SP Deville: “O Sou Quem Sou é um álbum muito complicado de superar porque eu pus tudo ali”

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTOS] Sebastião Santana

Se fizéssemos um referendo para colocar alguém do hip hop português como exemplo da palavra “multifacetado” no dicionário, SP Deville deveria ser o primeiro na lista. Canta, rappa, produz, mistura, masteriza e, desde há alguns anos, comanda os destinos da “comunidade artística” FamilliBizno.

Antes da sua actuação no Super Bock em Stock, que acontece mais logo, às 19 horas, no Bloco Moche (Capitólio Bastidores), fomos ao encontro do autor de Black Gipsy, que actualmente vive no Laranjeiro, Almada, e sentámo-nos à conversa no seu estúdio improvisado, falando da importância dos Nirvana ou Fugees, de uma estadia memorável nos Estados Unidos da América, do panorama nacional ou da criação de grupos como SP & Wilson e Makongo.

 



Filho de pai angolano e mãe portuguesa, Pedro Sousa começou a sua formação musical em casa. E, para perceber as diversas facetas da sua personalidade e musicalidade, é importante olhar para o seu background familiar. “A minha mãe sempre foi enfermeira, e era militar. E o meu pai era pescador, tinha um negócio de família. O meu avô, pai do meu pai, tinha alguns barcos de pesca na ilha de Luanda. Duas realidades completamente diferentes, mas super engraçadas”, revelou.

“A primeira música de sempre que eu me lembro de ouvir foi a ‘Satisfaction’ dos Rolling Stones. Eu lembro-me de ser miúdo, ver o vinil a rodar e ficar completamente obcecado com aquilo. Fiquei super impressionado com aquela melodia, foi uma coisa que nunca mais me saiu da cabeça. Lembro-me, entre outros álbuns, do Bad do Michael Jackson. O meu pai ouvia muito rock, muita música brasileira — tínhamos Fafá de Belém. E a minha mãe cantava fado. Uma coisa que eu não me lembro, da minha mãe e do meu pai, era ouvirem música africana. Os meus irmãos ouviam música africana, os meus tios ouviam música africana. A minha mãe ouvia Julio Iglesias. Sou o mais novo de seis irmãos. O meu irmão mais velho já tem 50 anos. Um ouvia techno, outro ouvia rock, as minhas irmãs ouviam música africana, hip hop, Shania Twain, tudo o que possas imaginar. Em minha casa consumíamos muito os singles. Lembro-me que rádio era uma coisa muito importante em casa. Na hora do jantar, festa ou não, a música era muito importante.”

Sem capacidade para compreender o que o rodeava, Deville já se sentava entre músicos de primeira linha sem precisar de sair de casa. “A minha família já tinha ligações com certos músicos que frequentavam a minha casa. Eu não ligava, né? Desde pessoal dos Kussondulola, Tito Paris… Eu via, mas não ligava muito. Só mais tarde, aos 8 anos, é que me começo a interessar por música. E estava num ambiente propício: tinha, sem exagero, centenas de CDs em casa, de tudo e mais alguma coisa.”

