#ReBPlaylist: Outubro 2018

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Façam-se as contas: Ghostface Killah, Sheck Wes, Chester Watson, Dave East & Styles P, Lil Baby & Gunna, Rocky Marsiano, Roc Marciano & DJ Muggs, Homeboy Sandman & Edan, NAO, Quavo, Lando Chill, Froid, Boss AC, Secta & Metamorfiko, Sam The Kid, Subtil, Brent Faiyaz, Neneh Cherry, Future & Juice WRLD, Conjunto Corona, Batida, Mick Jenkins, T-Rex, Black Eyed Peas, Apollo Brown & Joell Ortiz, Georgia Anne Muldrow e BK foram alguns dos nomes que editaram novos projectos em Outubro.

No meio disto tudo, o desafio era encontrar temas que não fizessem parte destes discos. Se a primeira escolha recai num deles, as restantes cinco esquivam-se e pintam um quadro ainda mais colorido de um mês que provavelmente voltará em força nas listas de melhores do ano.

 


[NAO] “If You Ever” feat. 6LACK

O novo disco de NAO é uma nova oportunidade para a artista alcançar o público que lhe escapou à primeira. Embora pareça injusto afirmar que encontramos fórmulas semelhantes à do anterior álbum For All We Know, Saturn é, efectivamente, feito da mesma matéria prima. A pop, que aglutina as suas influências e aprendizagens do jazz, do funk e do r&b, vem acompanhada de novas tendências com ritmos sincopados latino-americanos muito dançáveis, mais acessíveis, e uma intensificação dos graves no espectro sonoro. A cantora inglesa tem sempre uma proposta ambiciosa e exigente para os ouvidos dos ouvintes, exactamente pela maneira como mostra a bagagem que carrega na sua música. Por exemplo: a bonita bridge, composto por overdubs de voz em harmonia, cordas e Rhodes, puxam para a frente a versatilidade, emoção e expressividade da sua música.

Apesar de ter um registo mais espaçado que também pontua outras faixas do álbum — como “Another Lifetime “, “Don’t Change” ou “Gabriel”–, “If You Ever”, faixa com produção de NAO & Mura Masa, está, obviamente, na linha de músicas que trazem o lado mais solarengo do álbum. Numa versão que não fez parte do alinhamento final, o convidado 6LACK mostra que o seu cunho também encaixa em canções com uma toada mais alegre.

– Vasco Completo


[GÁBE] “As Noites Contam Histórias” feat. Ângela Polícia

A privação do sono é um óptimo método para aprimorar os sentidos. Consequentemente, o estado alterado da mente humana funciona como estímulo natural para desbloquear novas histórias e narrativas. Com um oceano a separá-los, GÁBE e Ângela Polícia partilham da mesma aptidão para tornar as noites em dias e usá-las como telas em branco para criar novas obras de arte. Em comum, os dois rappers têm também o dom da escrita aguçada, capaz de hipnotizar os ouvintes mais curiosos em saber o que realmente se passa no subsolo desse grande movimento de massas que é o hip hop. “As Noites Contam Histórias” é uma das mais belas baladas que a língua portuguesa vê nascer este ano e, simultaneamente, uma colaboração de extrema importância entre dois países-irmãos, cujas correntes artísticas se cruzam em cada vez mais pontos. Destaque também para o instrumental sonhador num universo post-trap assinado por Bova e para a equipa da JODO, que tem sido incansável nas narrativas visuais que cria para a sempre fértil cena underground do rap brasileiro.

– Gonçalo Oliveira 


[Loyle Carner] “Ottolenghi” feat. Jordan Rakei

As viagens em transportes públicos são muitas vezes como os sonhos. Durante breves momentos, as histórias das pessoas que partilham connosco o trajecto cruzam-se com a nossa e são reais até ao momento em que saímos na nossa estação. Desses encontros ficam-nos apenas rasgos difusos na memória, como de um sonho ao acordar.
“Ottolenghi” é a mais recente faixa de Loyle Carner e veio acompanhada de um vídeo brilhante capaz de nos fazer mergulhar nos devaneios surreais do south london boy numa qualquer viagem de comboio a caminho de Londres. Com produção imaculada de Jordan Rakei, o músico emprestou ainda a sua voz dourada aos versos:

“Born and raised
Made attempts to crawl away
Find a way
To exist and hide your face
Some relate
Leave everything in yesterday”

Já o título deve-se ao conhecido chef Yotam Ottolenghi. Quando alguém perguntou a Loyle Carner, numa dessas viagens de comboio, se estava a ler a bíblia, o rapper respondeu que, na verdade, estava a percorrer as páginas de Jerusalem, de Ottolenghi, um livro de descoberta do Médio Oriente através de receitas culinárias. Uma dessas histórias curiosas em viagens, um fragmento de sonho cristalizado numa das mais belas faixas que este mês nos trouxe.

– Vera Brito


[O Gringo Sou EU] “Se Liga na Pista”

“Se liga na pista, temos fascismo, temos fascista”, atira o rapper brasileiro, sediado no Porto, O Gringo Sou EU. A nova tirada sucede ao disco Cada Vez Pior, e sai, nem por acaso, no dia anterior à segunda volta das eleições brasileiras, em que Bolsonaro é de facto eleito, e fruto da colaboração com o produtor e artista multi-expressões Diogo Tudela — neste registo assina como Make’em. “Se Liga na Pista” passa O Gringo em definitivo para os lados negros da electrónica e aprofunda as suas raízes no funk brasileiro, resultando numa combinação belicosa e declaradamente antifascista. O alerta está dado e, parafraseando Emma Goldman, “se não puder dançar não quero a tua revolução.” Juntemo-nos a’O Gringo Sou EU.

– André Forte


[Stereossauro] “Flor de Maracujá” feat. Camané

Vejamos: acesso privilegiado a samples da eterna Amália, que canta o seu sangue e o seu povo; palavras fundas e sentidas de Capicua que escreve de outro lugar; cordas vocais de Camané que canta como quem sofre; magia de Stereossauro que programa como se tivesse crescido no Bairro da Ponte, entre mundos e tradições, entre sons e vozes, entre ideias e concretizações, entre guitarras e gira-discos. Desse improvável caldinho, dessa nunca tentada perspectiva, nasce uma promessa real de futuro, um novo paradigma, um novo som, que é só nosso, que só poderia existir aqui e agora mas que precisava de alguém que o tornasse real, audível. E visível também, que tudo isto mereceu olhar de Bruno Ferreira que transforma um país em menos de quatro minutos, com rapazes e raparigas, com lama e mar. Tudo certo. Venha o resto…

– Rui Miguel Abreu


[Jay Fella] “Cocaine”

Metade da dupla Silab n Jay Fella, Rui Marques é um dos MCs mais talentosos da nova geração, serpenteando, à boleia de skill e bragadoccio, entre beats de todos os tipos. Com laivos de Blasph e Boss AC, mas com um flavour único (e fresco), o rapper da Amora, Seixal, arrasa o instrumental de “Come Through and Chill”, de Miguel, e ainda ensaia um refrão que abre um novo leque de possibilidades — já tinha mostrado aptidão para as cantorias em “Fear freestyle“. Fica o aviso: “Quando eu entrar no game não vai sobrar nobody“. Nem é preciso repetir para passar a mensagem…

– Alexandre Ribeiro

ReB Team

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