla assumir o nome pelo qual hoje a conhecemos. Nos Poetical Prophets, os dois jovens rappers recriavam as sonoridades dos seus ídolos da altura em torno do clássico som do breakbeat.

Na ausência de uma sonoridade própria, a fórmula da demo de estreia saltou para o primeiro álbum dos Mobb Deep. Juvenile Hell chegou ao mercado em 1993 e contou com produções de alguns nomes que se viriam a tornar incontornáveis no movimento do hip hop, como DJ Premier ou Large Professor. O álbum marcou a fase final da juventude dos dois MCs do grupo e também o ponto de viragem no rumo que ambos queriam dar à sua carreira musical. E embora Juvenille Hell não tenha sido um sucesso comercial, foi nesse momento que Prodigy e Havoc começaram a ensaiar os primeiros versos mais virados para o registo a que hoje os associamos. “Peer Pressure” e “Hit It From The Back” foram os primeiros singles da dupla e parte integrante do álbum que marca o seu ingresso no submundo do gangsta rap.

 



A estrada ainda era longa, mas o caminho havia de os levar ao estrelato. E o que mais fazia falta aos Mobb Deep estava ali bem à mão de semear. Por melhor que se escreva, às vezes é necessário aquele empurrão criativo que o instrumental transmite ao MC. Havoc meteu mãos à obra e passou a assinar as produções para o grupo. Não que tivesse acesso a uma biblioteca de discos mais obscura que a restante competição. Mas, para melhor expressarem os sentimentos das suas vivências na rua, faria todo o sentido que a escolha do pedaço de sample perfeito partisse também de dentro do grupo. Com recurso à descida da tonalidade das músicas originais, uma das imagens de marca da técnica de Havoc, os cortes aplicados transportavam-nos imediatamente para uma atmosfera mais sombria. Abria-se um novo leque de combinações sónicas possíveis e os resultados foram imediatos. Um corte cirúrgico em “Kitty With The Bent Frame” soa-nos a uma espécie de alarme – algo de caótico se passava na cidade. A Daly-Wilson Big Band marca o ritmo a que os dois rappers se encontram a caminhar pela rua, prestes a relatar uma das histórias mais macabras dos arquivos do hip hop. É então que entra em marcha uma melodia de Herbie Hancock ao piano em pitch down. “To all my killers and a hundred dollar billers / For real, niggas who ain’t got no feelings“. Era Prodigy a anunciar que algo histórico estava prestes a acontecer.

Um dos sons mais crus e sinistros de todos os tempos acabava de sair para as ruas. Era impossível ouvir o arranque de “Shook Ones Part II” e não parar para escutar os 5 minutos que se avizinhavam. A pele arrepia quando somos transportados para o cenário mais violento de uma Queensbridge que tresanda a movimentos ilícitos. Prodigy e Havoc tinham acabado de entrar na idade adulta, mas o single que lançavam em 1995 era um dos conteúdos mais maduros que essa década viu nascer.

Foi altura de editar The Infamous, isto quando já toda a América tinha os Mobb Deep debaixo de olho. O álbum estreou-se na posição 15 da tabela da Billboard 200, tendo alcançado o 3º lugar nos charts dedicados às edições de hip hop, chegando depois ao estatuto de Disco de Ouro atribuído pela indústria musical norte-americana. Nas, Q-Tip, Raekwon e Ghostface Killah eram convidados de peso no alinhamento do segundo trabalho da dupla, registo que deu ainda mais três singles.

 



Foi preciso pouco mais de um ano para conhecer o seu sucessor. A dupla estava num excelente momento de forma e tinha finalmente encontrado o registo perfeito para se afirmar. O street rap da Costa Este estava bem representado por uma dupla que literalmente se preparava para fazer subir o inferno à Terra. “Still Shinin’” deu o pontapé de saída, sucedendo-lhe “Drop A Gem On ‘Em”, tema de resposta a “Hit ‘Em Up” de 2Pac, que veio incendiar ainda mais a guerra do rap Este vs. Oeste que teve lugar na década de 90. Apesar da disputa ter sido iniciada por Pac, a dupla de Queens saiu vencedora no que a mediatismo dizia respeito. A batalha entre as duas costas era particularmente fomentada pela imprensa. Os Mobb Deep serem mencionados numa das tracks mais quentes da West Coast só lhes atribuiu uma ainda maior visibilidade.