Juntam essa informação toda a uma aptidão natural para criar música e têm um talento ímpar à vossa frente. “Comecei a aperceber-me que havia alguma coisa na música que mexia comigo de maneira diferente desde miúdo. Quando era relativamente muito jovem, 6 ou 7 anos, mal sabia ler, eu pedi à minha mãe para me oferecer um dicionário de inglês-português. Eu queria perceber o que as músicas em inglês estavam a dizer. Hoje em dia eu percebo que se calhar para uma criança é muito cedo, mas logo ali se calhar também se nota que há um interesse qualquer pela música. Não é uma criança qualquer de 5 anos que chega e quer perceber o que é que ‘eles’ estão a dizer. Mas a primeira interacção com música foi no bairro onde eu vivia, em Odivelas. Havia um grupo chamado Alta Tensão, grupo de baile, tocava tudo e mais alguma coisa. Eles faziam os ensaios perto da minha casa e eu passava por ali, ficava a ver, eles convidaram-me para entrar uma vez. E o vocalista estava a cantar fora de tom. Na altura eu não sabia o que era cantar fora de tom. Eu lembro-me de dizer “não é assim, é assim”. Eles acharam engraçado, convidaram-me para o concerto da noite, eu fui lá, e a partir daquele dia a música entrou na minha vida. Cheguei ao pé da minha mãe e pedi-lhe um piano. Havia aquelas lojas antigamente, comprou-me um pianozinho, daqueles de 1000 escudos com sons. E é impressionante que eu cheguei e eu sabia onde é que as notas estavam. Não sabia os nomes das notas, mas sabia que aquela fazia aquele som. E comecei a tocar tudo, desde o ‘Apita ao Comboio’, Nirvana, a música do MacGyver. A partir daí comecei a ganhar um interesse muito grande por tentar descobrir como se fazia música. Mas isto tudo, resumindo e concluindo, deu-me uma abertura para a música (e para a produção). Sempre tive vontade de saber como é que se fazia. Eu lembro-me de eu próprio fazer exercícios em pequeno e não fazia a mínima ideia que aquilo também se estudava na escola. Eu punha uma música a tocar dos Nirvana e tentava identificar: tem uma guitarra, um baixo, que instrumento é este? E escrevia. E hoje em dia percebo porque é que eu fazia isso.”

O beatbox, claro, teve papel importante no início da caminhada. “O beatbox também entrou muito cedo na minha vida. Até hoje ajuda-me imenso em termos rítmicos. Eu antes de produzir alguma coisa faço mentalmente o beatbox, sei exactamente o que quero, os tipos de pratos que quero.”

Numa fase em que muitos miúdos sonham ser futebolistas, astronautas ou médicos, SP percebeu logo que a música era o seu caminho. “Lembro-me de mostrar interesse, de dizer à minha mãe que queria ter aulas de piano. A minha mãe deu-me 1000 escudos para eu ir às aulas de piano. Fui à primeira aula de piano e nunca mais lá voltei. Peguei nos 1000 escudos e tive a curtir. 1000 escudos na altura dava para curtir um mês, basicamente. Mas a vontade sempre ficou. Lembro-me de uma vez numa competição na escola, basicamente todos os anos eles juntavam as diferentes classes e cada um cantava uma música. Então na competição da escola, e estamos a falar para aí na terceira ou quarta classe, nós estávamos a cantar uma música em francês. E no dia do espectáculo na escola, a rapariga que era suposto cantar não foi à escola e eu sabia a letra e disse “posso cantar”. Nós ganhámos a competição e tal e logo ali também houve pessoas que chegaram ao pé de mim e disseram ‘olha, devias cantar’.”

Por mais estranho que pareça, o vocalista dos Nirvana foi a sua primeira influência directa: o primeiro álbum que lhe ofereceram foi o MTV Unplugged in New York dos Nirvana. “Nós temos uma coisa a que chamamos ‘stenawenons’, que é quando não sabes inglês e estás a fingir que sabes falar. Props ao Bdjoy que a dica é dele [risos]. E eu ouvia aquilo e cantava o meu ‘stenawenons’ por cima. Aquilo abriu-me um range vocal e uma coisa totalmente diferente, que hoje em dia noto no meu timbre. Se aquele meu primeiro álbum fosse Michael Jackson, se calhar cantaria mais à Michael Jackson, mas isso é subconsciente. Nós músicos temos uma coisa, principalmente os cantores, que é, há notas que nós se calhar não fazemos porque não sabemos que é possível fazer, então temos que ver outra pessoa a fazer, para chegar-mos lá. Depois tens as pessoas que são inclinadas para isso. Mas esse álbum dos Nirvana fez-me a cama para muita coisa. Hip hop apareceu na minha vida muito mais tarde, mas esse álbum dos Nirvana apareceu-me na vida tinha eu 10 anos, basicamente, e o hip hop já apareceu na minha vida quando tinha 14 ou 15. Já ligava a televisão, nós tínhamos o canal VIVA, que dava tudo e mais alguma coisa de hip hop, e já víamos Tupac e as cenas mais comerciais. O que chegava cá sempre eram os singles mais comerciais, mas não havia assim nada que me chamasse a atenção no hip hop até ao álbum dos Fugees. Aquilo mudou-me completamente a maneira de pensar musicalmente. Aquela música, a ‘Killing Me Softly’, é uma obra de arte. A maneira como ela canta, a maneira como o beat foi feito, a simplicidade de tudo aquilo… Identifiquei-me logo mais com aquilo do que tudo ouvi no resto da minha vida. Logo aí, hip hop apareceu na minha vida em grande.”

