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Fotografia: Direitos Reservados

O rapper irlandês está a preparar o sucessor de Dear Annie.

Rejjie Snow: “As pessoas viveram demasiado tempo a ambicionar grandes contratos e grandes editoras”

Fotografia: Direitos Reservados

Ser artista independente não é fácil quando se quer furar as tabelas de vendas e tendências. Estatisticamente falando, parece até tarefa impossível se o caso em questão for o de um jovem rapper irlandês, cuja proposta musical se prende com uma certa profundidade poética e uma estética menos óbvia, comparativamente ao que de resto reina no mercado.

Rejjie Snow contrariou todos esses ventos e em 2013, ao editar Rejovich, viu o seu projecto de estreia escalar os charts de hip hop do iTunes, destronando na altura os últimos álbuns editados por Kanye West ou J. Cole. A história de um sucesso prematuro ganhou contornos ainda maiores quando se tornou no primeiro artista europeu a assinar pela norte-americana 300 Entertainment — que já abrigou gente como Migos, Young Thug ou Fetty Wap — e foi o responsável pela abertura de alguns espectáculos de Madonna ou Kendrick Lamar nas suas respectivas digressões. A estreia no catálogo da 300 deu-se em 2015 com o singleAll Around The World“, assistido pelo artesão de Chicago Cam O’bi na produção. É precisamente o homem que surgiu em cena embalado pelas parcerias com conterrâneos como Chance The Rapper, Vic Mensa, Saba, Noname ou Mick Jenkins quem se tem vindo a tornar cada vez mais próximo de Rejjie, a quem produziu “Purple Tuesday”, a faixa mais sonante de The Moon & You, a primeira mixtape pela editora americana, lançada em 2017. Já só faltava o tão aguardado álbum de estreia por parte do MC irlandês. Editado em Fevereiro de 2018, Dear Annie veio colmatar essa lacuna e logo com uma grande dose de ambição, inspirado pela inquietação que sentia por uma das bonecas da sua irmã. Para o efeito convocou alguns dos nomes mais sonantes no campo da produção: a Cam O’bi juntaram-se Rahki (To Pimp a Butterfly, good kid, m.A.A.d city, Faces…), KAYTRANADA, Lewis OfMan (habitual parceiro da sensação pop da Suíça Vendredi sur Mer) ou Yellow Days (jovem prodígio da cena indie rock britânica). Nas rimas, o veterano Krondon surgia ao lado dos recém-chegados Aminé, Jesse Boykins III ou Jesse James Solomon na lista de convidados de Dear Annie. Depois de ter integrado o cartaz da edição de 2018 do Super Bock em Stock, Rejjie Snow está de volta a Portugal no dia 3 de Abril para fazer parte do ID_NOLIMITS. Em conversa com o Rimas e Batidas, o rapper antecipou que a sua actuação girará em torno do seu último disco mas vão existir novidades: o sucessor de Dear Annie, desta vez produzido na íntegra por Cam O’bi e editado pela sua própria Snow Face, “já está terminado.”