Hell On Earth foi o terceiro disco do grupo e é uma notória continuação do capitulo anterior. O tema que dá título ao álbum foi o terceiro do alinhamento a receber o estatuto de single. A Rolling Stone e a L.A. Times foram algumas das maiores publicações a conceder notas positivas ao projecto. Nas e Raekwon voltaram a repetir a dose de colaborações iniciada em The Infamous e Method Man, outro gigante, estreou-se no alinhamento de um álbum dos Mobb Deep. Hell On Earth foi também disco de ouro, tal como o seu antecessor.

Eram tempos de glória para a dupla de Queens, que já figurava nos lugares cimeiros do hip hop da Costa Este, lado-a-lado com nomes como Notorious B.I.G., Nas, Wu-Tang ou Jay-Z. Salas de espectáculo lotadas, autocolantes e cartazes com o seu nome espalhados pelas ruas dos mais diversos estados norte-americanos e um bom número de temas que ficarão para sempre na história do hip hop. Era este o cenário com que Prodigy e Havoc se deparavam.

 



Seguiram-se Murda Muzik, Infamy e Amerikaz Nightmare, tendo também os Mobb Deep aderido à cultura das mixtapes. O percurso do grupo foi estagnando com o tempo, mas voltou a conhecer um novo hype quando 50 Cent os assinou para a sua G-Unit Records. Uma relação pouco duradoura, mas que certamente deu novos frutos para a dupla recolher. Blood Money foi o último álbum antes de Prodigy ter sido preso durante 3 anos por posse ilegal de arma, e também o último antes da curta separação dos dois membros entre 2012 e 2013. The Infamous Mobb Deep foi o último projecto que Prodigy e Havoc editaram juntos. Um duplo CD cuja segunda parte continha várias maquetes que ficaram de lado aquando a edição de The Infamous.

Prodigy manteve ainda uma carreira a solo a que deu início no ano 2000. Entre álbuns, EPs e mixtapes, destacam-se os seus três volumes de H.N.I.C., o projecto com que se estreou sozinho ao microfone e em que rimou pela primeira vez sobre a doença que viria a dificultar-lhe a vida em “You Can Never Feel My Pain”. Alchemist era um dos grandes aficcionados pelo talento do rapper de Queens, com quem chegou a trabalhar diversas vezes, tendo chegado a produzir-lhe Return Of The Mac e Albert Einstein.

2017 até tinha arrancado da melhor forma para o rapper que perdeu a vida aos 42 anos com a edição de The Hegelian Dialectic (The Book Of Revelation). Para trás, fica o enorme legado que deixou tanto a solo como nos Mobb Deep, tendo sido também uma peça importante no hip hop da actualidade ao alinhar com artistas menos experientes como forma de demonstrar o seu apoio por quem ainda está a dar os primeiros passos.

O Rimas e Batidas compilou 12 desses exemplos que mostram como experiência da velha escola tenta transportar o espírito de “clássico” para os temas dos artistas emergentes:

 


[Papoose] “Prisoner” feat. Prodigy


[Gangrene] “Dump Truck” feat. Prodigy


[Troy Ave] “Dirty Martini” feat. Prodigy


[Termanology] “Hood Shit” feat. Prodigy


[Conway & Prodigy] Hell Still On Earth EP

 


[Evidence] “Fame” feat. Prodigy & Roc Marsiano

 


[French Montana & Waka Flocka] “Hell On Earth 2K11” feat. Prodigy

 


[Prodigy] “YNT (Young and Thuggin)” feat. Domo Genesis

 


[Action Bronson] “Seven Series” feat. Prodigy & Raekwon


[The Alchemist & Budgie] “In Heaven’s Home” feat. Prodigy & Roc Marciano


[Statik Selektah] “Pinky Ring” feat. Prodigy


[Curren$y & The Alchemist] “The Type” feat. Prodigy

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