Dos 13 aos 23 anos, SP Deville viveu e estudou em Londres. A partir da idade adulta, a produção musical entrou de forma mais séria na sua vida. “Comecei com Introduction of Music Technology lá em Londres. Basicamente cheguei e apercebi-me do mundo da produção. Eu produzia no eJay, uma coisa ridícula. E depois chegar lá e porem-me um Cubase à frente, um Pro Tools, um Cakewalk… É um mundo a abrir-se. Depois tive a sorte de ter professores que eram muito conceituados na música britânica. Eu tinha 18 anos, mas tinha colegas de 40 anos, colegas da minha idade, colegas de 30 anos… um jamaicano, outro da Coreia, e toda a gente a querer aprender a fazer algo para depois voltar para o seu país e fazer música. Então também fui apanhando um bocadinho de todos. Depois conheci pessoas que eram impressionantes, que tocavam tudo, rimavam, cantavam, mas não tinham carreiras musicais a solo, era pessoal que trabalhava só por trás. Músicos de estúdio. Isso também ajudou-me muito a perceber como funciona o background da música.”

Também foi aí que percebeu, pela primeira vez, a importância do papel do produtor. “Há muita gente hoje em dia de fora que não percebe a importância de meter ‘produzido por’. Tem que ser. Se não for, passa no esquecimento. É importante numa altura como esta, em que toda a gente faz, é bom que seja anunciado quem o fez. Eu costumo dizer a toda a gente que nós, os portugueses, somos dos poucos que ainda continuamos a pôr o “produzido por” e damos props aos nossos produtores e levantamos o nosso game porque é bom saber a importância que isso tem. É bom saber que hoje em dia temos produtores tão importantes como MCs.”

Pedimos-lhe para apontar alguns produtores portugueses que, na sua opinião, estão dentro desse grupo de elite. “Curto muito Here’s Johnny, tem o som dele. Há pessoas que me inspiram muito, e não só pela produção. O Beatoven. Beatoven é família. Eu vi o Beatoven a crescer. Quando conheci o Beatoven, ele já estava a dar o move dele. Mas as primeiras interacções que tive com o Beatoven, ele como produtor, começou a mostrar beats que os MCs à nossa volta, ‘aí, muda isso, isso é trap, não quero’. E eu gosto de dizer, e digo a toda a gente de boca cheia, apesar de hip hop ter aquela originalidade que vem sempre da América, mas há coisas que há pessoal que começa, estás a ver? O Beatoven é que trouxe o trap e os 808s para Portugal. Na mesma qualidade. Em casa a produzir com o portátil dele, na altura já tinha a mesma qualidade que o pessoal da América com os grandes estúdios. Hoje em dia, o Beatoven está a trabalhar com o Yuri da Cunha, com pessoal que não é qualquer produtor que trabalha. Não é qualquer músico que aceita trabalhar com aquele produtor de rap que faz aqueles beats assim. A musicalidade que ele tem… Adorei ver o crescimento.”

E aponta mais dois nomes: Kilu e Sam The Kid. “Há pouco tempo, na cena do Alive, o Glue tocou uns beats do Sam e tocou ali umas coisas que meu deus. O meu EP tem que ter um beat do Sam”. Apesar de ainda estar no meio do processo de criação de It’s Deville Bitches Vol. 3, o rapper e produtor revelou alguns detalhes sobre o que aí vem: “estou com beats de pessoal novo neste EP. Tudo isto para também dar props ao pessoal novo. Tenho um beat do ORATO, uma cena incrível, tenho do FredFox, 808College, que também já produziu para o NGA. Tenho três beats meus. O EP era para ser com seis sons, mas vou meter oito. Não queria que fossem todos beats meu. Um deles é co-produzido pelo Beatoven. Um beat do Sam. Também tenho outro beat de um miúdo daqui da zona, que não produz, quer dizer, produz de vez em quando. Fez uma melodia que me deixou completamente passado. Tenho também uma cena do Duscal, que é um miúdo também aqui da zona.”