Que tal essas celebrações do Carnaval? Tenho passado imenso tempo com a família e amigos. Tem sido fixe. Mascaraste-te? [risos] Este ano não. [risos] Antes disso, estavas em digressão? Não. Tenho andado afastado dos palcos há uns seis ou sete meses, na verdade. A próxima digressão só arranca lá para Março/Abril. Como tens aproveitado o tempo? Já andas de volta de um novo trabalho? Sim. Durante esses meses aproveitei para compor um novo álbum. Já está terminado. Wow. Óptimas notícias. Presumo, então, que nesta próxima digressão já aproveites o tempo de palco para testar algumas dessas novas músicas. Sem dúvida. Estou muito ansioso para ver a reacção das pessoas. E lanças o álbum antes disso ou tens outra altura em mente? O álbum só sairá no Verão. Ainda estou muito focado no Dear Annie e quero continuar a tocá-lo. Na verdade, acho que vou ter sempre temas do Dear Annie no meu espectáculo. Nem que sejam só uns dois ou três. Foi um álbum que me deu imenso prazer de fazer e gostei muito de como o produto final ficou. Estes próximos concertos vão ser em torno do Dear Annie mas certamente que vão haver algumas surpresas lá pelo meio. Foi um disco bastante conotado pela temática do amor, mas creio que há todo um conceito por detrás disso. Queres explicar? Basicamente, havia um filme, Annie, do qual a minha irmã tinha uma boneca. Essa boneca assustava-me imenso, ao ponto de, à noite, chegar a ter pesadelos com ela. Não me perguntes porquê, mas aquilo sempre mexeu comigo. Foi algo que marcou a minha infância. Então decidi construir esse álbum em torno disso. E contaste com a ajuda de alguns dos melhores produtores da actualidade. Vêm-me à cabeça o Rahki, KAYTRANADA, Cam O’bi… Sem dúvida. Foi uma experiência fantástica trabalhar com eles. Aliás, é precisamente o Cam O’bi quem me esteve a ajudar na produção deste novo trabalho. O álbum é todo produzido por ele. Tem apenas alguma co-produção da minha parte. Como é que isso aconteceu? Foram ter um com o outro ou trabalharam à distância? Fomos passar uma temporada em Los Angeles. Alugámos uma casa no Airbnb e passámos algumas semanas a trabalhar no disco. Não foi uma cena super árdua. Fumámos muita erva, fomos a muitas festas entre sessões. Havia dias em que eu acordava, ele mostrava-me um beat e eu decidia ficar o dia todo em casa a escrever para ele. Chegou a um ponto em que achámos que estava completo e fiquei muito feliz com as faixas que fizemos. Houve algo em concreto que te tenha inspirado mais na hora de escrever? Olha, eu já quase não ouço hip hop, para te ser honesto. Voltei-me para as raízes nos últimos tempos. Tenho consumido imensa música irlandesa. Folk, para te ser mais específico. Muito por causa das letras. Há uma certa profundidade nos poemas da folk que me inspirou imenso durante a fase de criação do álbum. Então escolheste mesmo o produtor certo. Gosto imenso do Cam O’bi e acho que ele tem um lado musical muito vincado, nada estandardizado, que dá essa abertura para que quem canta possa sair de dentro dos padrões que hoje reinam no mercado. Há muita coisa má a ser feita nos dias que correm. Muita gente a cantar igual… Sinto que o Cam O’bi foi a pessoa perfeita para este trabalho, sim. Ele é um gajo muito bacano e um excelente músico. Foi óptimo ter tido a oportunidade de passar tanto tempo com ele. Fechaste o disco e também já fechaste o título que lhe vais dar ou isso ainda está em aberto? Vai chamar-se Baw Baw Blacksheep. Vais voltar a ter o apoio da 300 Entertainment? Eu já não estou com eles. Acabámos por colocar um fim nessa ligação. É pena. Ainda assim fizeste história. Creio que eras o único europeu no catálogo deles, certo? Ainda por cima com uma sonoridade tão distinta dos outros artistas deles. Sim, era. Foi fixe. Mas tens razão no que dizes. Sentia-me um bocado à parte daquilo que eles faziam. Depois havia sempre uma certa pressão para eu seguir um determinado caminho e isso ia contra aquilo que eu tinha idealizado para mim. Foi óptimo ter acontecido, até para eu ter uma ideia mais concreta desse lado [da indústria], mas agora vou editar este álbum de maneira diferente. Já tens outra editora em vista? Sim. O disco vai sair pelo meu próprio selo, a Snow Face. Ser independente está na moda, não é? Dá-te outra liberdade. Acho que as pessoas viveram demasiado tempo a ambicionar grandes contratos e grandes editoras. Agora perceberam as vantagens de não estar associadas a nada disso e tomar elas as rédeas da coisa. E vais ser só tu na Snow Face ou tens outros artistas na calha para editar? Para já, sou apenas eu. Até porque agora quero mesmo focar-me na edição e promoção do meu próximo trabalho. Mas sem dúvida que um dos meus objectivos com isto é trazer mais malta comigo. Ajudar outros artistas com as ferramentas que eu já tenho. Em breve regressas a Portugal e agora fiquei ainda mais ansioso para escutar essas novidades que nos reservas para o concerto no ID_NOLIMITS. Vai ser fixe! Eu ainda nem faço ideia do que vou tocar ao certo. Acho que só vou decidir o alinhamento tipo uma ou duas semanas antes de arrancar a digressão [risos]. Já cá tinhas estado em 2018. Gostaste da experiência? Adorei. Na altura já tinha imensa gente à minha espera para me ver no palco. Muitas das pessoas sabiam as letras de cor. Não estava à espera disso e fiquei bastante impressionado pela positiva. Entretanto tiveste mais alguma oportunidade de visitar o país? De repente ficámos muito na moda [risos]. Ainda não. Mas eu por acaso já tinha visitado antes. Era muito pequeno, não me lembro, vim passar férias com os meus pais no Algarve. Não tem nada a ver com Lisboa mas sei que é uma zona com bastante turismo.

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