Super Bock em Stock’18 – Dia 2: à procura de identidade pela Avenida da Liberdade

[TEXTO] Alexandre Ribeiro e Alexandra Oliveira Matos [FOTOS] Hélder White e Andreia Carvalho (Dino D’Santiago)

Começar o dia com uma aula de Ciência Rítmica Avançada pode ser um desafio para os menos desenrascados, mas DarkSunn, o primeiro interveniente de ontem, foi aquele professor cool que deixou todos — e ainda eram alguns, tendo em conta a hora — à vontade no interior do Capitólio. Para o Super Bock em Stock, Bruno Dias trouxe um set diferente do habitual, recorrendo a material original e remisturas da sua autoria para dar o arranque necessário.

 



De dentro para fora, mais exactamente para os bastidores do Capitólio, fomos ao encontro de SP Deville, que, na altura da nossa chegada, tocava “Olha Para Tras”, um dos seus temas a solo mais celebrados e, muito provavelmente, o que melhor resume as suas capacidades enquanto MC, cantor e produtor. Depois de SP & Wilson e Makongo, o artista refinou os seus argumentos e lançou uma série de trabalhos de elevado valor: Sou Quem Sou, de 2015, Its Deville Bitches Vol.2 e Black Gipsy, ambos de 2017, são três exemplos daquilo que estamos a falar.

Acompanhado por três músicos que se dividiram por teclados, bateria e baixo, Pedro Sousa, à semelhança de Masego, orquestrou a banda enquanto repartia o seu tempo entre cantar e tocar — e ainda chamou X-Tense para apresentar o single “#PIXAGRANDE”. O apogeu aconteceu com “Where Did You Sleep Last Night”, canção popularizada pelos Nirvana, momento em que puxou pelos galões e demonstrou que também é um intérprete de excelência.

A adesão assinalável — muito próxima do “quadro” que vimos com Pedro Mafama no dia anterior — ajudou a celebrar o regresso “a sério” aos palcos de um dos artistas mais subvalorizados em Portugal.

 


SP Deville: “O Sou Quem Sou é um álbum muito complicado de superar porque eu pus tudo ali”


Querida, Encolhi a Casa do Alentejo: sim, podia ser um filme e, se para todos aqueles que ficaram à porta foi um drama, para quem conseguiu um pedacinho para pôr os pés foi um musical muito bem realizado. O personagem principal era Dino D’Santigo com o seu Mundu Nôbu. Super Bock em Stock, já perceberam qual é a ideia?

Faltavam cinco minutos para as 20 horas e a lotação já estava a 100%. “Mundu Nôbu” abriu um alinhamento feito cada vez mais de música das raízes cabo-verdianas do músico que pontuou a actuação com o típico ferrinho para uma versão de “Djonsinho Cabral” mais rápida e electrónica que nunca e “Bitori Nha Bibinha” que fez o público cantarolar “ta tchora pobreza oi pobreza ta tchora pobreza”. E alguém se apercebeu daquela pujança electrónica fresca entre “Nôs Tradison”, do trabalho Eva, e a “Bô Eh Sabi” que abre com a voz da avó do músico? “Porton” será o nome de uma faixa nova das várias em que o músico não parou de trabalhar — como aliás o próprio confessou em entrevista.

Dino suava de calor e, pareceu-nos, de felicidade. “É bonito olhar para esta plateia multicultural e aculturada”, dizia a certa altura. Pelo meio agradeceu até a cada um daqueles que deu o seu toque de Midas a este trabalho tão recente. Branko e PEDRO estavam na sala, assim como Alexandra Moura que veste o músico e a banda. O chão tremia com “Raboita Sta Catarina”, a sala cantava “Como Seria” e gritava “Nova Lisboa”. Sofia e Laura, do coro, reagiam com energia inesgotável e apoio inconfundível na voz. Pedro Mourato entregava os acordes certos para trazer corpo e estridência aos beats — quase todos — de Paul Seiji.

Um espectáculo que merecia uma sala tão maior para darmos largas aos pés e aos quadris. Fica o pedido para a próxima edição. Pode ser?

 



Ouvimos duas vezes “Alfa Romeu & Julieta” e “Lamborghini na Roulotte”, dois hits nos discos pedidos por um Palácio da Independência recheado de fãs de David Bruno.

O concerto que deu para balançar o corpo ao som de O Último Tango em Mafamude e soltar umas grandes gargalhadas sempre que dB pedia para o técnico baixar as luzes. “Esta aqui é íntima”, afirmou em quase todas.

Acompanhado pelo guitarrista Marco César — “uma promessa nacional”, fez questão de frisar — não faltou uma única música do seu mais recente trabalho. Divertido e sem falhas, como sempre.

 



Uma longuíssima fila para ver Rejjie Snow no Bloco Moche Lá Dentro, no Capitólio, confirmava o entusiasmo gerado pela notícia da sua vinda a Portugal.

Apesar da qualidade indiscutível a nível técnico do rapper irlandês, que também tem facilidade em criar canções orelhudas — a afrancesada “Désolé” ou a dançável, e produzida por Kaytranada, “Egyptian Luvr” atestam isso –, vê-lo ao vivo trouxe à baila um punhado de dúvidas antigas sobre a sua música. A americanização (ninguém perceberia que vem da Irlanda, aliás, é possível que muitos nem saibam) e as aproximações (quase) indiscretas a Earl Sweatshirt e Tyler, The Creator — “Rainbows” não faz parte de Flower Boy, mas podia — tornam-se por demais evidentes e, de certa forma, retiram algum valor à sua obra.

Dito isto, o concerto, em termos de execução, não poderia ter corrido melhor, com a ajuda preciosa dos “devotos” que ocupavam as primeiras filas e uma interacção bem sucedida entre MC e DJ. Porém, o alinhamento foi um tanto ou quanto instável: começando pelo aquecimento do DJ, que tocou bangers como “No Stylist” ou “Mo Bamba”, por exemplo, passando pela entrega relaxada e característica de Snow em grande parte das faixas, o que acabou por afastar aqueles que procuravam algo com mais poder — no final, a sala estava a meio gás –, e terminando em “Flexin”, tema com um registo próximo de muitas das coisas que Vince Staples já fez (lá está, a questão da identidade a “assombrá-lo” novamente).

 



Jungle, you make me happy”, estava escrito num cartaz no meio da plateia de um Coliseu dos Recreios muito, muito cheio — e muitas pessoas na rua a tentarem entrar, um cenário que se repetiu com frequência no festival. Com quase todas as músicas do recente For Ever — segundo álbum da banda — na ponta da língua, mas mais ainda no balanço da cabeça, o público estava visivelmente agradado por ouvir “Heavy, California”, “Cherry” e “Happy Man”, mas também “bombas” do primeiro disco como “Busy Earnin'”, “The Heat” ou “Time”.

Os britânicos foram agradecendo a felicidade do público com uns “obrigado” em português, afinal de contas, já são nomes habituais nos cartazes lusitanos — em Agosto, por exemplo, actuaram no Vodafone Paredes de Coura.

Exímios na transposição da sua soul moderna, criada de forma cirúrgica em estúdio, para os instrumentos de palco, a banda conjuga isso com um décor simples e um jogo de luzes sem falhas. Uma máquina bem oleada que quase foi obrigada a parar de vez por problemas técnicos, mas que se aguentou firme para encerrar com benefícios para a anca a edição deste ano do Super Bock em Stock.

 


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