Regressando à capital do Reino Unido. Numa cidade propícia para alguém que quer explorar as suas veias artísticas, Pedro deixou-se levar: “Londres pôs-me coisas à frente que eu nunca pensei serem possíveis. Quando cheguei a Londres, apaixonei-me por música electrónica. Já ouvia um bocadinho de música electrónica em Portugal, tu ligavas a rádio Cidade e tinhas aquelas compilações que eles faziam. Depois tinhas o Alcântara-Mar. Foi uma altura que eu acho que marcou toda a gente em Portugal. Quando cheguei a Londres, as minhas primeiras saídas foram as festas dessas. E eu acabei por viver num sítio em Londres, que é Earls Court, que é mesmo no centro de Londres, e fui a uma loja e vi a capa dos Prodigy, Music For The Jilted Generation. Ouvi aquilo e fiquei de boca aberta. A primeira interacção mesmo a sério com música electrónica foi ali. Eu vejo o CD, fico à toa, levo o CD para casa, e houve uma música que me deixou completamente maluco, a ‘Poison’.”

Ao contrário de outros nomes que olham com algum desdém para as novas formas (e formatos) de se fazer música no rap português, SP Deville mostra-se agradado com o rumo dos acontecimento: “Os putos também estão a aparecer com coisas brutais. Eu sou mega apologista de abraçar tudo o que é novo no hip hop. Adoro saber que já é pop. Que há trap-soul, que há trap-pimba, que há trap seja o que for, e que há público para isso. Hoje em dia há maneiras novas de explorar o mercado. Finalmente em Portugal a coisa das listas é uma coisa que vale a pena. Tu já vês os jovens a alugarem discotecas, salas, fazerem mini-festivais. E isso é bom porque é uma espécie de mini-Recepções ao Caloiro e isso é mega importante para o hip hop crescer. Eu quando ligo o telemóvel e vou ao Instagram, tu vês desde miúdos novos até pessoal com algum gabarito a fazer. É bom ver a maneira com que isto se está a começar a movimentar. Eu ando na rua e já vejo miúdos com t-shirts de Wet Bed Gang. E não estou a falar de t-shirts que eles foram comprar, são t-shirts que os putos é que estão a fazer. É a vontade de querer mostrar que são fãs. Isso é muito fixe. Já vejo os artistas a trabalharem mais merchandise. Começarem a fazer digressões como deve ser, não é uma digressão porque têm três datas no Norte e uma no Algarve. Não, eles vão e começam a marcar muitas datas. Começa a transformar-se num negócio em todos os aspectos. É bom ver a autos-suficiência dos artistas. ”

 



E aproveita para deixar algumas ideias soltas sobre o panorama: “Acho que é muito importante passar conhecimento uns para os outros. E principalmente agora em Portugal. As pessoas não têm bem a noção, mas nós estamos a fazer números de verdade. Pondo dinheiro ou não. Lil Wayne lançou o álbum dele há pouco tempo e o primeiro single, e o Piruka numa semana teve mais views que o Lil Wayne no mundo inteiro. É porque há gente a ouvir. É impressionante e é bom que nós comecemos a perceber que temos que apoiar. Estamos a precisar de Cristianos Ronaldos no rap, na música, estamos a precisar de pessoas que sejam bons role models para a juventude. Acho que um dos melhores role models que temos é o Agir. Não é só pelo Agir ser meu amigo. Eu conheço o Agir há algum tempo. Sei algumas coisas que o Agir passou e é bué gratificante, como amigo, ver o pulo. E não é só em termos profissionais, é em tudo. Eu já não via o Agir há algum tempo, tivemos juntos agora há pouco tempo e ele traz o melhor de mim. Para os miúdos, acho que é bom porque é alguém que tem uma mensagem muito positiva por trás. O Agir deve ser um dos melhores músicos portugueses de sempre. Tu entras num estúdio com o Agir e tu apercebes-te logo disso. Pega-te na guitarra, pega-te no baixo, canta-te coisas, escreve-te coisas na hora que ficas… É mesmo impressionante. É fora do normal. E nós precisamos de pessoas fora do normal que fazem coisas acontecer. E o Agir é hip hop desde sempre. Eu sinto isso. O Agir esteve no meu primeiro concerto de hip hop. Os concertos que tiveram mais peso na minha carreira no hip hop português estava lá o Agir. O Agir pinta desde não sei quando. You don’t get more rap than that. Hip hop mesmo.”

A sua carreira deu os primeiros passos (profissionais) no regresso a Portugal, fazendo parte de dois grupos com sucesso comercial: SP & Wilson e Makongo.

“O Wilson apareceu na minha vida quando voltei para Portugal. Eu chego a Portugal e já tinha a ideia do Sou Quem Sou, já tinha escrito as letras. Na altura eu escrevia, depois é que fazia os beats. Agora faço ao contrário. Mas pensei em fazer o álbum, e conheço o Wilson, através de um amigo meu, que é o Domingos, que foi road manager de Makongo. Ele disse-me, ‘epá, tenho um gajo aqui em Odivelas que também faz beatbox. Devias conhecer o Wilson’. Ele manda-me o contacto do Wilson, eu chego a Portugal e liguei-lhe. Quando fui ter com ele, reconheci-o e disse-lhe na brincadeira: ‘eu não te roubei uma vez?’ [Risos] E começámos os dois a rir. E a cena foi: isto aconteceu numa quinta-feira. Nessa quinta-feira à noite, havia qualquer coisa no Konvento. Eu e o Wilson, às três da tarde, encontrámo-nos em Odivelas pela primeira vez. Ele mostra-me dois beatbox dele em frente de um centro comercial. O Wilson faz um som do Snoop Dogg e faz outro som, acho que era Lord Kossity, uma cena qualquer bué conhecida. E eu faço o “Light Your Ass On Fire”, que era Neptunes e Busta Rhymes, e outra cena qualquer. E eu fiquei mega impressionado com o beatbox dele, ele ficou mega impressionado com o meu beatbox. E a cena muita estranha é que nós nesse dia, à noite, tínhamos os dois uma actuação no Konvento. Estávamos juntos, fomos para o Konvento juntos. E é muito engraçado [risos] que eu lembro-me do flyer e num canto estava a dizer Wilson Beatbox e no outro lado vinha a dizer SP Beatbox, mas no meio vinha a dizer ‘Vs.’. E nós chegamos lá e perguntámos, ‘mas é para fazer batalha?’, e o gajo do Konvento disse que sim. Nós subimos ao palco, eu dou um beatbox, o Wilson dá outro beatbox e uma coisa que é impressionante… Durante 4 anos aquele beatbox que nós fizemos no palco, durante 15 minutos, foi o beatbox que nos carregou durante 4 anos. Aquilo parecia ensaiado. Era uma cena que parecia mesmo ensaiada. Então quando ensaiávamos era impressionante. Começámos a decidir que íamos fazer umas datas juntos. E logo na nossa segunda ou terceira data, nós fomos tocar à discoteca W e as pessoas não têm bem a noção do que a discoteca W era. Tu não vias muito pessoal de raça negra e não vias de certeza miúdos com tranças. Então eu e o Wilson entramos ali numa festa privada do Governo onde estava Pedro Santana Lopes e Paulo Portas. E eu e o Wilson vimos coisas que… Depois eles chamam-nos bandidos a nós [risos]. Vimos coisas impressionantes. Impressionantes mesmo. Career ending [risos]. E subimos ao palco, o Wilson dá beatbox, eu dou beatbox, e eu aproveitei que estava ali no meio e começo a cascar o pessoal em freestyle. E no fim, o people bate palmas a rirem-se porque acharam que nós fomos mesmo contratados para gozar com aquilo tudo. Houve alguém que nos viu ali e curtiu bué.”

No próximo ano, SP & Wilson reclamam o seu papel na História do Hip-Hop Tuga. “Sempre tentámos carregar a cena do hip hop. Mas Portugal sendo Portugal, o país mais bonito e mesquinho do mundo… É assim, há coisas aqui que nunca vão crescer porque nós não damos oportunidade para crescerem. Se Portugal fosse Inglaterra, SP & Wilson teriam chegado mais longe. Sem dúvida nenhuma. Mas percebo porque é que eu e o Wilson chegámos onde chegámos. Porque tínhamos boa música, um concerto brutal, mas hoje em dia falo um bocadinho disso com tristeza porque as pessoas olhavam para nós como ‘os dois mulatinhos’ no palco. Achavam-nos engraçadinhos. Não pelo que fazíamos, mas pelo package que viam. Isso tocou-nos assim um bocadinho e hoje eu e o Wilson a conversarmos percebemos que houve muita coisa que só sobressaiu porque fomos vendidos de certa forma e pelas razões erradas. E tivemos sorte: trabalhámos com o Bomberjack e não temos razões de queixa dele. O Bomberjack sempre nos pôs em sítios que era importante nós estarmos. Depois quando nós fizemos aquela transição de alcançar um público mais mainstream, o próprio Bomberjack percebeu que era possível conseguir ir para ali. Tanto que a Footmoovin’ depois expandiu muito mais e já tínhamos outro tipo de sonoridade e tudo. Resumindo e concluindo, a minha aventura com ele começou assim. O Bomberjack quis lançar o Sou Quem Sou e eu disse, ‘olha, antes de lançares o Sou Quem Sou, lança o disco de SP & Wilson, estamos com bué buzz e acho que vale a pena’. Ele disse que tínhamos dois meses para entregar um álbum. Nós fechámo-nos no estúdio e foi o que aconteceu.”

Antes de fundar os Makongo, o cheque que surgiu depois do lançamento do primeiro álbum de SP & Wilson levou-o até aos Estados Unidos da América, onde conviveu com os Wu-Tang Clan, por exemplo. Tudo por culpa de Afu-Ra.

“O Afu-Ra veio tocar cá e eu fui lá ao concerto. E eu vou ser sincero, eu curtia bué da cena da crew dele, e a primeira vez que eu ouvi a cena do Afu-Ra, eu curti, mas tinha outro pessoal que curtia mais. Mas depois vi ao vivo e percebi que o gajo tinha power. E para vocês perceberem. O Bomberjack vira-se para mim e diz, ‘olha, preciso de um grande favor. Tu falas inglês, podes levar o Afu-Ra ao Colombo para comer?’ Eu levo o Afu-Ra ao Colombo, e estou sentado com o Afu-Ra, e ele pergunta o que é que vamos comer. Eu mostrei-lhe as opções e ele diz-me que lhe apetecia mesmo comer era numa mesa como deve ser e não num centro comercial. Então liguei para a minha mãe e pedi-lhe para fazer qualquer coisa. Fui com o Afu-Ra lá a casa. A minha mãe tinha uma coisa que era brutal: ela era muito atenciosa com todos os músicos que eu levava lá a casa. Não fazia comigo, mas fazia com os outros [risos]. Eu ficava mega chateado, mas hoje em dia percebo. O Afu-Ra chegou, ela sentou o Afu-Ra, e pôs-lhe uma garrafa de whisky à frente dele. Serviu o Afu-Ra, e juro-te pela minha mãe que está no céu, ele dá uma garfada, põe o arroz na boca e começou a lacrimejar. ‘I miss my mom, i miss my family‘. E a minha mãe pergunta ‘o que é que ele está a dizer?’, eu respondo-lhe, ‘está a dizer que tem saudades da família’ e ela responde, ‘oh, coitadinho’. E eu a pensar, ‘a minha mãe está a fazer festinhas ao Afu-Ra, meu deus’. Dois anos depois estou eu em casa do Afu-Ra com os Wu-Tang, só para perceberes como é que ele me abriu as portas. Ligou-me a perguntar onde é que eu estava e disse-me que ia ficar em casa dele em Brooklyn. Deu-me a cama dele, o quarto dele, até hoje mantemos uma relação. E as coisas que ele fez por mim nos Estados Unidos, apresentou-me a pessoal que nós ouvimos a crescer. Imagina-me a um domingo… ‘P, veste-te, vamos ali’. E vamos a um bar tipo o 36, e chegámos lá e está o DJ Premier a pôr o som e o Q-Tip no microfone, mas estão três pessoas lá dentro. E eu, ‘damn!’ Tive aventuras… Eu preguei uma ‘partida’ ao Sam, que não foi partida nenhuma. Eu estava em casa com o Afu-Ra, Masta Killa dos Wu-Tang, mais dois rappers e o DJ P.F. Cuttin e eu viro-me para eles e digo, ‘olha, vem aí um amigo meu e ele traz a MPC dele, eu vou-vos avisar já que ele é um dos melhores produtores do mundo’. O Sam entra lá e eles viram-se para ele e dizem: ‘o SP estava a dizer que eras um dos melhores produtores do mundo’. E o Sam ficou logo bem vermelho. ‘Estás-me a queimar já assim, mano, ainda por cima trouxe uma disquete com dois ou três beats‘. E eu disse-lhe ‘mano, é o que eu sinto, é o que eu acho’. O Sam tinha uma disquete com dois ou três beats, eu já estava a conviver com aqueles gajos há dois ou três meses e eu mostrei-lhes 250 beats e eles ‘ya, produzes fixe’. Quando o Sam mostrou aqueles beats, eu senti uma cena que ainda não tinha sentido comigo. E só senti isso com eles mais tarde. Como podes calcular, aquilo abre horizontes dentro da cabeça de uma pessoa. Eu digo a toda a gente e não tenho vergonha de dizer isso: eu fiz os Wu-Tang adormecerem à minha frente. Raekwon e Wu-Tang adormeceram quando eu estava a mostrar os beats. Eu mudo o beat e penso, ‘eles estão a dormir, meu deus’. E paro. E eles viram-se para mim e perguntam porque é que parei. E eu respondi: ‘vocês estão a dormir’. Dizem-me que não estavam e eu insisto: ‘pá, vocês não estão a curtir’. E rematam: ‘mano, isso que tu estás a mostrar são bons beats, mas estás a copiar aquilo que nós ouvimos a vida toda, aquilo que fazemos, mostra algo original’. E lá começo a mostrar os meus beats originais. Engano-me e o primeiro beat que eu mostro foi um beat que estava a produzir para a Petty. E eles ouvem aquilo [risos] e descrever a imagem que eu tenho na cabeça… o beat entra, que é um beat de kuduro, e o Masta Killa levanta-se e começa a perguntar como é que se dança e rima naquilo. E eu estou tipo, ‘really?’ Tenho o pessoal dos Wu-Tang à minha frente, estou-lhes a mostrar beats e o que eles estão a curtir é kuduro. Fiquei à toa.”

O “desaparecimento” entre Makongo e Sou Quem Sou é uma ilusão de óptica. Se olharmos bem, Deville nunca saiu da nossa frente. O próprio ajuda a dissecar esse momento: “Eu decidi que a música não me estava a dar a mesma satisfação pessoal. Senti que o meu sonho era lançar um disco. Já tinha lançado quatro, então já concretizei o meu sonho quatro vezes. Já não consigo subir mais. Então entrei ali numa fase que eu acho que qualquer músico e criativo entra. Uma fase de sentir que se calhar não estava a acontecer porque se calhar eu não era assim tão bom como pensava. Que é uma das piores coisas que um artista pode pensar… Tive uma altura assim um bocadinho de descoberta, à procura do meu som. Mas estive a fazer coisas. Estive a trabalhar com os Teratron, que era um grupo feito pelo Quaresma dos Da Wasel, eu, o New Max, o Adolfo Luxuria Canibal que faz parte dos Mão Morta. Participei nisso, andei aí a fazer uns concertos com eles. Continuámos sempre a fazer concertos de Makongo. Comecei a fazer mais Makongo em DJ set e entrei na minha viagem de auto-descoberta de rap. E eu o que decidi fazer foi desligar o telemóvel, desligar-me das redes sociais e fui à procura do meu som. Estive três anos assim. O que eu encontrei foi o que já cá estava. Foi o Sou Quem Sou, que era o rapper em mim. Tive uma fase em que a própria indústria portuguesa me pôs problemas de auto-estima, que eu sentia que o rap não me respeitava como eu queria. ‘O SP é fixe, produz fixe e faz bons refrões’. Mesmo que eu faça só isso já é o suficiente para vocês me respeitarem, mas não. Eu senti que sempre que estava ao pé do Sam, do Valete, não eles, mas as pessoas à volta, faziam-me sentir que até era estranho verem o Valete e o SP. Faziam-me sentir que eu é que era o estranho na situação. E o Valete e o Sam foram duas pessoas que sempre me empurraram a fazer o que eu achava que devia fazer. Eu só tive dois MCs cá em Portugal que chegaram ao pé de mim e me disseram que o meu rap nem era fixe, que devia só cantar. E quando eu lancei o Sou Quem Sou mudaram completamente. São pessoas que hoje até trabalham comigo.”

Do Sou Quem Sou que apresentou ao Bomberjack até ao disco que lançou em 2016, o que é que ficou? “Ficou toda a ideologia, que era um álbum de 18 temas a falar de mim. Com 23 anos, o que é que eu tinha vivido para falar de mim? Com 30 aninhos já vivi um bocadinho mais, já tive a morte na minha vida, já tive amor. Já tive a experiência de ter dinheiro, de não ter dinheiro. De batalhar pelo que eu faço, de ter um emprego normal, de ter um emprego não tão normal. De fazer coisas ilícitas, de não fazer coisas ilícitas. De escolher vários caminhos. O Sou Quem Sou é um álbum muito complicado de superar porque eu pus tudo ali.”

Em 2017, Pedro anunciava que Black Gipsy seria o seu último trabalho escrito e cantado em português, mas, entretanto, uma série de acontecimento fizeram com que mudasse de ideias. “Tive que vir a Portugal e ver o que se estava a passar aqui. Tive que ter os putos novos a puxar por mim, darem-me sangue, a dizer que tinha que lançar cenas. Há uma coisa que muita gente já se apercebeu, que é: eu sou o rapper dos rappers, sou o produtor dos produtores. Há pessoas que dizem isso com bué orgulho e eu digo-o com orgulho, claro. Mas todo o fã que eu conheço faz música, todo! Tive um exemplo, há dias fui tocar e noto que quem ouve mesmo a minha música são os músicos.”

Daqui a poucas horas, SP Deville sobe a palco para actuar na edição deste ano do Super Bock em Stock. O artista explica o que se vai passar: “Vou ter músicos comigo. Eu tenho uma versão one man show, em que levo as minhas máquinas todas que é muito fixe, mas quero passar para mais. Quero dar ao público um pouco mais. Há temas que vou tocar que nunca toquei. Vai desde o Sou Quem Sou ao It’s Deville Bitches, passando pelo Black Gipsy. Por acaso não apresento nenhum som do novo EP. Curtia, mas 50 minutos não dá para fazer tudo. Levo uns convidados comigo. Vão ser umas coisas engraçadas, uma delas ninguém vai estar à espera. Vai ser engraçado. Vou fazer aí um tributo também aos novos músicos. Vou fazer uma mistura que o pessoal vai curtir; acho que sim. Por acaso estou mega desejoso para fazer isto. Estou muito ansioso. Ainda há dias estava a tocar no palco, a passar som mas só pensava naquilo. Durante muitos anos tive uma dificuldade muito grande em decorar letras das músicas por estar sempre a escrever. Eu faço muito ghostwriting para fora. Muito para Angola, Moçambique. E eu literalmente escrevo todos os dias. Eu acho que as pessoas vão ouvir um bocadinho de tudo da minha carreira. A influência da música africana. Temos ali uma brincadeira no meio que misturamos um bocadinho de semba com o ‘Sonhei Contigo’, uma coisa que não tem nada a ver.”